Conto

Quem Não Quer Ser Lobo...

1872
Este conto foi originalmente publicado no Jornal das Famílias, em abril e maio de 1872, assinado por J.J. O texto desta edição eletrônica foi cotejado com o da publicação original.

V

O vulto

Ao rés-do-chão, e por baixo das janelas, havia uma sala, com uma mesa e poucas cadeiras, iluminada por um bico de gás.

Aí entraram o vulto, Coelho e o cão.

Este foi acocorar-se a um canto com os olhos em Coelho à espera de um sinal do vulto.

Coelho e o vulto encararam-se antes de se sentarem.

- Ah! - exclamou o vulto.

- Ah! - exclamou Coelho.

- Pois é o senhor?

- Eu...

- Temos o eu outra vez - disse o vulto, que era nem mais nem menos Ypsilanti.

- Vou explicar-lhe tudo - disse Coelho, resolvido a contar a história da carteira e o mau pensamento que tivera e obter assim o perdão do que acabava de fazer.

- Sente-se - disse Ypsilanti

Coelho obedeceu. Ypsilanti sentou-se em frente dele, do outro lado.

- O senhor sabe - disse o velho tio de Lúcia - que acaba de fazer uma cousa muito feia.

- Sei, sim, senhor.

- Uma cousa horrível, que eu não lhe perdoarei jamais?

Coelho estendeu a mão.

- Se me quiser ouvir - disse ele.

- Ouvi-lo? Mas que me dirá o senhor para justificar o que acaba de fazer? É desse modo que pretende haver alguma cousa que possuo? Está em minhas mãos, e eu posso fazer do senhor o que quiser. Que diria o senhor se eu o denunciasse à polícia como ratoneiro?

- Senhor.

- E ratoneiro é o senhor, porque tirar um par de galinhas de um quintal e um par de contos da algibeira de um homem honesto é a mesma cousa; só difere o meio. O senhor quis tirar-me um par de contos...

- Enfim - disse Coelho ansioso por explicar tudo, e chamar o furor do velho para o verdadeiro ratoneiro, como ele disse -, enfim, eu espero convencê-lo de que não sou tão culpado como pareço.

- Há de ser difícil.

- Não é.

- Estou ouvindo.

Ypsilanti tirou um charuto do bolso, acendeu e começou a fumar tranquilamente, enquanto Coelho começava a narração do achado da carteira e do pensamento que tivera; não lhe ocultou que a circunstância de não ter dinheiro, que a ambição de possuir alguma cousa o levara àquele erro.

- Tal é, senhor Ypsilanti, o motivo que aqui me trouxe. Foi um erro de que eu me envergonho, mas o senhor pode ver, na franqueza com que eu confesso tudo, o arrependimento que já tenho do que fiz. Agora só me resta pedir o seu perdão... ou expor-me ao que o senhor quiser fazer.

Ypsilanti soltou uma gargalhada.

Coelho enfiou.

- De que se ri? - disse ele.

- De que me hei de rir? Da sua imaginação fecunda. Em tão pouco tempo criou o senhor um romance, que eu poderia aceitar se já não tivesse estes cabelos brancos.

- Pois crê...

- Não creio em nada do que o senhor me disse...

Coelho encolheu os ombros.

- Então não sei o que lhe hei de dizer...

- A verdade.

- Já a disse.

- Não; a outra.

- Não há senão esta.

- Quero ouvir a outra verdade, que é a única verdadeira. E não é melhor ser franco? Por que me não confessa que ama minha sobrinha, que esta lhe corresponde, e que o senhor nutre a esperança de casar com ela?

Ypsilanti disse estas palavras com um modo tão brando que Coelho começou a ver as cousas por outra face. Esperava encontrar um tigre, e achou-se diante de um cordeiro.

Cordeiro não o era ele tanto, porque logo depois das palavras acima transcritas, rompeu nestas:

- Vamos! Fale, meu atrevido! Meu sedutor de donzelas!

- Eu já lhe disse a verdade.

- Não disse. A verdade é que o senhor namora a pequena há alguns meses, que tem vindo algumas vezes ao jardim, segundo me consta, que lhe escreve e é correspondido.

Coelho fez um gesto para falar.

Ypsilanti continuou:

- E pensa que não sei a razão por que me não tem falado? É porque receia que eu lha recuse. Sabe que eu tenho fama de severo, e que só admito casamento em condições vantajosas... Esta é a verdade.

