Conto

Encher Tempo

1876

IV

Lulu retirou-se à sua alcova, fechou a porta, e preparou-se para dormir. Antes, porém, de despir-se, foi direito ao toucador, abriu uma gavetinha, tirou de dentro um bilhetinho e releu-o. O bilhete dizia assim:

Prima.

Ainda hoje não posso ir lá; Deus Nosso Senhor a abençoe e guarde.

Seu Alexandre

Não havia muito que reler neste bilhete, que naturalmente estava decorado pela formosa prima. Ela o releu, contudo, não uma, mas três vezes; depois guardou de novo, abriu a janela que dava para a praia e deixou-se ir ao sabor das suas reflexões. Naturalmente eram reflexões de alma saudosa; mas eram ainda outra cousa, dúvida, receios, tal ou qual despeito de moça bonita e namorada, e enfim ciúmes, ciúmes que ela sentia roerem-lhe o coração.

- Que razão terá ele para não vir? - dizia ela -. Pouco caso, ou talvez...

O espírito não chegou a formular o pensamento todo; não era preciso; estava escrito no coração. Lulu agitou impaciente a ponta do pé; mordeu o lábio, fechou a janela. Sentou-se depois para escrever um bilhete; escreveu-o e rasgou-o quase imediatamente. Enfim, deitou-se. O sono não veio logo; a sombra daquele esquivo Alexandre ocupava-lhe todo o pensamento. Durante uma hora a moça rolou inutilmente na cama; chamou-se tola a si mesma, insensata, e boa demais. Ouviu dar meia-noite; enfim, dormiu.

A aurora seguinte raiou límpida e bela. O padre Sá acordava cedo; fazia as suas orações; e lia depois até a hora do almoço, se porventura não tinha alguma missa. Nesse dia teve missa; e às sete horas saiu de casa sem ver a sobrinha, o que era raríssimo, porque a moça levantava-se igualmente cedo. A noite porém fora mal dormida; Lulu acordou tarde e doente. Quando saiu do quarto batiam oito horas.

A doença era uma enxaqueca moral, que se curou alopaticamente com a presença de Alexandre. Às oito horas e meia voltou o padre Sá, pelo braço de um rapaz de vinte anos, que era nem mais nem menos o Alexandre de que se trata.

- Cá está o mariola - disse o padre abençoando o sobrinho -; foi ouvir a minha missa, evitando assim o castigo que mereceu com toda a certeza, e de que só o pôde livrar a sua piedade religiosa. Já não há sobrinhos; há uns peraltas que tratam os tios como se fossem indiferentes.

- Não diga isso - protestou Alexandre.

- Nem digo outra cousa - insistiu o padre -. Dois dias! Verdade é que a companhia de um velho padre rabugento...

- Prima, faça calar titio - suplicou o moço com um leve sorriso que imediatamente se lhe apagou.

- A maneira mais segura de fazer-me calar é mandar pôr o almoço.

- Está na mesa.

- Já!

- Ou quase. Dei as ordens necessárias apenas o vi de longe.

Lulu concentrou no coração toda a alegria que lhe causava a presença do primo; o rosto mostrava ressentimento e frieza. Alexandre não pareceu notá-lo. Aceitou o almoço que o tio lhe ofereceu, sentando-se ao lado deste e em frente da prima.

O rosto de Alexandre, sem embargo do seu ar juvenil, tinha certa austeridade, não comum em tão verdes anos. Os olhos eram modestos e repousados. Toda a figura estava em oposição com a viveza natural da mocidade. O tio amava-o justamente por lhe ver aquela gravidade precoce.

- Cada idade - dizia ele - tem o seu ar próprio; mas o mais perfeito moço é aquele que, às graças juvenis, reúne a seriedade e a reflexão da idade madura.

Durante alguns instantes ficaram sós os dois primos. Houve um intervalo de silêncio, durante o qual ambos pareciam acanhados; Alexandre foi o primeiro que falou:

- Recebeu ontem o meu bilhete? - disse ele.

- Recebi.

- Tenho andado muito ocupado estes dias.

Lulu abriu um sorriso de amorável escárnio, se estes dois termos podem estar juntos, como em todo o caso aí ficam, para exprimir uma cousa melhor de entender que de dizer. Era escárnio porque a moça achava ridícula a razão dada pelo primo; e era amorável, porque não vinha eivado de ódio ou desprezo, mas de certa ternura e misericórdia. Escárnio de namorada que já perdoou tudo ou não tarda perdoar.

