Conto

O Caminho de Damasco

1871

Este conto foi originalmente publicado no Jornal das Famílias, em maio e junho de 1871, assinado por Job. O texto desta edição eletrônica foi cotejado com o da publicação original.

VI

O casamento

Durante estes meses de loucuras de Jorge, a situação do Dr. Marques pouco tinha adiantado, mas adiantara alguma cousa. O pretendente expusera à tia de Clarinha os seus desejos depois de dous meses de hesitação e a boa senhora, aprovando as intenções do médico, só impôs a condição de que a sobrinha o amasse.

- Ah! Minha senhora - disse Marques -, a este respeito não posso afiançar nada. Não sei se sou ou não amado: D. Clarinha é tão acanhada que não deixa campo a investigações deste gênero.

- Pois bem - redarguiu D. Joaquina -, eu tomo a mim a incumbência de consultar-lhe o coração. Imponho esta condição porque conheço bem Clarinha: sei que é uma rapariga de muito juízo, e digna de escolher o seu próprio esposo. Em circunstâncias diversas, eu é que lhe havia de dar o noivo.

Dona Joaquina cumpriu a palavra. Perguntou a Clarinha se ela nunca havia pensado em casar.

- Casar? Eu? - perguntou a sobrinha.

- Sim, tu.

- Não, nunca pensei.

Clarinha disse estas palavras em tom frio e indiferente; todavia, pareceu a D. Joaquina que esta ideia a entristecera.

"Dar-se-á caso que já o ame?", disse a velha consigo mesma.

Correram alguns minutos de silêncio.

- Sabes que alguém deseja casar contigo? - disse enfim a mulher de Aguiar.

- Casar comigo? - perguntou a moça, abrindo muito os olhos.

- Sim, contigo.

- Titia está brincando.

- Brincando por quê? Não mereces ser pretendida por alguém?

Clarinha não respondeu.

- E essa pessoa, é muito nossa conhecida.

- Ah!

- Já reparaste?

Clarinha levou a mão ao coração.

- Não - murmurou ela.

- Não adivinhas quem seja?

- Não posso adivinhar.

- O Dr. Marques.

Clarinha empalideceu. A boa velha não tirava os olhos dela para ver se lhe lia no rosto os sentimentos do coração. Mas verdade, verdade, D. Joaquina não sabia traduzir fisionomias. A comoção de Clarinha, qualquer que fosse a causa, pareceu-lhe que era de bom agouro para o médico.

"Ama-o, não tem dúvida", disse ela consigo. "Tudo está arranjado."

Clarinha recobrou a palavra no fim de dez minutos.

- Titia - murmurou ela -; a senhora sabe o que me convém, e eu estou às suas ordens.

- Ordens, não - disse D. Joaquina -; isto não é uma ordem; é uma consulta.

- O Dr. Marques - disse Clarinha - é um excelente homem...

- E um excelente marido? - concluiu D. Joaquina rindo.

Clarinha não respondeu.

O silêncio da moça foi interpretado como um assentimento, e a esposa do comendador imediatamente deu parte ao médico do resultado da sua missão.

Clarinha, apenas ficou só, correu ao quarto e debulhou-se em lágrimas - lágrimas silenciosas e sufocadas, para que ninguém lhas ouvisse nem suspeitasse sequer. Depois, tirou de uma gaveta um retrato, contemplou-o longo tempo, e beijou-o repetidas vezes. Quando reapareceu na sala tinham desaparecido os vestígios das lágrimas. Estava triste; mas como esse era o natural estado da moça, ninguém procurava saber-lhe a causa.

Quando Marques soube do resultado da missão de D. Joaquina não pôde esconder o seu regozijo.

- Acho, porém, conveniente - disse a mulher de Aguiar - que o senhor ouça da própria boca de Clarinha a confissão, da qual eu só alcancei metade.

Não hesitou Marques em sondar por si próprio o coração de Clarinha. Era ele um homem honesto e de nenhum modo queria casar com ela sem ter a certeza de que ela não o faria obrigada.

