Conto

O Caminho de Damasco

1871

Este conto foi originalmente publicado no Jornal das Famílias, em maio e junho de 1871, assinado por Job. O texto desta edição eletrônica foi cotejado com o da publicação original.

II

O ponto negro

Jorge Aguiar, no tempo em que se passa esta narrativa, contava os seus vinte e três anos de idade. No ano anterior, voltara de São Paulo com um diploma de bacharel na algibeira e uns amores no coração. Poderia dizer que trazia também alguma ciência jurídica na cabeça, se o meu intento não fosse uma escrupulosa fidelidade histórica. Aguiar aprendeu apenas o necessário para de todo em todo não atar as mãos aos lentes; mas o pouco que aprendeu ficou na serra de Cubatão, sem lhe deixar saudades. Os amores, ainda os trouxe até à barra do Rio de Janeiro, mas com certeza não desembarcou com eles. Também não valiam a pena; eram amores bem pouco sérios para virem acolher-se à sombra da família.

Bem desventurado seria ele se tivesse de ganhar o pão com o que aprendera na academia. Mas a fortuna, que uns dizem ser cega, naquele caso teve uma vista de lince, adivinhando que era necessário afiançar a vida a quem não era capaz de ganhá-la. A família de Jorge tinha de sobra com que lhe manter a existência e satisfazer os caprichos. Desta maneira podia ele dormir tranquilamente e acordar em paz.

Nem tudo, porém, eram rosas na existência de Aguiar. Havia um ponto negro na limpidez do céu azul. Não era o pai. O pai de Jorge tinha-lhe aquele amor cego que não vê senões no objeto querido e era a seu respeito um tanto doutor Pangloss: achava uma tal ou qual necessidade nos desvarios do rapaz. Além disso, acariciava o sonho, aliás plausível, de o ver ministro de Estado. Para isso, disse ele, era necessário dar alguns meses à vida livre; depois do quê, chamá-lo-ia à razão e buscaria encartá-lo na primeira assembleia provincial que lhe ficasse a jeito.

Tais eram os planos e sentimentos do velho Silvestre Aguiar, cuja mocidade parecia não ter sido inteiramente capuchinha.

O ponto negro era a mãe de Jorge. Dona Joaquina era uma senhora austera e respeitável, mas impertinente, rusguenta e despótica, além de ser dotada de uma energia que não dizia muito com os seus cinquenta e dous anos. Não havia memória em casa de Aguiar de que a senhora D. Joaquina estivesse algum dia calada durante uma hora inteira. Calava-se, quando dormia, mas como dormia pouco, e acordava às cinco horas da manhã, dava apenas uma escassa trégua à família.

Não se precisava ter olhos muito perspicazes para conhecer que a senhora D. Joaquina era o verdadeiro dono da casa. Silvestre pertencia àquela raça de homens pacatos para quem este mundo é uma antessala do céu. Não se irritava nunca, não conhecia o que fosse impaciência ou tédio. Amou a muitas mulheres, rezavam as crônicas, mas nenhuma lhe captou tanto afeto como "a sua gorda Pachorra".

- A natureza - dizia ele - tem rios impetuosos e plácidos ribeiros. Se todos fôssemos rios não havia ribeiros na espécie humana. É bom que haja uma e outra cousa. A Providência quis que, ao pé de uma cachoeira despenhada como a Joaquina, houvesse um regato manso como eu. Nisto é que está a harmonia.

Devo dizer que Silvestre, quando casou com D. Joaquina, não lhe conhecia a facúndia, nem a impetuosidade. E é possível que ainda nesse tempo a boa senhora não tivesse desenvolvida a vocação. Foi um namoro começado por ocasião das festas da coroação. Um parente de Silvestre deu um jantar, onde se encontraram as duas famílias, a dele e a de Joaquina. Era fama que esta moça não se casaria nunca, porque andavam já por cinco ou seis os pretendentes que ela despedira com uma rispidez anunciadora dos seus hábitos futuros. Grande foi pois a admiração dos pais, quando três meses depois, indo Silvestre pedir-lhes a mão de D. Joaquina, receberam dela uma resposta afirmativa.

- Hão de ser felizes - dizia a mãe -; ela, que até agora recusou todos os casamentos, é porque Deus lhe guardava este.

Efetivamente, foram felizes. Silvestre dava-se perfeitamente com o gênio da mulher. Dona Joaquina irritava-se às vezes com a impassibilidade do marido, e soltava contra ele os seus discursos; mas, como Silvestre não articulava sequer uma queixa ou censura, a senhora D. Joaquina acabava, como ele mesmo dizia consigo, por "meter a viola no saco".

Esta D. Joaquina pois era o ponto negro na vida de Jorge. Às dez horas, quando muito, devia o rapaz recolher-se a casa. Silvestre advogava a causa do filho. Observava que o rapaz não podia ter uma vida de freira; mas a palavra freira, tão indiferente na boca de outra pessoa, na de D. Joaquina dava um discurso de dez páginas in-fólio. O marido calava-se e a ordem da senhora D. Joaquina prevalecia.