Ypsilanti estava outra vez com o modo brando, e Coelho de novo se animou a tirar proveito da situação.

- Ora, conquanto eu deseje para minha sobrinha um noivo rico, não faço disso questão principal. Pode ser pobre e honesto. Se está nessas condições, por que me não fala? Era melhor; não daria que falar.

Luziu nos olhos de Coelho a posse de algumas dezenas de contos de réis. Era argumento melhor que todos os raciocínios. A disposição de Ypsilanti o animou a dar mais um passo.

- Pois, senhor Ypsilanti - disse Coelho -; tudo confesso; é verdade, eu amo sua sobrinha e peço-lha em casamento. A ocasião não é talvez própria, mas...

- Própria é - disse Ypsilanti -; mas confesse que procedeu muito indignamente até hoje, e que se eu não fosse uma boa alma o senhor devia estar morto a esta hora.

Dizendo isto, bateu o velho com a mão na mesa; o cão grunhiu do seu lugar; e Coelho cuidou seriamente que ainda não estava salvo.

Mas tudo passou depressa.

O velho ergueu-se e disse:

- Pois, senhor, venha amanhã pedi-la oficialmente. E prometa desde já que a há de fazer feliz.

- Juro! - disse Coelho -. E peço-lhe que acredite, senhor Ypsilanti, que não foi a ideia da sua riqueza que me fez amar sua sobrinha, mas...

Ypsilanti sorriu.

- Bem sei, bem sei - disse ele.

Depois acompanhou-o até a porta do jardim.

- Até amanhã.

- Até amanhã.

VI

Mistério

Fechou-se a porta do jardim. Coelho parou na rua, atônito. Durante um quarto de hora não pôde dar um passo.

Tudo lhe parecia um sonho.

De duas uma:

Ou tinha de ser metido numa terrível embrulhada de que era incerto que saísse bem.

Ou então a sua felicidade era certa.

Mas como supor a segunda hipótese?

Enganar o tio era possível; mas a sobrinha? Quando esta o visse reconheceria perfeitamente o engano e teria franqueza para dizer ao velho que o seu namorado não era ele mas outro. O velho perdoaria aos dois, e descarregaria sobre ele todo o furor.

Coelho caminhou lentamente para casa meditando no que acabava de ocorrer. Cada vez se lhe entranhava mais no espírito a convicção de que a situação era para ele terrível; e ao mesmo tempo perguntava a si mesmo como pudera crer que fosse possível conseguir alguma coisa nas condições em que lhe apareceu a carta.

"Eu estava doido, sem dúvida", dizia consigo Coelho. "Supor que poderia dali sair alguma cousa boa era realmente ter perdido o juízo."

Quando chegou a casa estava resolvido a abrir mão da sobrinha de Ypsilanti.

"Mas será isso possível?" perguntava Coelho a si mesmo. "Depois do que se passou, conhecendo-me ele, ainda que pouco, é impossível deixar a empresa. Em rigor, eu devo-lhe uma satisfação. Não há remédio. Em que situação me fui colocar!

Depois a ideia dos contos réis de novo lhe apareceu com todo o seu cortejo de gozos e fantasias.

- Rico - dizia ele -; rico! Oh! Isto é um sonho! Eu posso estar rico daqui a um mês. Foi a minha estrela que me levou lá; está dito; fecho os olhos e aceito tudo.

Não dormiu.

Fez logo mil planos; casava-se num dia, e no primeiro paquete embarcava para a Europa. Na Europa gozaria a vida à larga, e poderia satisfazer a sua ânsia de fazer figura.

Pelas quatro horas conseguiu fechar os olhos.

Mas os sonhos continuaram os cálculos; e o nosso Coelho acordou tarde, bem disposto, risonho e quase rico; pelo menos, rico de imaginação.

O moleque começou a experimentar a feliz mudança operada no ânimo do senhor. Não recebeu o pontapé matinal de costume, e teve o gosto de assobiar uma ária sem medo de interrupção.

Coelho mandou comprar um par de luvas brancas, e encomendar um carro, preparou-se, perfumou-se, e ensaiou-se para a arriscada empresa. Enquanto não saía de casa tudo parecia ir facilmente, mas, apenas se meteu no carro e este começou a rodar pelas ruas da cidade na direção da casa do grego, tudo se foi alterando no espírito do rapaz.