O resultado desta nova experiência foi mais satisfatório ainda que o da primeira. A moça não lhe confessou amor com os termos de um coração apaixonado; mas teve palavras tão afetuosas para o médico, que o casamento foi logo decidido por parte da senhora D. Joaquina.

Silvestre Aguiar teve participação de que o casamento da sobrinha devia realizar-se dentro de mês e meio. Pediu-se-lhe o consentimento apenas como uma formalidade, porque a decisão de D. Joaquina era bastante para o caso. Aguiar nada tinha que opor; aplaudiu, pelo contrário, a união.

- Eu sempre dizia - observou ele - que este doutor era um grande velhacão. Esta habilidade com que nos bifa a pequena é prova de que você nasceu com um sentido de mais.

Não ouviu tão alegremente o padre Barroso, que era considerado pessoa da família, esta notícia, a quem foi dada com o pedido de aprovação.

- Eu não tenho nada que desaprovar - disse o padre -, mas... a Clarinha gosta dele?

- Isso não se pergunta! - exclamou D. Joaquina.

O padre olhou para a sobrinha do comendador; e no rosto dela leu uma satisfação tão pronunciada, que não fez mais do que encolher os ombros e dar os parabéns à noiva e aos tios.

Mas nessa mesma tarde, achando-se a sós com a moça, perguntou-lhe o padre:

- Que é isso, Clarinha? Então aquele amor?...

- Aquele amor morreu - respondeu a moça tristemente -; era um amor sem esperança, e amores destes, ou morrem ou matam. Era talvez melhor que me matasse; mas Deus quis que morresse. Não me queixo; obedeço ao meu destino.

O padre abanou a cabeça.

- Não, Clarinha - disse ele -, esse amor não morreu: tu ainda o sentes e isso é mau, minha filha; é mau que te cases com um homem, amando a outro...

- Oh! Não! Não! - disse Clarinha -. Afirmo-lhe que morreu; e se não morreu, juro-lhe que há de morrer.

- Juras! Pobre criança! Sabes o que estás jurando?

Duas lágrimas rebentaram dos olhos da moça. Viu-lhas o padre; e cingiu-a ao peito.

- Clarinha, eu não consinto nisso. Hás de casar com Jorge... Eu quero que cases com ele!

- Isso nunca! - disse Clarinha -. De que me serviria ser mulher de um homem que me não ama, nem pode amar?

- Sim, Jorge está perdido - murmurou o velho sacerdote com ar triste.

- Vou casar com um homem sério - continuou a moça -; não lhe tenho amor, é verdade; mas tenho-lhe certo afeto e respeito; estou que serei feliz - tanto quanto o pode ser uma pessoa desgraçada. Peço-lhe que nada diga a este respeito; far-nos-ia mal a todos.

Barroso abraçou a moça.

- Clarinha, tu és uma boa alma. Merecias ser feliz. A culpa disto é de teu pai. Se ele não te abandonasse, talvez não viesses a amar teu primo, porque esse amor nasceu da convivência. Teu pai...

- Perdoe-lhe - disse a moça -; meu pai tem má cabeça, mas é bom coração. Vamos; promete que não tentará desfazer este casamento?

- Se o quer, prometo.

- Obrigada! - disse a moça, beijando a mão ao padre.

Foi este quem celebrou o casamento. O bom velho tremia na ocasião de proferir as palavras sagradas. Depois, quando a cerimônia acabou, disse ao noivo em voz baixa e procurando reter uma lágrima que lhe tremia na pálpebra:

- Faça-a feliz, que ela o merece.

Jorge assistiu ao casamento, fez um cumprimento banal à noiva, disse quatro ou cinco graças chulas a alguns dos rapazes que assistiam à cerimônia, e foi acabar a noite no Alcazar.