Jorge obedeceu durante muito tempo às ordens da mãe; mas os conselhos dos amigos foram pervertendo o seu espírito reto e casto. Jorge entrou um dia às 11 horas da noite; a mãe, que até então se não deitara, veio em pessoa abrir-lhe a porta.

- Oh! Mamã! - exclamou ele, espantado.

Dona Joaquina não disse palavra, fechou a porta e subiu silenciosamente adiante dele. Foi o único lance em que deixou de falar, e realmente nunca fora mais sublime em sua vida.

Daí em diante, não ousou Jorge transgredir as ordens da mãe; mas como os passeios, teatros e festas não se podiam combinar com esta obediência, o jovem bacharel arranjou uma chave sua, e por meio dela, batia a linda plumagem.

Além disso, alcançava facilmente convite para saraus e bailes, objeto em que a boa velha consentia na ausência do filho.

Com esses e outros pretextos, que em circunstâncias especiais lhe ocorriam, conseguira o nosso Jorge Aguiar iludir a vigilância e as ordens da velha. Quem se não enganava era o pai, que o via sair muitas vezes, e enxergava a verdadeira razão dos seus numerosos convites; mas o bom Silvestre aplaudia os escrúpulos do filho e tirava deles um bom agouro para a vida política do rapaz.

III

Clarinha

Quando Jorge Aguiar chegou a casa, D. Joaquina dava as suas últimas ordens para uma grande porção de doce de coco, e tomava conhecimento da tarefa que dera de manhã a duas crias empregadas em costurar. Silvestre jogava o gamão com o padre Barroso, enquanto Clarinha tocava ao piano umas variações alemãs.

Esta Clarinha, que entra em cena sem se fazer anunciar, era uma sobrinha de D. Joaquina, e portanto prima de Jorge. Era ainda criança quando perdera a mãe; e o pai, que dous anos antes se apaixonara por uma italiana que viera ao Rio de Janeiro, com o infundado pretexto de que era cantora, acompanhou a dama dos seus pensamentos, e andava agora pela Itália em sua companhia. Tanto valia estar morto para a pobre órfã. Dona Joaquina recebeu em casa a sobrinha e tratava-a como se fora filha sua.

Tinha esta moça uma não vulgar formosura, a que dava realce um ar de profunda melancolia. A melancolia era natural; nascida para viver em tal ou qual abastança, vira o pai esbanjar os cabedais herdados, e perdera a mãe na idade em que mais precisava dela. Depois foi estouvadamente abandonada pelo pai e obrigada a receber os favores dos tios. Isto, reunido à índole da moça, fazia que raras vezes lhe assomasse aos lábios um riso prazenteiro.

Clarinha vingara-se dos golpes que lhe dava o seu mau destino, instruindo-se e aprendendo a trabalhar com uma docilidade que encantava a senhora D. Joaquina. Esta boa senhora dizia que a sobrinha havia de ser a herdeira da sua competência na arte de governar uma casa. Efetivamente era difícil achar em tão verdes anos - 18 contava ela - tanta seriedade, prudência, atividade e ordem. Os momentos vagos, dava-os a moça ao estudo da música e da língua francesa, porque o seu fim era poder lecionar algum dia, e achar nessa profissão os meios de subsistência de que viesse a carecer.

Dona Joaquina aprovava esta previsão da sobrinha, mas procurava dissipar-lhe tais receios, dizendo que enquanto ela vivesse, e ainda depois que se finasse, a sobrinha não precisaria de nada. Além disso, estava moça, e um casamento viria pô-la ao abrigo de toda a necessidade.

- Um casamento? - dizia Clarinha, com ar triste -. Isso não é para mim.

- Por quê?

- Quem quererá casar comigo?

- Quem não for tolo - dizia a boa velha -. Vejam lá se é fácil achar uma esposa como tu hás de ser!

Clarinha abanava a cabeça e ficava pensativa.

O procedimento da moça confirmava as suas disposições celibatárias. Parecia indiferente a todos os homens, não se enfeitava para ir aos bailes, quando ia a eles não dançava, raras vezes chegava à janela, e era de todo surda aos louvores que a sua beleza lhe granjeava. Usava ordinariamente roupas escuras por lhe parecerem cores tristes; os modos eram modestos e acanhados; falava pouco, e, como disse, raras vezes ria.

Estava ela a tocar piano na sala, a pedido do padre Barroso, que era doudo por música, e dizia, com aquele ar que a natureza só concede aos gamonistas intrépidos, que era bom suavizar musicalmente as derrotas do comendador Aguiar. O certo é que o dono da casa ganhava poucas partidas ao padre.

- Dous e ás - dizia o comendador, lançando os dados e batendo numa das tábulas do padre.

- Tire o cavalo da chuva! - respondeu o padre, chocalhando os dados no copo -. Agora é que vai ver o que são elas. Preciso de umas quadras.

- Homem, jogue e deixe-se de conversa.

O padre lançou os dados.

- Quadras! - disse ele.

