Coleção

Contos na Imprensa - Fase 3

Machado de Assis foi um colaborador incansável de vários periódicos da imprensa brasileira ao longo das quatro últimas décadas do século XIX. O adjetivo "incansável" não é uma hipérbole, o que pode ser constatado, por exemplo, em vários números do Jornal das Famílias, nos quais há mais de um conto do autor, escondido muitas vezes sob os mais variados pseudônimos: Max, Victor de Paula, J.J, Job...

Tamanha e tão prolífica produção implica, necessariamente, um caráter desigual no que diz respeito à qualidade dos contos, alguns dos quais parecerão irreconhecíveis ao leitor afeito a produções como "Missa do galo" ou "A causa secreta" - para ficar em dois exemplos apenas. Machado parece consciente disso, porque, dos mais de duzentos contos que publicou na imprensa carioca, reuniu em livro apenas cerca de uma terça parte.

Já há algum tempo, por iniciativa de editoras como a Jackson e a Aguilar, o leitor dos séculos XX e XXI teve acesso a muitos desses contos. Nas edições anteriores à de 2008, a Aguilar reuniu, sob o título de "Outros contos", 46 títulos, entre os quais se inclui o conto-novela "Casa velha", a maior peça da coleção e da "contística" machadiana. Os "contos completos" de Machado de Assis no entanto eram (e são) acessíveis eletronicamente em www2.uol.com.br/machadodeassis/, graças a uma iniciativa pioneira de Claudio Abramo.

Em 2008, como parte das comemorações do primeiro centenário da morte de Machado, a Nova Aguilar reuniu a obra completa de Machado de Assis em quatro volumes e ofereceu ao leitor, em suporte material, todos os contos machadianos. Aqueles que não foram selecionados pelo autor para figurarem nos sete volumes de contos que publicou durante sua vida, compõem o segundo e o terceiro volume dessa edição, num total de mais de mil páginas, sob o título de Contos avulsos. São 114 contos ao todo, na grande maioria bastante extensos.

A imensidão e as dificuldades do corpus exigiram da nossa equipe uma espécie de reinvenção metodológica: repartimos os contos por períodos, mais ou menos curtos, de modo a que, a cada etapa, lidássemos com, no máximo 15 contos. O que se publica aqui é o que chamamos "Contos avulsos - fase 3", reunindo peças publicadas no Jornal das Famílias) em 1872 e 1873. Nos próximos meses, esperamos ir dando conta, em várias etapas semelhantes a esta, do conjunto completo.

Não há unidade temática entre os contos aqui reunidos, como, aliás, não costuma haver mesmo nos livros publicados pelo autor em vida, cujos títulos, sempre no plural, já são uma indicação de diversidade. Trata-se de peças predominantemente românticas (embora aqui e ali venha à tona o sarcasmo corrosivo peculiar ao autor maduro), não raro de sabor ingênuo e edificante (tão diferente do ceticismo do Machado que se revela, sobretudo, na década de 1880), na qual o "molho" é frequentemente o diálogo, que ocupa posição de destaque. Isso pode ser explicado quer pelo fato de que na juventude Machado parece ter acalentado sonhos de se consolidar como dramaturgo, tendo mesmo produzido algumas peças de teatro, quer pelo fato "menos nobre" de que, segundo alguns especialistas no assunto, os autores eram pagos pelos periódicos por linha escrita... São leituras, por assim dizer, de valor quase exclusivamente histórico, como registro da produção de Machado de Assis no início de sua carreira.

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Para estabelecer o texto da presente edição eletrônica, utilizaram-se como fonte edições disponíveis na internet, cotejadas com edições digitalizadas dos periódicos em que os contos foram publicados, disponíveis no acervo da hemeroteca digital da Fundação Biblioteca Nacional. Todos os textos foram cotejados com os das publicações originais.

Tal cotejo se revelou fundamental, na medida em que as edições existentes, tanto as impressas como as disponíveis em meio eletrônico, quase todas oriundas ou das coletâneas reunidas pela editora Jackson na coleção da obra completa de Machado de Assis ou dos cinco volumes de contos machadianos publicados, sob vários títulos, por Raimundo Magalhães Jr (Contos avulsos, Contos esparsos, Contos sem data, Contos recolhidos, Contos esquecidos), apresentam problemas seriíssimos: falta de passagens inteiras, substituição de palavras, "correções" ao texto machadiano (quer com substituição de palavras talvez consideradas menos "nobres", quer com flexões verbais modificadas em observância a normas gramaticais). Disto procurou-se dar conta em links, que, nesta edição - o leitor notará - não se restringem às citações e alusões histórico-literárias e à toponímia, dando conta de casos mais propriamente linguísticos. Foi feita uma atualização ortográfica, mas, sempre que duas formas são consignadas em dicionários de hoje, respeitou-se o que está nas primeiras edições: "estupefacto" e não "estupefato"; "fleugmaticamente" e não "feumaticamente"; "cálix" e não "cálice"; "parêntesis" e não "parêntese"; "abdômen" e não "abdome"; "cousa" e não "coisa", "doudo" e não "doido". Preservaram-se (e anotaram-se) palavras estrangeiras na língua original, mesmo quando delas já existe forma aportuguesada: "ultimatum" e não "ultimato"; "coquette" e não "coquete"; "tilbury" e não "tílbury"; "dandy" e não "dândi"; "pince-nez" e não "pincenê"; "boudoirs" e não "budoar"; "bonds" e não "bondes". Procedeu-se assim por considerar-se que tais usos compõem o que se poderia chamar de "atmosfera textual", que ajuda o leitor de hoje a se transportar para a época em que foram escritas as histórias. Quanto aos numerais, manteve-se a forma usada nas publicações originais, ora por extenso, ora em algarismos. Usaram-se iniciais maiúsculas para instituições: "Igreja", "Tesouro", "Hotel Ravot".