- Mas eu estou vivendo em pleno romance de ontem para cá - dizia o mísero -; isto é uma loucura. A rapariga vai conhecer-me, adivinhará tudo, ou antes, não adivinhará nada, mas compreenderá ao menos que não sou eu o namorado, e tudo se desfaz e eu estou em pior posição do que ontem. O velho, apesar da confissão que lhe fiz, não me há de perdoar a audácia, desde que souber que eu efetivamente a pratiquei. Tudo isto é rematada loucura.

E o carro ia andando.

Então voltava à mente de Coelho a ideia do dinheiro, e esta doce imagem o seduzia e lançava uma espécie de véu sobre os perigos que ele antevia. Imaginava um belo prédio, carros, bailes, jóias, passeios, todos os sonhos de um homem que não tem e quer possuir.

Mas, como o carro andava sempre, e o momento decisivo se ia aproximando, Coelho tornava aos seus terrores, e de novo hesitava se devia ir à casa do velho ou voltar para trás.

No meio dessas alternativas lembrou-lhe um meio que conciliava as esperanças com os receios.

"Entro", pensava ele; "o velho recebe-me; faço o meu pedido. Mandam vir a pequena, e apenas esta aparecer, antes que saiba do assunto faço-lhe um gesto para que se não oponha, como quem lhe explicará o caso depois. Ela imaginará que eu estou de acordo com o namorado, e aguardará a explicação. Quando vier a ocasião, procurarei expor a verdade. Sim, este é o verdadeiro meio."

Com este pensamento foi até a casa de Ypsilanti. O velho já o esperava ansiosamente; recebeu-o cortesmente, ainda que não sem um ar severo, que aliás lhe era peculiar.

Feitos os cumprimentos e presente a tia de Lúcia, expôs Coelho o objeto da sua visita, proferindo um pequeno discurso análogo ao ato, que o velho grego ouviu com um significativo movimento de cabeça.

- Pela minha parte - disse este -, consinto no pedido que faz; mas é mister que minha sobrinha consinta também. Vou mandar chamá-la.

D. Manuela, esposa de Ypsilanti, dignou-se aprovar a resposta do marido e mandou chamar Lúcia. Não tardou que a sobrinha aparecesse à porta, convenientemente vestida, e com os olhos baixos.

Coelho estremeceu.

Não contara com este gesto de modéstia, tão natural na moça que é pedida para casar, e não sabia como fazer o gesto que devia salvar a situação.

Lúcia aproximou-se lentamente do grupo.

- Meu tio - murmurou ela.

- Senta-te, Lúcia -, disse D. Manuela.

Lúcia sentou-se, sempre com os olhos pregados no chão.

Coelho estava em suores frios. Debalde olhava para ela; a moça não levantava os olhos. Começou a tossir para ver se ela levantava os olhos. Ypsilanti, vendo a insistência da tosse, mandou fechar a janela que ficara por trás de Coelho.

Tudo estava perdido.

- Lúcia - disse o velho tio -, este senhor vem pedir-te em casamento. Aceitas o seu pedido?

Houve um silêncio.

"Vai olhar para mim", pensou Coelho, "tudo está acabado".

- Então? - disse D. Manuela.

- Aceito. Muito do meu gosto.

- Tudo está arranjado - disse Ypsilanti -; resta marcar o dia do casamento.

Outro silêncio.

Lúcia não levantara os olhos do chão. Coelho estava em brasas. Esperava o momento em que ela ia levantar os olhos e soltar um grito de surpresa.

Como ela insistia em não olhar para ele, achou ele que o mais prudente era esquivar-se quanto antes e por meio de uma carta explicar-lhe tudo.

Ia já a levantar-se quando Ypsilanti lhe disse:

- Toma chá conosco, sr. Coelho?

Coelho! O nome próprio do homem! Era impossível que, ao ouvir o nome de Coelho, a moça não levantasse os olhos com pasmo.

Nada!

Esta surpresa foi a maior sensação que o nosso herói tivera até aquele momento.

"Será surda?", perguntou ele. "Mas não; ontem ouvia perfeitamente os meus monossílabos."

- Então, sr. Coelho? - repetiu Ypsilanti -. Não toma chá conosco?

- Peço desculpas.

- E eu não lhas dou - acudiu dona Manuela -, há de tomar chá.