Saltemos agora uns onze meses. Todos os personagens desta história estão ainda vivos. O comendador continua a jogar o gamão com o padre; a facúndia de D. Joaquina tem perdido com os anos; em quanto a Jorge, desfruta a reputação de libertino criada à custa do pai. Silvestre procurou todos os meios de arrancar o filho à carreira funesta em que ele mesmo o lançara, mas era impossível; a obra estava feita.

Alguma cousa havia conseguido Aguiar; conseguira dar-lhe um emprego, a ver se ele contraía hábitos de trabalhar. O rapaz viu no emprego mais uma fonte de renda e apenas lhe concedia algumas horas vagas. Assinava o ponto às 9 horas (o que já era uma correção) e retirava-se da repartição às onze. Não faria isso sempre, para não acostumar mal o Estado; deixava de lá ir muitas vezes. Não constava, porém, que nessas folgas estivesse incluído o dia primeiro do mês.

Marques era feliz; encontrara na mulher o ideal que havia sonhado: uma boa caseira, afetuosa, cheia de desvelo e respeito. Clarinha não era feliz; mas também não era desgraçada. O marido era um homem honesto, que vivia por ela e para ela, e procurava todos os meios de lhe fazer uma vida de rosas. Doía-lhe, é verdade, uns longes de melancolia que a moça nunca pudera apagar da fronte; mas isso, dizia ele, era natureza.

- Fui sempre assim; é meu modo. Nunca me conheceu outra, creio eu.

- É verdade que não - respondia o médico -; mas se eu pudesse vencer esse modo...

- Eu sou feliz - dizia a moça com um sorriso triste.

Uma noite, o comendador Aguiar, que raríssimas vezes ia ao teatro, e tinha neste assunto as mesmas ideias de 1840, resolveu ir ver uma peça no Ginásio. A mulher não foi; detestava o teatro. Aguiar comprou o competente bilhete e entrou para a plateia. No fim do ato, saiu ao saguão e encontrou um amigo.

- Tu aqui? - disse este -. É cousa rara.

- É verdade - respondeu o velho -. Também sou gente; quis ver estas cousas novas. E tu?

- E eu ainda me não aposentei. Onde estás?

- Nas cadeiras.

- Vem ao meu camarote.

Aguiar foi para o camarote do amigo que era na segunda ordem. Levantou-se o pano e a peça continuou. No meio do ato, abre-se a porta do camarote contíguo àquele em que estava o comendador, e entra uma mulher. Pelo desgarre das maneiras e aparato do luxo, não era difícil reconhecer nela uma das damas da moda. Voltaram-se para ela todos os olhos, assestaram-se os binóculos e lunetas, e durante uns cinco minutos o espetáculo não esteve no palco, mas na sala. É inútil dizer que a dama anônima não tinha outro juízo; entrou no meio do ato para chamar a atenção de todos: era uma vaidadezinha inocente, que seria ridícula, se não fosse um recurso de ofício.

Silvestre olhou para ela como toda a gente. Logo atrás da dama entrou um rapaz elegante, com o rosto avermelhado, e meio trôpego.

Aguiar reteve um grito.

Era Jorge.

Trêmulo e fulo de raiva, Silvestre se levantou e cravou os olhos no filho. Este, porém, não vira o movimento do vizinho; correu os olhos pelos camarotes fronteiros e sentou-se ao lado da dama, mas encoberto por ela.

Era o mais que ele podia conceder ao decoro.

O comendador continuava de pé, com os olhos no filho, que ficou justamente em frente dele. Jorge, depois de assestar o binóculo à cena e a alguns camarotes, assentou-se preguiçosamente na cadeira, e foi então que viu o pai.

Estremeceu.

Silvestre não lhe tirava os olhos de cima. Duas vezes, Jorge afastou os seus, mas duas vezes os dirigiu de novo ao pai, até que, levantando-se, pegou no chapéu e saiu.

Aguiar não esperou que acabasse o espetáculo.

Voltou para casa, perguntou se o filho já havia chegado; responderam-lhe que sim. Mandou-o chamar ao seu quarto, e o rapaz não se deteve; foi ter com o pai e lançou-se-lhe aos pés.