Silvestre Aguiar coçou o nariz, enquanto o implacável padre, depois de lhe bater em duas tábulas, empalmava o lenço encarnado na mão, e assoava-se com estrépito.

- Isto sem rapé não vai - observou ele.

- O moleque ainda não viria? - disse Aguiar -. Não sei que descuido foi este meu de não ter comprado ontem.

Clarinha cessou de tocar; ia a levantar-se para saber se efetivamente o moleque não tinha voltado, mas o tio disse-lhe que não era preciso.

Nesse momento, entrou Jorge na sala; beijou a mão ao pai, apertou a do padre Barroso, e foi cumprimentar a prima.

- Então? - disse o padre a Silvestre em voz baixa -. Por que não casam estes dous?

- Se eles quiserem, não lhe ponho dúvida - respondeu Silvestre -; mas são cousas que se não obrigam. Creio que não se namoram. Demais, o rapaz anda a desasnar-se.

- Há de me perdoar - disse o padre -, cuido que anda a perder-se. Olhe, que estes hábitos de mocidade rara vez se perdem. Coíba os desvarios de Jorge; não lhe hão de dar bom proveito.

- Eu fui o que ele vai sendo - respondeu Silvestre -, e todavia ninguém me vence em bom comportamento. Deixe estar, padre, que ele há de seguir os exemplos do pai.

Jorge trocou algumas palavras com a prima, e retirou-se para o seu aposento, enquanto a moça continuava a tocar e os dous velhos decidiam a partida.

Entrou então na sala um novo personagem: o Dr. Marques, homem de seus quarenta e quatro anos, corado, vigoroso, um tanto grisalho de barba e dos cabelos. Era o médico da família; conhecia o comendador quase desde a infância, e entretinha laços de nunca desmentida amizade. Ele e o padre eram os dous mais íntimos da casa.

- Chega a propósito - disse o padre -. Traz a caixa?

- Pois não - disse o recém-chegado depois de ir apertar a mão a Clarinha.

- Graças a Deus; venha de lá uma pitada.

- Duas, duas! - emendou Silvestre -. Há de sofrer dous ataques, um por bombordo e outro por estibordo.

Ambos os gamonistas esfregaram os dedos no lenço, e sacaram da boceta do Dr. Marques duas grossas pitadas. O padre inseria a sua em ambas as ventas, e com o lenço sacudia o pó que lhe caíra na camisa, enquanto o comendador, carregando com o dedo polegar na venta direita, introduzia toda a pitada na venta esquerda.

Marques deixou os dous velhos entregues ao gamão e dirigiu-se ao piano, na ocasião em que a moça se ia levantar para deixar a sala.

- Não quer tocar mais? - perguntou Marques.

- Tenho que fazer... - murmurou Clara em voz baixa e sem levantar os olhos.

Marques lançou um rápido olhar para os dous gamonistas, e, vendo que estavam entretidos com os dados, murmurou ao ouvido da moça:

- E a resposta?

- Deixe-me sair... - respondeu Clarinha.

E caminhando rapidamente para a porta, desapareceu da sala. Marques ficou ao pé do piano com o ar embaçado que o leitor naturalmente imagina, enquanto o padre Barroso, deitando os dados, exclamava alegremente:

- Coutadinho, comendador, coutadinho!

IV

Um conselho

Marques foi ter com Jorge. Encontrou o filho do comendador a ler um romance de Feydeau. Fechou a porta do gabinete, puxou uma cadeira e foi sentar-se junto de Jorge. Este marcou a página com uma conta do alfaiate e sem mudar de posição, disse ao hóspede:

- Temos novidade?

- Nenhuma - respondeu Marques -, e é justamente o pior.

- Que há?

- Perguntei-lhe agora pela resposta, e ela não me disse nada; mas saiu da sala com um modo que me tira toda a esperança. Creio que o seu conselho de escrever a carta foi mau.

- Mau! - disse Jorge -. Em nenhum caso podia sê-lo; uma carta não prova nada contra o senhor, e podia, e pode dar um bom resultado. Quer que lhe diga uma cousa?

- Que é?

- Não desanime. A prima há de ceder, porque não pode encontrar melhor marido que o senhor... O senhor é capaz de a fazer feliz. Se ela não lhe respondeu é por excesso de reserva. Tem medo de que lhe levem a mal. Olhe, por que não fala a minha mãe?

- A| sua mãe?

- Sim, ela obedece-lhe muito; estou que é um bom caminho. Vá, fale, e a cousa tomará bom caminho.

Marques levantou-se, tomou uma pitada, deu alguns passos no gabinete, concertou as suíças a um espelho e voltou a assentar ao pé do sofá.

- Mas está certo - disse ele -, de que não há outro namoro.

- Certo, não lhe digo que esteja, mas tudo faz crer que não. Clarinha é muito metida consigo, e passa a vida ocupada nos arranjos da casa. Estas cousas mais ou menos se sabem ou desconfiam. Nada me consta a respeito dela... Tome o meu conselho; fale com minha mãe.

- Está dito! - exclamou Marques -. Tomo o seu conselho.