- Minha senhora, é-me impossível - disse Coelho com os olhos pregados em Lúcia -; tenho um objeto imperioso que me impede de aceitar este gracioso convite.

Coelho disse estas palavras com voz clara e firme. Lúcia moveu a cabeça para ele.

Coelho nem teve tempo de respirar; fez um gesto com os olhos, enquanto a moça, parecendo não reparar no gesto, volvia a cabeça para o tio e a tia, e mostrava-se completamente senhora de si.

"Não entendo", concluiu entre si o rapaz.

Conversaram ainda algum tempo, até que o pretendente se despediu sem que a noiva lhe desse o menor sinal de surpresa. Parecia que o amava há muito tempo.

- Que mistério será este? - dizia ele no carro -; seja o que for, a moça está caída; vou enfim ser rico.

VII

A sombra de Banquo

Coelho abençoou o acaso e o Carnaval, autores do achado da carteira anônima e da misteriosa carta que o levou à fortuna.

Começou a frequentar a casa de Ypsilanti, logo no dia seguinte, à espera de uma ocasião em que pudesse esclarecer o mistério que parecia estar envolvido na indiferença com que Lúcia o ouviu e aceitou.

Durante oito dias, não pôde ter a ocasião desejada.

No nono dia, porém, alcançou ensejo de falar a sós com a noiva, e desde as primeiras palavras notou que ela, em vez de lhe dizer alguma cousa a respeito da situação em que se achava, conversou placidamente dos seus planos futuros.

- Lúcia - disse ele -, aproveito esta ocasião para explicar-te a nossa situação.

- Que situação?

- A situação em que me coloquei para contigo. Naquela noite em que fui ao jardim conversar...

- Ah! Eras tu? - perguntou ela admirada.

Mais admirado, porém, ficou o nosso Coelho. Eras tu! Então ela confessa que dez dias antes, supunha ter falado ao outro namorado, e apesar disso ia casar com ele, sem nenhum escrúpulo nem resistência?

Havia aí um mistério. Como descobri-lo?

"De um modo simples", disse Coelho consigo mesmo; "pergunto-lho."

E depois de um silêncio:

- Lúcia, pergunto-lhe; admiras-te de que fosse eu quem naquela noite estava no jardim; supunhas então que era o outro... Quem?

Lúcia franziu a testa, levantou a cabeça, mediu e rapaz de alto a baixo e saiu da janela.

"Está tudo perdido", pensou Coelho; "lá se me vai a pequena, e com ela... Reparemos o erro."

O erro não era difícil reparar. Lúcia parece que esperava por isso mesmo.

- Olhe - disse ela -, há um mistério aparente, mas uma coisa muito natural, que eu só lhe explicarei depois de casada.

E disse isto com um ar tão mimoso, que por um triz não endireita a boca.

Coelho deu-se por satisfeito.

Foi marcado o dia do casamento e começaram a correr os banhos. Lúcia estava mais alegre que a mais alegre moça deste mundo; Ypsilanti dignou-se abrir um riso prazenteiro; e Coelho fez grandes promessas aos seus credores.

Dez dias antes do casamento, estava Coelho em casa devaneando e construindo os mais soberbos castelos, quando o moleque veio dizer-lhe que um sujeito mal- encarado o procurava.

- Conheces quem seja?

- Nunca o vi, não, senhor.

- Manda-o entrar.

Daí a pouco chegava Coelho à sala e dava com um homem alto, vestido de preto, sobrecasaca abotoada, cabelos em desordem e olhar ameaçador.

Coelho pôs-se em guarda.

- Que me quer?

Sllêncio.

- Que me quer? -repetiu ele.

- Tenho a honra de falar ao sr. Coelho?

- Sim, senhor.

- Queria dar-lhe duas palavras.

- Pode falar.

Sentaram-se.

- Chamo-me Carlos...

- Ah!

- Ah?

Coelho estremeceu.

O homem continuou:

- Carlos Alves da Anunciação. Já ouviu alguma vez pronunciar o meu nome?

- Não me lembra...

- Lúcia devia casar comigo.

- Ah!

- Ah?

Coelho tornou a estremecer.

- E foi o senhor que me arrancou a felicidade das mãos, quem me lançou no abismo de todas as misérias, porque eu...

Não pôde continuar; tapou a cara com as mãos, e pareceu - pareceu ao menos - chorar à larga.

Coelho ficou comovido.

- Peço-lhe - disse este -, que não me acuse...