O comendador lançou-lhe em rosto o seu procedimento, e declarou-lhe que, se não mudasse de vida, era obrigado a pô-lo fora de casa.

O rapaz retirou-se para o seu quarto envergonhado, irritado, mas ainda não arrependido. Não acusava a fatalidade que o levou a encontrar o pai no teatro, onde nunca ia. Imaginou se seria denúncia de algum desafeto, fez mil planos e dormiu profundamente até à hora do almoço.

O velho Aguiar referiu ao padre a cena do teatro, e pediu-lhe conselho para o caso em que o filho se não emendasse.

O padre refletiu alguns instantes.

- Não sei que conselho te dê - disse ele -; o melhor é ver se o estroina se emenda. Queres que eu lhe fale?

- Sim, fala-lhe.

- A culpa é tua, comendador; tu mesmo o perdeste com as tuas facilidades. Não te disse muita vez que essa ideia de o deixar viver à rédea solta era má? O resultado foi este.

O padre Barroso mandou dizer a Jorge que o esperava em casa. O recado causou algum espanto ao rapaz: que lhe teria de dizer o padre? Suspeitou logo a verdade.

Apesar da resolução que tomou de não aceder ao convite do padre, Jorge foi à casa dele. O padre já o esperava há muito. A casa era modesta; os móveis, singelos e encanecidos no serviço.

O padre estava diante de uma escrivaninha, sentado numa velha cadeira de couro, de alto espaldar; em frente, tinha aberto um volume in-fólio, que o bom velho lia com atenção e recolhimento. Não se moveu quando entrou na sala o filho do comendador, conduzido pelo criado. Fez um gesto a este, que se retirou, e continuou a ler até o fim da página.

Depois fechou o livro, convidou o rapaz a sentar-se ao pé dele, e perguntou-lhe:

- Jorge, até quando quer continuar esta vida?

Jorge não respondeu. O padre contava com o silêncio, e continuou:

- Seu pai fundava muitas esperanças no senhor. Desvelou-se de lhe dar um meio de vida e uma posição na sociedade. Tudo isto lhe desfez o senhor, entregando-se a uma vida libertina. Quando seu pai conheceu o mal, este era quase irremediável. Seu pai, entretanto, não supunha que o senhor chegasse ao ponto de dar o espetáculo de ontem à noite. Imagine, se pode, a dor e a vergonha que lhe causou.

Calou-se o padre, por alguns instantes, e continuou:

- Ainda é tempo; nem tudo está perdido. Pode salvar-se; deve salvar-se.

- Senhor padre Barroso - disse Jorge -, eu não nego que a minha vida tem sido um pouco livre; mas eu não faço nada do outro mundo.

- Bem sei, bem sei - redarguiu o padre -; tudo o que o senhor faz é deste mundo; e neste mundo é que se fazem as piores cousas...

- Mas eu já não faço nada que mereça emenda...

O padre fez um gesto de impaciência.

- E o escândalo de ontem à noite? - disse ele.

- O que houve ontem à noite foi um acaso.

- Um homem sério não se expõe a estes acasos.

Jorge franziu a testa.

- Oh! Escusa de fazer gestos de estranheza; eu sou velho, sou rude e sou sacerdote; tenho o direito de lhe dizer a verdade. O senhor é um homem doudo, e é o menos que lhe posso dizer.

O padre proferiu estas palavras em voz alta e intimativa. Jorge sentiu, a seu pesar, a influência da autoridade do bom velho. Não lhe respondeu. Barroso insistiu em obter dele a promessa de que procuraria carreira e triunfaria dos maus hábitos contraídos.

Jorge refletiu algum tempo e respondeu:

- Pois bem, prometo emendar-me.

- É de coração?

Jorge hesitou.

- É - disse ele depois de algum tempo.

Não era de coração, mas o bom padre era um homem sincero; acreditava firmemente na sinceridade dos outros.