Trata-se, como se vê, de um amor que o médico da casa dedicava à sobrinha de Silvestre Aguiar. Este amor, não o quero dar como uma dessas paixões infrenes e fogosas da juventude, nem como um desses amores tardios que nascem com a maturidade. Era uma afeição branda, temperada, refletida. Marques nunca fora casado; o celibato fora o programa de toda a sua vida, e sê-lo-ia até o dia da morte, se as qualidades de Clarinha, a sua aplicação ao trabalho, os seus hábitos inocentes e graves, lhe não tivessem influído no ânimo a ponto de lhe despertar a ideia do matrimônio.

O espetáculo de uma vida plácida no meio da família começou a seduzir-lhe o coração. A razão veio auxiliar este impulso natural; comparou o que seria uma velhice solitária com uma velhice cercada dos cuidados de uma esposa digna desse nome. Clarinha parecia reunir as qualidades necessárias para o papel de sua companheira, e o médico, que tinha intimidade com Jorge, confiou-lhe tudo. Jorge aconselhou-lhe a arma epistolar e Marques, com a docilidade de quem está disposto a tudo, arriscou logo a primeira carta à moça.

A esta carta é que aludia. Já sabemos que a moça, não só não lhe respondera, mas até parecia fugir ao pretendente. Isto podia ser algum namoro, como sugerira a Jorge, mas também podia ser natural reserva de Clarinha, que observava rigorosamente as rígidas doutrinas de D. Joaquina. Na opinião desta boa senhora, a noiva só devia conhecer o noivo no dia do casamento.

- E já é conceder muito - acrescentava ela.

Certamente, a esposa do velho Aguiar já se não lembrava das festas da coroação, nem do namoro travado naquele tempo com o futuro comendador. Era natural; cada qual tem as ideias da sua idade; aos cinquenta anos não se compreendem muito as loucuras dos vinte. Aos vinte, parece esquisita a austeridade dos cinquenta.

Clarinha deixava-se guiar pelas ideias da tia; era provável que a sua reserva fosse apenas o resultado desta influência.

O certo é que Marques nada havia adiantado, quando Jorge lhe sugeriu a ideia de ir falar à mãe, ideia que o médico aceitou e resolveu pôr em prática no dia seguinte.

Não se pense, entretanto, que o conselho de Jorge de algum modo exprimisse interesse pela causa do pretendente. Era-lhe de todo indiferente que a prima casasse com este ou com aquele. Daria o mesmo conselho a qualquer pessoa que lho pedisse. O principal cuidado do filho do comendador era gozar a vida ao ar livre, sem preocupações de espécie alguma. A dama que passara na rua do Ouvidor, quando ele conversava com os dous amigos, merecia-lhe mais (é duro de dizê-lo) que a prima. Em duas palavras, Jorge estava já adiantado na carreira da libertinagem.

Apenas o médico saiu do gabinete, Jorge continuou a leitura do romance. Daí a pouco vieram chamá-lo para jantar; jantou, dormiu um pouco, à noite simulou que tomava chá, recolheu-se ao quarto, e às dez e meia, quando a mãe supunha que toda a casa repousava no regaço das suas boas doutrinas, abria o nosso Jorge a porta e corria afoitamente ao prazo dado.

V

Como se perde um rapaz

Eu creio que o leitor dispensa uma descrição da festa em que Jorge figurou como um dos mais notáveis. Foi uma das primeiras ceias que se têm dado nos hotéis desta cidade. Acabou quando a aurora anunciava os primeiros albores, e os varredores das ruas concluíam a sua tarefa.

Jorge deixou-se entrar alguma cousa pelo vinho, e foi para casa um tanto perturbado da razão. Felizmente ninguém o viu entrar; dirigiu-se para a cama, onde dormiu até meio-dia, tendo tido cuidado de ordenar ao criado, confidente das suas aventuras, que dissesse à velha que ele havia passado mal a noite. A boa senhora ficou muito aflita quando o criado lhe transmitiu esta notícia, mas ordenou que o não fossem acordar; era esse justamente o desejo do filho.

Estas aventuras foram muitas e muitas vezes repetidas. Jorge completou a sua educação com tal arte que adquiriu logo um respeitável nome entre os mais tresloucados da terra fluminense. Não havia banquete, passeio, loucura, em que Jorge de Aguiar não tivesse parte conspícua.

O pai dava-lhe algum dinheiro; Jorge não se detinha em o gastar às mãos largas. Nos primeiros dias, ainda o dinheiro podia ocorrer às necessidades, mas não tardou que a receita ficasse muito abaixo da despesa. Quando este fenômeno se dá, quer nas finanças de um indivíduo, quer nas de um Estado, surge uma cousa que se chama déficit. Jorge achou-se senhor de um déficit. Tinha dous recursos: o trabalho, ou o crédito. O crédito tinha a grande vantagem de dispensar o trabalho. Jorge concertou as suas finanças deixando algumas dívidas em aberto ou recorrendo à bolsa de alguns usurários.