- Não o acuso de nada - respondeu Alves -, eu apenas digo que foi o senhor quem me fez desgraçado, não por vontade própria, mas por irrisão da minha sorte. Seja o que Deus quiser...

Alves parecia mais calmo.

- Falei-lhe um pouco exaltadamente, mas é a dor que me obriga a estes arrebatamentos. Se soubesse como eu sofro!

- Mas que lhe poderei eu fazer agora? - disse Coelho.

O homem pareceu não ouvir essas palavras.

- Às vezes, cuido que estou doido. Sinto um fogo em mim; uma ardência... Ah!

E, dizendo isto, começou a passear pela sala com grandes passos e sacudimentos de cabeça.

De repente, parou o homem.

- Sr. Coelho - disse ele -, eu quero perdoar-lhe e não posso.

- Perdoar-me? Mas que culpa...

Coelho estacou.

Estaria o homem informado da entrevista no jardim, e teria assim descoberto o achado da carteira? Nesse caso, era positivo que a noiva estava de acordo com o antigo namorado.

Coelho perdia-se num mar de conjecturas.

- Perdoar-me o quê?

- Perdoar-lhe a minha morte.

- A sua morte?

- Sim, porque eu vou morrer.

- Não! Não deve morrer! Mas, em todo caso, já lhe disse, que tenho eu com isso? Que me quer o senhor?

Alves encarou-o, pôs o chapéu na cabeça e saiu.

VIII

A indenização

Coelho ficou atônito.

A entrada e a saída daquele homem seria inexplicável se ele não estivesse doudo. Só a loucura podia explicar semelhante procedimento.

Coelho deu graças a Deus de se ver livre do doido, e deu ordem ao moleque de nunca mais abrir a porta àquele sujeito.

A ordem era inútil.

O homem reapareceu à porta da sala.

- Ainda aqui! - exclamou Coelho.

- É verdade - respondeu Alves -. Venho propor-lhe um meio de nos reconciliarmos.

Coelho fez um gesto de impaciência.

- Mas, senhor, nós nunca estivemos conciliados, nem brigados. Não sei que haja necessidade...

- Há - respondeu tranquilamente o homem -. Quer ouvir-me?

- Fale.

- Eu disse-lhe há pouco que amava a sobrinha de Ypsilanti.

Coelho fez um gesto afirmativo.

- Era mentira - disse Alves.

- Ah!

- É verdade, era mentira, não a amava; o meu fim era fazer um bom casamento, isto é, um casamento rico.

- Ainda bem que o confessa - disse Coelho, respirando.

- Confesso.

Coelho levantou-se.

- Nesse caso - disse ele -, se o senhor tem a impudência de confessar que não amava a pessoa em questão, se confessa que queria um casamento rico, por que razão está aqui?

- Estou aqui por uma razão bem simples - disse tranquilamente o homem.

- Qual?

- Porque o senhor...

E parou.

- Porque eu... - disse Coelho.

O homem cravou os olhos nele.

- Porque eu... - repetiu Coelho.

- Porque o senhor também a não ama.

- O quê? - disse Coelho espantado.

- O senhor também a não ama...

- Essa agora!...

- O seu fim é também fazer um casamento de dinheiro... - concluiu calmamente o homem.

Coelho estava estupefacto.

- De que se admira? - perguntou Alves.

- Da sua audácia.

- Em que consiste a minha audácia?

- Meu caro senhor, isto é ridículo - disse Coelho encolerizado -; a ninguém dou o direito de duvidar dos meus sentimentos.

- Não digo que o senhor dê esse direito a ninguém - retorquiu Alves sentando-se sossegadamente -, mas eu é que o tomo por minhas mãos.

- Mas enfim que quer o senhor?

Alves assumiu um ar melancólico, e respondeu:

- Que o senhor me indenize da perda que sofro em não casar com aquele anjo.

Coelho não podia cair em si. Alves falava com tanta segurança, que era impossível não supor nele uma resolução inabalável.

- Então, quer liquidar esse negócio comigo?

- Creio que o senhor não fala sério.

Coelho começou a refletir. Não lhe convinha ter por inimigo um homem cuja audácia se manifestara já tão singularmente. Tratou de ladear a questão.

- Eu não hesitaria em socorrê-lo - disse ele - caso o senhor precisasse, mas confesso que não possuo nada.

Alves sorriu.

- Há de possuir.