- Tanto melhor - disse ele -. Emende-se, Jorge; verá que ganha com isso. Calcule a alegria que dará a seus pais. Quando me lembra...

O velho suspirou.

- Quando se lembra? - repetiu Jorge.

- Quando me lembra - continuou Barroso - que você podia ser hoje um homem feliz ao lado de uma mulher feliz... de uma mulher que o amou...

- Uma mulher? - perguntou Jorge -. Quem era?

O padre ia a dizer o nome de Clarinha; mas lembrou-se repentinamente o perigo que podia haver nessa declaração, em vista do atual estado da moça.

Calou-se.

- Quem é essa mulher? - repetiu Jorge.

O velho levantou-se sem responder.

Jorge olhava para ele e procurava na memória algum vestígio que lhe indicasse a mulher a quem o padre aludia. Não se lembrou de ninguém. Insistiu com o padre para que lho dissesse.

- De que serviria isso? - respondeu o velho sacerdote -; o bem que ela lhe podia fazer é já impossível...

- Impossível?

- Sim, impossível.

- Por quê?...

- Porque... morreu.

Jorge não acreditou que a pessoa de quem se tratava houvesse morrido, segundo dizia o padre.

- Mas se morreu - objetou ele - que mal há em dizer-me o nome dela? Espere... trata-se... querem ver... que essa moça é... Clarinha?

O padre abanou a cabeça.

"Não, não me engano", disse consigo o estroina, "é ela!"

- Não importa saber quem seja - disse Barroso -; voltemos ao nosso ponto; o que lá vai, lá vai. Prometeu-me já emendar-se; está disposto a emendar-se?

Jorge teve o pudor de não repetir uma promessa que não estava disposto a cumprir; mas estendeu-lhe a mão com um gesto que parecia corresponder à pergunta do padre.

- Deus o ilumine - disse este -. Vamos, faça com que não morra sem o ver reabilitado. Fui eu que o batizei; não me deixe morrer com a ideia de que não pude salvar pela segunda vez uma alma que me foi confiada.

O padre disse estas palavras com paternal brandura, Jorge correspondeu a elas com uma aparência de humildade. Estava ansioso por sair. Despediu-se e saiu.

VII

Batalha campal

Não saiu convertido, como pensava o austero velho; os conselhos e as promessas não lhe deixaram vestígios na memória. Dentre tudo o que lhe havia dito o padre Barroso, uma cousa flutuava no espírito de Jorge: era a ideia de que a Clarinha o amara.

Se lho houvessem dito noutro tempo, é provável, e quase certo que Jorge levantaria os ombros e iria contar o caso aos amigos mais íntimos. Ser amado por ela queria dizer um casamento, uma vida menos solta, obrigações sérias, cousas que Jorge achava inconciliáveis com a sua razão. Mas agora mudava o caso de figura; a ideia de que uma senhora casada o havia amado em solteira abria aos olhos de Jorge uma perspectiva de esperanças e dava à sua vida um aspecto novo.

- Na verdade - dizia ele consigo -, esta vida já me enfada. É bom descansar um pouco; achar-lhe-ei depois mais sabor. Um amor de romance tem toda a vantagem de ser uma cousa nova para mim. A Clarinha amou-me; quem sabe se me não amará ainda?

Nestas e outras reflexões do mesmo teor gastou Jorge a noite inteira. Meter-se numa aventura de romance, apaixonar-se pela prima tinha até a vantagem de lhe dar aparências de reabilitação, pois forçosamente havia de consagrar a isso o tempo que era agora aplicado às loucuras da mocidade.

Com estas ideias, acordou no dia seguinte. Achou o pai ainda severo; e para começar a ilusão que premeditava não saiu de casa nesse dia. Recolheu-se ao gabinete, onde a mãe o foi encontrar a ler. Desse dia em diante adotou um programa de vida, que de todo ponto iludiu a família e o padre. Silvestre recobrava a alegria que o sucesso do teatro lhe fizera perder, enquanto o padre, cheio de sincero regozijo, perdoava de coração as loucuras do rapaz. A felicidade ia renascendo naquela casa.