Desta maneira, conseguiu não perder a posição brilhante que adquirira, nem os afagos desinteressados de algumas damas do tempo. O processo destas damas era geralmente uniforme. Manifestavam por ele uma louca e desenfreada paixão, e durante quinze ou vinte dias falavam-lhe de uma vida celeste e romântica, de uns amores puros e recatados. Não hesitavam em sacrificar-lhe antigos adoradores e modernos pretendentes. Jorge subia ao sétimo céu. Em tese não acreditava no amor nem delas nem de ninguém; mas na hipótese lisonjeava-se de ter fixado uma borboleta volúvel e douda.

Esta crença, toda gratuita, sofria algum abalo no vigésimo primeiro dia, quando a borboleta fisgada enviava ao namorado uma conta da Notre Dame, uma letra vencida, ou um simples pedido de aluguéis atrasados. Jorge pagava largamente esta desilusão.

Não pagava só estas. Na sociedade em que ele ocupava um dos primeiros lugares, havia também uma casta de homens, cujas doutrinas comunistas tinham o único defeito de só se aplicarem às algibeiras alheias. A de Jorge era uma algibeira fácil e pronta; além disso, o filho do comendador tinha certo amor-próprio, e por nenhum preço queria que lhe chamassem pinga.

Esses e outros golpes, quem os sofria era o pai, que pagava as contas, as letras e as leviandades do filho. No fim de alguns meses achou o comendador que a aprendizagem de Jorge já lhe ia custando caro; em todo o caso devia estar feita.

- Bem - disse ele consigo -, agora já ele há de estar enfadado da vida solta, e pode cuidar das cousas sérias. É um grande erro querer meter os rapazes em cousas sérias antes de eles se terem enfadado das cousas frívolas: quem não erra na mocidade erra na velhice. Tratemos de o arranjar.

Era tarde.

Jorge estava calejado no vício; tinha andado mais em poucos meses do que outros em muitos anos. Era impossível chamá-lo à razão. Silvestre arranjou os meios brandos, mas nada fez; lançou mão dos meios enérgicos, e a resistência que encontrou fez-lhe conhecer todo o mal da situação que ele mesmo criara.

Dona Joaquina não deixou escapar a ocasião de fazer ao marido ásperas e merecidas censuras. O rapaz já não lhe obedecia; a boa senhora achou a causa desta resistência na docilidade com que Silvestre suportou os primeiros erros do filho. Eu poderia dar um extrato do discurso com que D. Joaquina descreveu esta situação perante o marido abatido e envergonhado; mas arriscava-me a não acabar o conto, do mesmo modo que ela não acabou o discurso, porque só se calou quando lhe faltou o ar.

VI

O casamento

Durante estes meses de loucuras de Jorge, a situação do Dr. Marques pouco tinha adiantado, mas adiantara alguma cousa. O pretendente expusera à tia de Clarinha os seus desejos depois de dous meses de hesitação e a boa senhora, aprovando as intenções do médico, só impôs a condição de que a sobrinha o amasse.

- Ah! Minha senhora - disse Marques -, a este respeito não posso afiançar nada. Não sei se sou ou não amado: D. Clarinha é tão acanhada que não deixa campo a investigações deste gênero.

- Pois bem - redarguiu D. Joaquina -, eu tomo a mim a incumbência de consultar-lhe o coração. Imponho esta condição porque conheço bem Clarinha: sei que é uma rapariga de muito juízo, e digna de escolher o seu próprio esposo. Em circunstâncias diversas, eu é que lhe havia de dar o noivo.

Dona Joaquina cumpriu a palavra. Perguntou a Clarinha se ela nunca havia pensado em casar.

- Casar? Eu? - perguntou a sobrinha.

- Sim, tu.

- Não, nunca pensei.

Clarinha disse estas palavras em tom frio e indiferente; todavia, pareceu a D. Joaquina que esta ideia a entristecera.

"Dar-se-á caso que já o ame?", disse a velha consigo mesma.

Correram alguns minutos de silêncio.

- Sabes que alguém deseja casar contigo? - disse enfim a mulher de Aguiar.

- Casar comigo? - perguntou a moça, abrindo muito os olhos.

- Sim, contigo.

- Titia está brincando.

- Brincando por quê? Não mereces ser pretendida por alguém?

Clarinha não respondeu.

- E essa pessoa, é muito nossa conhecida.

- Ah!

- Já reparaste?

Clarinha levou a mão ao coração.

- Não - murmurou ela.

- Não adivinhas quem seja?

- Não posso adivinhar.

- O Dr. Marques.

Clarinha empalideceu. A boa velha não tirava os olhos dela para ver se lhe lia no rosto os sentimentos do coração. Mas verdade, verdade, D. Joaquina não sabia traduzir fisionomias. A comoção de Clarinha, qualquer que fosse a causa, pareceu-lhe que era de bom agouro para o médico.

"Ama-o, não tem dúvida", disse ela consigo. "Tudo está arranjado."

Clarinha recobrou a palavra no fim de dez minutos.

- Titia - murmurou ela -; a senhora sabe o que me convém, e eu estou às suas ordens.

- Ordens, não - disse D. Joaquina -; isto não é uma ordem; é uma consulta.