- Mas...

- Eu não venho pedir-lhe socorro, mas uma indenização. Saibamos de uma coisa antes de tudo: adota essa indenização em princípio?

- Em princípio, nego-lha.

- Ah!

Houve um silêncio.

- Está bem - disse Alves -, deixemos os princípios; vamos aos fatos. Está pronto a dar-ma?

- Mas, senhor, isto é uma ladroeira - disse Coelho, levantando a voz para que o moleque o ouvisse.

- Não, senhor, é uma indenização.

- Pois bem - disse Coelho, depois de alguns instantes de reflexão -. Vejamos as suas condições.

- Bravo! Vejo que nos entendemos. As minhas condições são: dez contos de réis pagos dois meses depois do seu casamento.

- Dez contos! -exclamou Coelho.

- Sem lhe rebater um real; é largar ou pegar. Não é mau; o senhor deve entrar na posse de uns cem contos de réis pelo menos, além das esperanças; e nega uns pobres dez contos a quem lhe cede o lugar?

- Nada, não lhe dou um vintém - disse resolutamente Coelho.

- Sério?

- Sério.

- Olhe lá.

- Já disse; não lhe dou um vintém. Isto seria ridículo se não fosse infame. Peço-lhe que se retire.

Alves soltou uma gargalhada, pôs o chapéu na cabeça, cumprimentou o dono da casa e saiu dizendo:

IX

Ah!

Coelho respirou apenas se viu só. Repetiu ao moleque a ordem que lhe havia dado e preparou-se para dar boas notícias à noiva.

Logo nessa noite, estando com ela, falou na estranha visita que lhe fizera Alves.

- Sabes quem foi hoje à minha casa?

- Quem foi?

- O Carlos Alves.

- Ah! - disse ela empalidecendo.

- Não o recrimino por isso; sei que foi o teu primeiro namorado. Quero só dizer-te que escapaste de uma infâmia.

- Como?

- Aquele homem não era digno de ser teu marido - continuou Coelho -; era um infame. Se soubesses o que praticou comigo...

Lúcia estava perturbada com o assunto da conversa.

- Falemos de outra coisa - disse ela.

- Compreendo o teu melindre, e respeito-o. Depois de casado, contar-te-ei tudo. Não imaginas... Queria casar contigo por interesse.

Lúcia arregalou os olhos.

- Deveras? - disse ela.

- É verdade; teve o descaramento de o confessar; é um cínico. Eu te contarei tudo depois.

A conversa não passou além.

Correram os dias sem novidade. Aproximou-se o dia do casamento. Ypsilanti queria dar um banquete, que o noivo aprovou, mas a mulher e a sobrinha foram de opinião que o casamento à capucha era melhor.

- Pois vá à capucha - disse o grego.

Na véspera do casamento, o noivo deu parte a dois ou três amigos íntimos, e foi dar a última vista de olhos na casa. A casa estava ornada com certo luxo, para o qual teve Coelho de pedir algumas somas emprestadas. De noite, foi à casa da noiva, mas voltou cedo para descansar e dar umas últimas providências.

Não se admirou pouco de ver a sala com luz, coisa que não havia durante a sua ausência.

"Há de ser alguma visita", pensou ele.

Subiu as escadas.

Céus!

Era Alves!

O ex-namorado de Lúcia estava assentado no sofá brincando com uma bengala. Defronte dele, estava o moleque pedindo-lhe que saísse.

- Entra a propósito - disse Alves -, o seu moleque conhece pouco os deveres de hospitalidade. Quer pôr-me fora daqui. Diga-lhe que é uma grosseria.

Coelho fez um sinal ao moleque, que se retirou.

Apenas ficou só com o ex-rival, disse:

- Sr. Alves, há de convir que isto vai passando os limites, não estou disposto a sofrer as suas importunações, já lhe disse que...

- O senhor disse-me que não me daria os dez contos de réis, cuidei que estava brincando, porque, na situação em que o senhor se acha, só por brincadeira pode dizer uma monstruosidade de tal calibre. Os dez contos hão de vir ter às minhas mãos.

- Ameaça-me?

- Não ameaço; discuto. Não quer pagar-me a indenização que lhe peço? É um desejo impossível de satisfazer. Vou dizer a razão.

E metendo a mão no bolso tirou um papel.

- Sabe o que é isto?

- Não.

- É uma carta.