Alexandre nada respondeu ao sorriso da moça; estavam à mesa; começou a contar os fios da toalha e a moça, a brincar com um palito, toalha e palito que eram os compassos da situação. Mas o palito quebrou-se entre os dedinhos raivosos da moça, e a vista de Alexandre turvou-se de tanto olhar para o tecido. Afinal foi Lulu quem rompeu o silêncio.

- Continuam ainda os seus trabalhos? - disse ela com ironia.

- Agora não.

- Ah!

- Agora estou mais livre.

- Tem casado então muita gente nestes últimos dias?

A pergunta da moça aludia ao emprego de Alexandre, que era na Câmara Eclesiástica. Ocupava o moço um lugar de escriturário naquela repartição, lugar que obteve por influência do tio.

Lulu não esperou resposta do primo; ergueu-se logo da mesa e Alexandre imitou-a.

- Está mal comigo? - perguntou ele com meiguice.

- Estou - respondeu a prima, com um modo tão benévolo e doce que desdizia da sequidão da resposta.

Efetivamente a moça estava contentíssima. Desde que o vira acreditou logo que só por motivo forte deixaria ele de vir ali. Antes de se separarem as mãos tocaram-se, e os olhares do mesmo modo, e tudo acabou num sorriso, amoroso da parte de Lulu, acanhado e severo da parte de Alexandre.

O padre Sá esperava o sobrinho no gabinete.

- Sabes que fiz uma conquista? - disse ele logo que o viu entrar.

E referiu o pedido feito a D. Emiliana, a disposição de Pedro para a vida eclesiástica, a quase certeza que tinha de obter o consentimento da mãe, notícia que Alexandre ouviu com muita atenção e interesse, confessando no fim que o caso era inesperado para ele.

- Não o era para mim - respondeu o tio -; o Pedro tem verdadeira vocação para a vida da Igreja e caiu em boas mãos. Apenas receber a resposta de D. Emiliana, darei todos os passos necessários para que ele siga estudos regulares, e os meus dois sonhos...

O padre Sá estacou. Tinha um livro aberto nas mãos, fez descair os olhos na página, como para continuar a leitura; mas nem a leitura continuou, nem o sobrinho lhe deu tempo.

- Os seus dois sonhos? - repetiu ele como pedindo o resto da frase.

O tio fechou o livro.

Houve um curto instante de silêncio entre ambos. O padre parecia hesitar na resposta que o sobrinho lhe pedia, e que desejava dar. Tinha a tapar-lhe a boca certa ordem de conveniências; mas o padre queria explicar tudo, e rapidamente refletiu que no que ia dizer nada havia que, em rigor, se pudesse censurar.

- Os meus sonhos são dois - disse ele enfim -. O primeiro é que o Pedro tome ordens; o segundo...

Estacou de novo sorrindo; mas desta vez foi interrogado somente pelos olhos do sobrinho.

- Dize-me primeiro... amas a tua prima? Não precisas corar; é amor legítimo, santo e puro. Os meus dois sonhos são esses; fazer do Pedro um sacerdote, e de ti marido de minha Lulu. Cada um seguirá a sua vocação; tu serás excelente esposo, e ele, excelente padre.

Alexandre ouviu calado a explicação do tio. Este levantou-se, um pouco acanhado com o silêncio do sobrinho, e foi colocar o livro na estante. Ia repetir a interrogação, quando Lulu assomou à porta. O rumor dos passos da moça fez estremecer Alexandre, e o acordou da meditação em que ficara. O padre pôs os olhos na sobrinha, uns olhos ternos e paternais; chamou-a a si, sem lhe dizer nada, e apertadamente a abraçou. Lulu não compreendeu logo o motivo daquela expansão do tio; mas o silêncio acanhado de Alexandre mais ou menos lhe deu ideia do que se havia passado. Sorriu então, e toda a sua alma se lhe entornou dos olhos em um olhar de agradecimento e de amor.

V

Naquela mesma tarde, dirigiu-se Pedro à casa do padre Sá, levando na ponta da língua uma lição latina que o padre lhe dera na véspera, e saboreando de antemão os aplausos do mestre. Ia lépido e risonho, pela Gamboa fora, com a alma ainda mais azul do que estava o céu naquele momento, e o coração a bater-lhe tão forte como as vagas na areia da praia. O padre Sá, se o visse naquele estado, se pudesse adivinhar todo o júbilo daquele coração, daria graças ao céu pela rara pérola que lhe fora dado achar para a coroa mística da Igreja.