- O Dr. Marques - disse Clarinha - é um excelente homem...

- E um excelente marido? - concluiu D. Joaquina rindo.

Clarinha não respondeu.

O silêncio da moça foi interpretado como um assentimento, e a esposa do comendador imediatamente deu parte ao médico do resultado da sua missão.

Clarinha, apenas ficou só, correu ao quarto e debulhou-se em lágrimas - lágrimas silenciosas e sufocadas, para que ninguém lhas ouvisse nem suspeitasse sequer. Depois, tirou de uma gaveta um retrato, contemplou-o longo tempo, e beijou-o repetidas vezes. Quando reapareceu na sala tinham desaparecido os vestígios das lágrimas. Estava triste; mas como esse era o natural estado da moça, ninguém procurava saber-lhe a causa.

Quando Marques soube do resultado da missão de D. Joaquina não pôde esconder o seu regozijo.

- Acho, porém, conveniente - disse a mulher de Aguiar - que o senhor ouça da própria boca de Clarinha a confissão, da qual eu só alcancei metade.

Não hesitou Marques em sondar por si próprio o coração de Clarinha. Era ele um homem honesto e de nenhum modo queria casar com ela sem ter a certeza de que ela não o faria obrigada.

O resultado desta nova experiência foi mais satisfatório ainda que o da primeira. A moça não lhe confessou amor com os termos de um coração apaixonado; mas teve palavras tão afetuosas para o médico, que o casamento foi logo decidido por parte da senhora D. Joaquina.

Silvestre Aguiar teve participação de que o casamento da sobrinha devia realizar-se dentro de mês e meio. Pediu-se-lhe o consentimento apenas como uma formalidade, porque a decisão de D. Joaquina era bastante para o caso. Aguiar nada tinha que opor; aplaudiu, pelo contrário, a união.

- Eu sempre dizia - observou ele - que este doutor era um grande velhacão. Esta habilidade com que nos bifa a pequena é prova de que você nasceu com um sentido de mais.

Não ouviu tão alegremente o padre Barroso, que era considerado pessoa da família, esta notícia, a quem foi dada com o pedido de aprovação.

- Eu não tenho nada que desaprovar - disse o padre -, mas... a Clarinha gosta dele?

- Isso não se pergunta! - exclamou D. Joaquina.

O padre olhou para a sobrinha do comendador; e no rosto dela leu uma satisfação tão pronunciada, que não fez mais do que encolher os ombros e dar os parabéns à noiva e aos tios.

Mas nessa mesma tarde, achando-se a sós com a moça, perguntou-lhe o padre:

- Que é isso, Clarinha? Então aquele amor?...

- Aquele amor morreu - respondeu a moça tristemente -; era um amor sem esperança, e amores destes, ou morrem ou matam. Era talvez melhor que me matasse; mas Deus quis que morresse. Não me queixo; obedeço ao meu destino.

O padre abanou a cabeça.

- Não, Clarinha - disse ele -, esse amor não morreu: tu ainda o sentes e isso é mau, minha filha; é mau que te cases com um homem, amando a outro...

- Oh! Não! Não! - disse Clarinha -. Afirmo-lhe que morreu; e se não morreu, juro-lhe que há de morrer.

- Juras! Pobre criança! Sabes o que estás jurando?

Duas lágrimas rebentaram dos olhos da moça. Viu-lhas o padre; e cingiu-a ao peito.

- Clarinha, eu não consinto nisso. Hás de casar com Jorge... Eu quero que cases com ele!

- Isso nunca! - disse Clarinha -. De que me serviria ser mulher de um homem que me não ama, nem pode amar?

- Sim, Jorge está perdido - murmurou o velho sacerdote com ar triste.

- Vou casar com um homem sério - continuou a moça -; não lhe tenho amor, é verdade; mas tenho-lhe certo afeto e respeito; estou que serei feliz - tanto quanto o pode ser uma pessoa desgraçada. Peço-lhe que nada diga a este respeito; far-nos-ia mal a todos.

Barroso abraçou a moça.

- Clarinha, tu és uma boa alma. Merecias ser feliz. A culpa disto é de teu pai. Se ele não te abandonasse, talvez não viesses a amar teu primo, porque esse amor nasceu da convivência. Teu pai...

- Perdoe-lhe - disse a moça -; meu pai tem má cabeça, mas é bom coração. Vamos; promete que não tentará desfazer este casamento?

- Se o quer, prometo.

- Obrigada! - disse a moça, beijando a mão ao padre.

Foi este quem celebrou o casamento. O bom velho tremia na ocasião de proferir as palavras sagradas. Depois, quando a cerimônia acabou, disse ao noivo em voz baixa e procurando reter uma lágrima que lhe tremia na pálpebra:

- Faça-a feliz, que ela o merece.

Jorge assistiu ao casamento, fez um cumprimento banal à noiva, disse quatro ou cinco graças chulas a alguns dos rapazes que assistiam à cerimônia, e foi acabar a noite no Alcazar.