Coelho levantou os ombros.

- Uma carta de sua noiva.

- Ah!

- Se o senhor me não der o dinheiro, publico-a.

- Mas isto é uma...

- É uma defesa. Quer ler a carta?

Coelho fez um gesto de recusa.

- Há de confessar - disse este - que o senhor é muito infame!

- Mais talvez do que o senhor pensa - disse tranquilamente Alves -; não tenho só esta carta; tenho mais trinta e sete cartas, cada qual mais ardente. Imagine o efeito desse regimento epistolar em letra redonda. É coruscante.

- Basta - disse Coelho -; sacrifico-me, já que é preciso. Que condições quer?

- Já lhe disse: dez contos de réis a pagar daqui a dois meses. Trago a letra.

- É previdente.

- A previdência é a mãe da vitória.

Alves tirou do bolso uma letra, que ali mesmo encheu, e Coelho assinou trêmulo de raiva.

- Adeus, meu caro sr. Coelho. Ainda havemos de ser amigos.

Coelho não disse palavra.

Alves saiu saltitante e alegre.

A noite do pobre noivo foi atribulada.

O dia seguinte, porém, desfez as más impressões da noite. Sorria-lhe a ideia de que a fortuna mudava enfim. A felicidade foi mais completa; logo de manhã recebeu a visita do Alves, ia dizer-lhe que apenas recebesse os dez contos de réis, receberia as trinta e sete cartas de Lúcia.

A cerimônia do casamento passou-se sem novidade. Todos estavam alegres como é de costume nesses dias. O velho Ypsilanti parecia haver recobrado a pouca alegria que tinha outrora; estava brando como uma cera, esfregando as mãos, piscava os olhos, todo ele era ventura e prazer.

Que direi eu da noiva, que não seja sabido por quantos têm assistido a um casamento? Estava acanhada, modesta, reservada, mas no fundo do seu coração era imensa a alegria.

Não menos feliz estava Coelho. A mulher era positivamente um dragão, mas em compensação era herdeira de um bom par de contos de réis. Este era o principal objeto do amor do rapaz.

Não admira, pois, que todo entregue às delícias do noivado, o nosso Coelho de todo esquecesse o seu singular credor. Correram as semanas sem ele dar por elas. No fim de dois meses, bateu-lhe Alves à porta.

Coelho estremeceu quando o viu entrar.

- Venho para cobrar a letra que me deve, e que se vence amanhã.

- Bem - disse Coelho -, venha amanhã.

- A que horas?

- Às dez horas.

- Cá estarei. Passe bem.

- Passe bem.

E saiu Alves.

Coelho correu à casa do sogro.

Explicou-lhe com franqueza que devia pagar uma letra.

Ypsilanti respondeu:

- Não lhe posso dar o dinheiro que me pede.

- Mas, senhor...

- Não lhe posso dar o dinheiro que me pede.

Coelho começou a irritar-se.

- Mas, senhor, esta dívida de honra, fi-la para salvar o decoro do seu nome.

E explicou-lhe tudo.

- Céus! - exclamou o velho -; será verdade isso que me diz?

- Puríssima verdade.

Ypsilanti levantou os braços com desespero:

- Oh! Meu Deus! Meu Deus!

- Que é?

- Mas eu não tenho dinheiro; não sou rico como o senhor pensa; todos os meus haveres andam por oito contos.

- Ah! - exclamou o rapaz petrificado.

Imagina-se o desespero do pobre rapaz quando soube do logro em que caíra.

E o logro era talvez o menos; o risco em que se achava com a dívida que contraíra era o pior - sem falar na que fez para montar a casa.

Correu para a casa furioso; a mulher foi a primeira que pagou as favas.

Tudo se arranjou entretanto. Alves, sabedor das desgraças de Coelho, pela confissão que este lhe fez, houve por bem perdoar-lhe a dívida.

- Pago com dez contos - disse ele -, o risco de que o senhor me livrou.

Coelho estava desesperado; julgou ter dado um grande golpe na má sorte financeira, e fora vencido por ela; estava mais pobre que dantes. Ficara-lhe só o amor.

Um dia, seis meses depois de casado, e feliz, contou ele à mulher toda a cena da carteira, e perguntou-lhe por que razão o aceitara tão facilmente para marido, sabendo que não era ele o namorado.

Lúcia respondeu ingenuamente:

- Porque você era mais bonito.

A+
A-