Até então, quando Clarinha ia visitar os tios, não encontrava o primo em casa, o que era para ela uma grande felicidade. A primeira vez que lá foi, depois dos acontecimentos que acabo de referir, não só o achou em casa, mas até lhe pareceu mudado o tono das relações entre ele e os pais. Antes falavam dele com lástima, agora rejubilavam-se ao pé do filho pródigo. Marques não hesitou em manifestar o seu pasmo ao vê-lo restituído ao lar doméstico.

- Que quer? - respondeu Jorge -. Estou curado.

- Para sempre?

- Para sempre.

Marques alegrou-se com esta alteração inesperada. Não pensou assim Clarinha, que vira na presença de Jorge um obstáculo às suas relações com os tios, não porque ainda o amasse, não porque temesse por si, mas porque ele era uma recordação viva de um passado ainda recente.

Jorge adquiriu hábitos de dissimulação que não diziam com a sua idade ainda verde. Houve-se, em relação à prima, apenas com a afabilidade ordinária; mas nem por gestos nem por palavras manifestou o menor conhecimento ou suspeita do amor que ela lhe tivera.

Não lhe escapou, entretanto, a reserva de Clarinha, a comoção que a sua pessoa lhe causava, vagos indícios de que realmente o amara antes de casar com o médico.

"Muito bem, doutor", dizia Jorge consigo; "eis-te entrado em nova e melhor campanha. Até aqui tudo foram escaramuças e recontros. Ofereço-te a batalha campal: é necessário vencer ou morrer."

Jorge começou a frequentar a casa do médico; Clarinha, ao princípio, não lhe aparecia; mas o primo era sagaz e astucioso; deu-se um dia por convidado a jantar. A moça não pôde deixar de lhe aparecer. A reserva continuou por parte dela, mas era difícil conservá-la diante das maneiras respeitosas, da linguagem afetuosa do rapaz. O pecador parecia arrependido e glorificado no céu.

Demais, Clarinha fez um raciocínio singular e perigoso, conquanto nascesse da sua consciência honrada e pura. Imaginou que este fugir ao primo era uma prova de fraqueza, um receio vergonhoso, e que mais servia os deveres conjugais afrontando a pessoa que amara do que fugindo-lhe. Fugir-lhe era reconhecer um resto de poder que ela vira estar já extinto.

Não tardou, pois, que entre os dous se estabelecesse a intimidade antiga, intimidade que aliás fora sempre aparente e superficial. Jorge iludiu-se a respeito do pensamento da moça; julgou que o amor lhe havia renascido, e que ela dava o primeiro passo para ele. Ainda assim, não julgou prudente arriscar um passo que podia ser fatal.

"Cansemos o inimigo", refletia ele; "é uma tática boa, tática de guerra."

E com este pensamento deixou correr os dias sem romper o silêncio que se impusera.

Jorge notava o desvelo da moça pelo marido, o afeto que lhe manifestava, a paz que reinava entre ambos, e invejava a sorte do primo. Pode-se dizer que só então lhe começou a raiar, tenuíssimo embora, um raio de redenção. O espetáculo da felicidade alheia convidou-o a buscar a própria felicidade, mas ele reconheceu que a única possível era aquela, e aquela estava perdida para ele.

Um dia de manhã, entre o charuto e o café, fez consigo a seguinte reflexão:

"Mas que estou eu a fazer? Isto não pode continuar nesta situação; é preciso sair da inação. A rapariga já há de fazer de mim uma tristíssima ideia."

Nesse mesmo dia, estando a conversar com a prima, disparou-lhe à queima-roupa uma declaração de amor.

Clarinha levantou-se indignada, e respondeu com um silêncio de desprezo à declaração do primo; saiu da sala e deixou-o só.

Não desanimou o rapaz. Deixou de lá ir alguns dias; mas voltou com a família. Clarinha não pôde deixar de vir à sala. Jorge compreendeu que a prima não havia de referir ao médico o que se passara entre ambos.