Saltemos agora uns onze meses. Todos os personagens desta história estão ainda vivos. O comendador continua a jogar o gamão com o padre; a facúndia de D. Joaquina tem perdido com os anos; em quanto a Jorge, desfruta a reputação de libertino criada à custa do pai. Silvestre procurou todos os meios de arrancar o filho à carreira funesta em que ele mesmo o lançara, mas era impossível; a obra estava feita.

Alguma cousa havia conseguido Aguiar; conseguira dar-lhe um emprego, a ver se ele contraía hábitos de trabalhar. O rapaz viu no emprego mais uma fonte de renda e apenas lhe concedia algumas horas vagas. Assinava o ponto às 9 horas (o que já era uma correção) e retirava-se da repartição às onze. Não faria isso sempre, para não acostumar mal o Estado; deixava de lá ir muitas vezes. Não constava, porém, que nessas folgas estivesse incluído o dia primeiro do mês.

Marques era feliz; encontrara na mulher o ideal que havia sonhado: uma boa caseira, afetuosa, cheia de desvelo e respeito. Clarinha não era feliz; mas também não era desgraçada. O marido era um homem honesto, que vivia por ela e para ela, e procurava todos os meios de lhe fazer uma vida de rosas. Doía-lhe, é verdade, uns longes de melancolia que a moça nunca pudera apagar da fronte; mas isso, dizia ele, era natureza.

- Fui sempre assim; é meu modo. Nunca me conheceu outra, creio eu.

- É verdade que não - respondia o médico -; mas se eu pudesse vencer esse modo...

- Eu sou feliz - dizia a moça com um sorriso triste.

Uma noite, o comendador Aguiar, que raríssimas vezes ia ao teatro, e tinha neste assunto as mesmas ideias de 1840, resolveu ir ver uma peça no Ginásio. A mulher não foi; detestava o teatro. Aguiar comprou o competente bilhete e entrou para a plateia. No fim do ato, saiu ao saguão e encontrou um amigo.

- Tu aqui? - disse este -. É cousa rara.

- É verdade - respondeu o velho -. Também sou gente; quis ver estas cousas novas. E tu?

- E eu ainda me não aposentei. Onde estás?

- Nas cadeiras.

- Vem ao meu camarote.

Aguiar foi para o camarote do amigo que era na segunda ordem. Levantou-se o pano e a peça continuou. No meio do ato, abre-se a porta do camarote contíguo àquele em que estava o comendador, e entra uma mulher. Pelo desgarre das maneiras e aparato do luxo, não era difícil reconhecer nela uma das damas da moda. Voltaram-se para ela todos os olhos, assestaram-se os binóculos e lunetas, e durante uns cinco minutos o espetáculo não esteve no palco, mas na sala. É inútil dizer que a dama anônima não tinha outro juízo; entrou no meio do ato para chamar a atenção de todos: era uma vaidadezinha inocente, que seria ridícula, se não fosse um recurso de ofício.

Silvestre olhou para ela como toda a gente. Logo atrás da dama entrou um rapaz elegante, com o rosto avermelhado, e meio trôpego.

Aguiar reteve um grito.

Era Jorge.

Trêmulo e fulo de raiva, Silvestre se levantou e cravou os olhos no filho. Este, porém, não vira o movimento do vizinho; correu os olhos pelos camarotes fronteiros e sentou-se ao lado da dama, mas encoberto por ela.

Era o mais que ele podia conceder ao decoro.

O comendador continuava de pé, com os olhos no filho, que ficou justamente em frente dele. Jorge, depois de assestar o binóculo à cena e a alguns camarotes, assentou-se preguiçosamente na cadeira, e foi então que viu o pai.

Estremeceu.

Silvestre não lhe tirava os olhos de cima. Duas vezes, Jorge afastou os seus, mas duas vezes os dirigiu de novo ao pai, até que, levantando-se, pegou no chapéu e saiu.

Aguiar não esperou que acabasse o espetáculo.

Voltou para casa, perguntou se o filho já havia chegado; responderam-lhe que sim. Mandou-o chamar ao seu quarto, e o rapaz não se deteve; foi ter com o pai e lançou-se-lhe aos pés.

O comendador lançou-lhe em rosto o seu procedimento, e declarou-lhe que, se não mudasse de vida, era obrigado a pô-lo fora de casa.

O rapaz retirou-se para o seu quarto envergonhado, irritado, mas ainda não arrependido. Não acusava a fatalidade que o levou a encontrar o pai no teatro, onde nunca ia. Imaginou se seria denúncia de algum desafeto, fez mil planos e dormiu profundamente até à hora do almoço.

O velho Aguiar referiu ao padre a cena do teatro, e pediu-lhe conselho para o caso em que o filho se não emendasse.

O padre refletiu alguns instantes.

- Não sei que conselho te dê - disse ele -; o melhor é ver se o estroina se emenda. Queres que eu lhe fale?

- Sim, fala-lhe.

- A culpa é tua, comendador; tu mesmo o perdeste com as tuas facilidades. Não te disse muita vez que essa ideia de o deixar viver à rédea solta era má? O resultado foi este.