Anotaram-se também palavras cujo sentido no texto machadiano é diferente do usual no português brasileiro do início do século XXI. Por exemplo: o substantivo "hóspede", no sentido, hoje pouco usual, de "anfitrião", "aquele que hospeda"; "gesto" no sentido de "rosto", "fisionomia"; "moleque", no sentido de "jovem escravo"; "secretária", no sentido de "escrivaninha"; "folhas" no sentido de "jornais".

Usos hoje considerados incorretos foram, obviamente, mantidos: "O namorado já tinha notícia do pretendente, e escrevera a epístola meia lacrimosa, meia ameaçadora"; ou "A indiferença da moça fazia-lhe supor que lutava em vão"; ou "ainda que não compreendi o medo do velho quando entrou"; ou ainda "Quem quer que era tinha já subido a escada".

Talvez o maior problema no estabelecimento de textos escritos no século XIX seja o da pontuação. Ao preparar esta edição, optou-se por uma política a meio caminho entre uma atualização radical, de acordo com as normas presentemente vigentes, e o respeito à pontuação de Machado de Assis, a qual, aliás, era comum aos seus contemporâneos, no Brasil e em Portugal. Conservaram-se todas as vírgulas antes da aditiva "e" precedendo verbos cujo sujeito era precisamente o mesmo da oração anterior: "saiu o capitão a dar um passeio depois do almoço, e dirigiu-se para os lados do Passeio Público". Observe-se que o autor, às vezes, omite a vírgula em casos absolutamente idênticos: "O velho apressou o passo e chegou à porta do corredor". A mesma oscilação se dá com o uso e não uso de vírgula antes de "e" que introduz sujeito diferente do da oração anterior: "Cortou a corda e o corpo foi à terra"; porém: "Júlia assim o fez, e eu deixo à imaginação dos leitores calcular a alegria do fecundo romancista."

Respeitaram-se as inconsistências do autor, como a que se nota no uso ou não de vírgula antes de oração consecutiva: "lançou ao rapaz um olhar tão soberano e tão sincero, que ele sentiu-se envergonhado", mas: "Demoro-me tão pouco tempo que não vale a pena"; ou como no uso e não uso de vírgulas isolando adversativas no meio de orações: "No nono dia, porém, alcançou ensejo de falar a sós com a noiva", mas "Este meio porém pareceu-lhe indigno e foi posto de lado."

Por outro lado, nos casos em que se considerou que a vírgula (ou a ausência dela) comprometia o melhor entendimento do texto, não se hesitou em intervir, como ocorreu no caso de vírgulas precedendo orações adjetivas restritivas (que foram suprimidas) e de falta de vírgulas precedendo orações adjetivas explicativas (que foram inseridas). Introduziu-se vírgula para indicar a elipse do verbo, o que o autor raramente faz, mas faz, como em "Tempo de Crise": "O Mendonça não gostou do gabinete; o Abreu achou-o excelente; o Lima, fraco". Também inserimos vírgulas em todos os casos de orações subordinadas reduzidas de gerúndio, porque o autor às vezes o faz (como em "Coelho encostou-se ao muro, e, estando a porta aberta, enfiou o olhar para dentro."), o que parece autorizar esse procedimento.

Optou-se por recorrer às aspas sempre que a "fala" de uma personagem é, na verdade, a expressão verbal de um pensamento que não chega a ser exteriorizado. Nos diálogos, foi usado parágrafo e travessão.

Esta não pretende ser uma edição crítica. O objetivo foi produzir uma edição fidedigna do texto machadiano que, através dos hiperlinks, oferece ao leitor do século XXI uma ferramenta de fácil utilização e encurta a distância entre ele, leitor, e o enorme universo de referências de Machado de Assis.

Os textos dos hiperlinks que constituem referências histórico-literárias e de caráter simbólico foram retirados do banco de dados "Citações e alusões na ficção de Machado de Assis", acessível neste portal. Na pesquisa dos links que não constituem referências da natureza descrita acima, como é o caso de nomes de ruas e cidades, de estabelecimentos comerciais etc., registre-se aqui a colaboração de Alice Ewbank e Camila Abreu, ex-bolsistas de Iniciação Científica na Fundação Casa de Rui Barbosa; no estabelecimento do texto e em sua revisão, a de Laíza Verçosa do Nascimento, bolsista de Iniciação Científica. Na construção do texto digital e do software que possibilita a visualização dos links, o crédito é de Eduardo Pinheiro da Costa, técnico em informática da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Marta de Senna, pesquisadora
Laíza Verçosa do Nascimento, bolsista de Iniciação Científica 
Fundação Casa de Rui Barbosa/CNPq


outubro de 2013

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