"Bem", pensou ele, "nem tudo está perdido."

Com o tempo, foi renovando a situação anterior. Um dia, escreveu uma carta à moça, e deixou-lha sobre o piano na ocasião em que ela tocava. Clarinha debalde chamou por ele.

- Há de abrir a carta - disse Jorge.

Não a abriu. Quando ele lá foi entregou-lha intacta:

- Primo - disse ela -; reconheça na minha bondade uma prova do afeto de parenta que lhe tenho; porque é bondade ter ouvido da sua boca palavras insultantes e de eu não ter, como devera, comunicado a meu marido. Se alguma cousa, entretanto, pode reparar o seu erro é esquecer-se de que eu existo e não voltar à minha casa.

- Mas por que razão é assim cruel comigo? - disse Jorge, procurando dar à sua voz um tom de lástima e desespero. Clarinha não respondeu.

- E todavia - continuou Jorge -, houve um tempo...

A moça levantou a cabeça e cravou nele um olhar de espanto.

- Houve um tempo em que o seu coração palpitou por mim.

- Está dizendo uma loucura - respondeu Clarinha empalidecendo -; tratei-o sempre com estima; mas... aí vem meu marido; ouse repetir diante dele a afronta que me faz.

Marques vinha efetivamente no corredor e entrou logo na sala. Clarinha levantara a voz nas últimas palavras para que ele as ouvisse; preferia uma solução violenta; Marques, entretanto, não ouvira as palavras da mulher; entrou alegremente na sala, e apertou com efusão a mão de Jorge.

Jorge deixou de lá ir três dias; no quarto dia entrou pela sala com a franqueza que a intimidade lhe dava, e que Marques estabelecera como uma condição das relações entre as famílias.

Marques estava no sofá; Clarinha, sentada em um banquinho a seus pés, olhava para ele com uma expressão tão suave de afeição e respeito, que o moço curvou insensivelmente a cabeça. Mas foi então que, pela primeira vez, a serpente do ciúme lhe mordeu no coração.

- Entre - disse o médico, vendo que o primo parara à porta -; não se assuste: são duas criaturas felizes, e felizes um pouco por sua causa.

Clarinha olhou para o marido.

- Admiras-te? - disse Marques à mulher - . Foi ele quem me animou quando eu apenas ousava querer-te em silêncio. A ideia de escrever a primeira carta, à qual não deste resposta, foi do nosso amigo Jorge.

- Ah! - disse a moça.

E estendendo a mão ao primo, acrescentou:

- Obrigada!

A expressão de felicidade com que ela fez este gesto e disse esta palavra encheu de júbilo o marido; enquanto Jorge, despeitado e picado de ciúme, mal tocara os dedos da moça.

Esta, porém, ficara pensativa.

"Não sabia então nada naquele tempo", dizia ela consigo; "mas quem lhe confiara o meu segredo? O padre... Impossível!... E contudo ninguém mais o sabia; foi ele, foi. Com que fim?"

VIII

De mal a pior

Não é bom brincar com fogo. Jorge conheceu dentro de pouco tempo esta verdade comezinha; ardeu na chama de que tão pouco caso fizera.

Mas esse fogo, bom é que se saiba, não era o que purifica; o amor de Jorge não fora aceso no céu. Era fogo da terra ou do inferno; paixão ardente, voluptuosa, insensata - mistura de capricho, sensualidade e loucura.

A situação, porém, tinha mudado. Jorge percebeu que o médico o tratava com extrema frieza.

- Ela contou-lhe tudo - disse ele consigo.

Procurou indagar a verdade, mas como? Podia arrancá-la à própria moça, mas ela não lhe dava ocasião para isso. Não o recebia, quando estava só; falava-lhe em presença do marido.

Jorge indagava um meio de resolver a crise em que se achava o seu espírito. A intolerância das paixões criminosas revelou-se nele com toda a força; Jorge exprobrava a prima, odiava o primo; odiaria o mundo inteiro, se o mundo inteiro lhe opusesse um veto à sua lastimável ambição.