O padre Barroso mandou dizer a Jorge que o esperava em casa. O recado causou algum espanto ao rapaz: que lhe teria de dizer o padre? Suspeitou logo a verdade.

Apesar da resolução que tomou de não aceder ao convite do padre, Jorge foi à casa dele. O padre já o esperava há muito. A casa era modesta; os móveis, singelos e encanecidos no serviço.

O padre estava diante de uma escrivaninha, sentado numa velha cadeira de couro, de alto espaldar; em frente, tinha aberto um volume in-fólio, que o bom velho lia com atenção e recolhimento. Não se moveu quando entrou na sala o filho do comendador, conduzido pelo criado. Fez um gesto a este, que se retirou, e continuou a ler até o fim da página.

Depois fechou o livro, convidou o rapaz a sentar-se ao pé dele, e perguntou-lhe:

- Jorge, até quando quer continuar esta vida?

Jorge não respondeu. O padre contava com o silêncio, e continuou:

- Seu pai fundava muitas esperanças no senhor. Desvelou-se de lhe dar um meio de vida e uma posição na sociedade. Tudo isto lhe desfez o senhor, entregando-se a uma vida libertina. Quando seu pai conheceu o mal, este era quase irremediável. Seu pai, entretanto, não supunha que o senhor chegasse ao ponto de dar o espetáculo de ontem à noite. Imagine, se pode, a dor e a vergonha que lhe causou.

Calou-se o padre, por alguns instantes, e continuou:

- Ainda é tempo; nem tudo está perdido. Pode salvar-se; deve salvar-se.

- Senhor padre Barroso - disse Jorge -, eu não nego que a minha vida tem sido um pouco livre; mas eu não faço nada do outro mundo.

- Bem sei, bem sei - redarguiu o padre -; tudo o que o senhor faz é deste mundo; e neste mundo é que se fazem as piores cousas...

- Mas eu já não faço nada que mereça emenda...

O padre fez um gesto de impaciência.

- E o escândalo de ontem à noite? - disse ele.

- O que houve ontem à noite foi um acaso.

- Um homem sério não se expõe a estes acasos.

Jorge franziu a testa.

- Oh! Escusa de fazer gestos de estranheza; eu sou velho, sou rude e sou sacerdote; tenho o direito de lhe dizer a verdade. O senhor é um homem doudo, e é o menos que lhe posso dizer.

O padre proferiu estas palavras em voz alta e intimativa. Jorge sentiu, a seu pesar, a influência da autoridade do bom velho. Não lhe respondeu. Barroso insistiu em obter dele a promessa de que procuraria carreira e triunfaria dos maus hábitos contraídos.

Jorge refletiu algum tempo e respondeu:

- Pois bem, prometo emendar-me.

- É de coração?

Jorge hesitou.

- É - disse ele depois de algum tempo.

Não era de coração, mas o bom padre era um homem sincero; acreditava firmemente na sinceridade dos outros.

- Tanto melhor - disse ele -. Emende-se, Jorge; verá que ganha com isso. Calcule a alegria que dará a seus pais. Quando me lembra...

O velho suspirou.

- Quando se lembra? - repetiu Jorge.

- Quando me lembra - continuou Barroso - que você podia ser hoje um homem feliz ao lado de uma mulher feliz... de uma mulher que o amou...

- Uma mulher? - perguntou Jorge -. Quem era?

O padre ia a dizer o nome de Clarinha; mas lembrou-se repentinamente o perigo que podia haver nessa declaração, em vista do atual estado da moça.

Calou-se.

- Quem é essa mulher? - repetiu Jorge.

O velho levantou-se sem responder.

Jorge olhava para ele e procurava na memória algum vestígio que lhe indicasse a mulher a quem o padre aludia. Não se lembrou de ninguém. Insistiu com o padre para que lho dissesse.

- De que serviria isso? - respondeu o velho sacerdote -; o bem que ela lhe podia fazer é já impossível...

- Impossível?

- Sim, impossível.

- Por quê?...

- Porque... morreu.

Jorge não acreditou que a pessoa de quem se tratava houvesse morrido, segundo dizia o padre.

- Mas se morreu - objetou ele - que mal há em dizer-me o nome dela? Espere... trata-se... querem ver... que essa moça é... Clarinha?

O padre abanou a cabeça.

"Não, não me engano", disse consigo o estroina, "é ela!"

- Não importa saber quem seja - disse Barroso -; voltemos ao nosso ponto; o que lá vai, lá vai. Prometeu-me já emendar-se; está disposto a emendar-se?

Jorge teve o pudor de não repetir uma promessa que não estava disposto a cumprir; mas estendeu-lhe a mão com um gesto que parecia corresponder à pergunta do padre.

- Deus o ilumine - disse este -. Vamos, faça com que não morra sem o ver reabilitado. Fui eu que o batizei; não me deixe morrer com a ideia de que não pude salvar pela segunda vez uma alma que me foi confiada.

O padre disse estas palavras com paternal brandura, Jorge correspondeu a elas com uma aparência de humildade. Estava ansioso por sair. Despediu-se e saiu.

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