Um domingo, estando no seu quarto a revolver estas ideias no espírito, apareceu-lhe à porta o padre Barroso. Levantou-se para ir falar-lhe. O padre encaminhou-se para uma cadeira. Franziu o rosto severo e os olhos torvos.

Jorge quis gracejar do aspecto do padre; mas este o interrompeu dizendo:

- Jorge, não venho para rir, mas para exortar, e, se preciso for, castigar. Não se admire; eu posso castigá-lo referindo tudo a seu pai, que é um homem honesto. A mansidão é apenas a crosta do meu caráter; no âmago, está a justa indignação contra tudo o que ofende a moral e a virtude.

- Mas eu já sou outro...

- Não - disse o padre -, está pior do que estava. Antes nunca se emendasse.

Jorge compreendeu que o padre aludia à sua atual paixão, e no fundo da consciência confessou que realmente a emenda, naquele caso, era pior que o soneto.

O padre esteve alguns instantes silencioso.

- Sei tudo - disse ele.

- Tudo, o quê?

- Sei que o senhor ousou levantar olhos para uma pessoa que devia merecer-lhe todo o respeito. Receio ter sido eu a causa involuntária disto, mas o seu ato não se purifica ainda assim: fica sempre infame! Ela contou-me tudo, e pediu-me conselho. Disse-lhe que referisse tudo ao seu marido. Não quis; era envergonhá-lo sem necessidade, disse ela. Curvei-me à sua opinião; mas eu tinha a minha, e ouvia a consciência; contei-lhe tudo.

- O senhor! - exclamou Jorge, levantando-se de súbito.

- Eu, sim; pois que tem? - redarguiu o velho com placidez -. Entendi que era o meu dever; escutei a minha consciência.

Jorge mordia os beiços, cheio de cólera.

O padre Barroso continuou:

- Ao mesmo tempo, pedi-lhe que não fizesse escândalo; primeiramente, por si e por ele; depois, por seus pais que são duas honradas criaturas. A sua pessoa não pesou nada neste pedido. Prometeu e cumpriu; limitou-se a desprezá-lo.

- Mas enfim? - disse Jorge com um gesto de impaciência.

- Ela não aprovou o meu passo, a princípio; receou que o conhecimento da verdade perturbasse a sua paz doméstica e a felicidade de seus tios. Mas quando eu lhe afiancei, e ela via, que nada disso acontecia, agradeceu-me a iniciativa. Bem vejo que isso o mortifica; mas tenha paciência. Clarinha é uma moça digna de ser adorada como um anjo; reúne todas as virtudes de uma senhora. Perdeu o senhor aquele tesouro... sim, posso dizê-lo agora, já que o sabe; perdeu-o, porque ela o amava em silêncio e o senhor nada viu, tão cego andava aí por esse mundo de amores comprados, e fúteis prazeres.

Isto era revolver o punhal na ferida. Jorge estava humilhado e irritado. Quis falar, mas o padre não lho consentiu.

- Venho pois pedir-lhe - disse ele -, ou melhor, venho intimá-lo para que não volte à casa de sua prima, e que a esqueça. Há de fazer isto quer queira quer não queira. Afirmo-lhe que estou disposto a tudo para defendê-la.

- Defendê-la? - disse afinal Jorge -. Mas ela não precisa de defesa: eu não lhe faço nenhum mal. Tenho eu culpa se a amo?

O padre interrompeu-o.

- Não falemos de amor, falemos de dever. Está disposto a não voltar lá, a não pensar mais nela?

- Pois bem - disse Jorge -; estou disposto a não ir lá; quanto a pensar nela...

- Filho - tornou o padre, com brandura -; também se peca por pensamentos. Apague-a da sua memória, e será melhor que tudo. Quer um conselho?

- Qual?

- Vá para fora algum tempo. Depois, estou certo de que virá abraçar-me; porque saberá então de que abismo o salvei.

A+
A-