Entretanto, o discípulo tinha outra cara, quando ali entrou. A comoção ou acanhamento ou o que quer que fosse tirava-lhe o tom expansivo do semblante.

- Ora, venha cá, meu futuro bispo! - exclamou o padre Sá, logo que o viu entrar -; não core, que ainda o há de ser, se tiver juízo e Deus o ajudar. Resposta nenhuma?

- Nenhuma.

- Oh! Mas eu estou certo de que há de ser favorável. Seu tio é homem de juízo.

Pedro fez um gesto de assentimento, e estendeu a mão à sobrinha do padre, que entrava nesse momento no gabinete. A moça assistiu à lição de Pedro; e a sua presença foi antes prejudicial que benéfica. O discípulo sentiu-se acanhado, esqueceu o que sabia, e recebeu alguns conselhos paternais do padre, sem ousar dar nenhuma desculpa.

- Não o censure, titio - disse a moça -; fui eu a causa de alguns esquecimentos do senhor Mendes; devia ter-me retirado.

- Oh! Não! - murmurou Pedro.

- Devia.

- Confesso que ontem não pude estudar a lição - disse Pedro com a voz trêmula.

- Basta - declarou enfim o padre -; sair-se-á melhor amanhã.

Havia já dois meses que o filho de D. Emiliana frequentava a casa do padre Sá, e ia regularmente receber as lições que ele lhe dava. A compostura do moço era exemplar; o gosto com que o ouvia, a facilidade com que retinha o que ele lhe ensinava, a vocação enfim que o padre lhe achou foram outros tantos laços que mais intimamente os prenderam um ao outro. Além daquelas qualidades, Pedro era bom conversador, dotado de maneiras afáveis, e tinha a pachorra (dizia o padre Sá) de aturar uma companhia aborrecida como a dele.

Verdade é que a companhia era aumentada com a de Lulu, que, se raras vezes assistia às lições do moço, vinha conversar com eles o resto do tempo, bem como Alexandre, que um dia teve igualmente ideia de acompanhar o curso particular do padre Sá. O padre deliciava-se com aquele quadro; e as suas lições de filosofia ou de história sacra, de teologia ou de latim saíam-lhe menos da cabeça que do coração.

É de crer que se o padre Sá soubesse que o seu discípulo Pedro - futuro bispo - gastava alguma hora vaga na leitura do Gil Brás ou outros livros menos piedosos, é de crer, digo eu, que lhe fizesse amigável repreensão; mas o padre nada via nem sabia; e o discípulo não ia mal de todo. Demais, um por um ia-lhe Pedro lendo grande número de seus livros, que eram todos de boa doutrina e muita piedade. Ultimamente emprestara-lhe um Santo Agostinho; Pedro devorara-o e deu boa conta de suas impressões. A alegria do padre era sem mescla.

Naquela tarde, não houve trovoada; Pedro conservou-se lá até à noite. Às ave-marias chegou Alexandre; os dois moços estavam ligados pela afeição do mestre e tal ou qual analogia de sentimentos. Alexandre deu os parabéns a Pedro, que os recebeu com um modo modesto e grave. Saíram juntos, mau grado os olhares de Lulu, que pediam ao primo ficasse alguns minutos mais.

Iam calados a princípio; ao cabo de alguns minutos, Pedro rompeu o silêncio; louvou a alma, os sentimentos e as maneiras do padre, a felicidade que se respirava naquela casa, a boa educação de Lulu; finalmente tratou do seu futuro e da carreira que se lhe ia abrir.

Alexandre ouviu-o calado, mas não distraído; concordou em tudo com ele, e quando veio o ponto da carreira eclesiástica, perguntou:

- Aceita essa profissão por seu gosto?

Pedro hesitou um minuto.

- Aceito - disse enfim.

- Pergunto se por seu gosto - tornou Alexandre.

- Por meu gosto.

- É vocação?

- Que outra cousa seria? - observou Pedro.

- Tem razão. Sente um pendor irresistível para a vida da Igreja, uma voz interior que lhe fala, que o atrai violentamente...

- Como o amor.

- Oh! Deve ser mais forte do que o amor! - emendou Alexandre.

- Deve ser tão forte. O coração humano, quando alguma força o solicita, qualquer que ela seja, creio que recebe igual impressão. O amor é como a vocação religiosa; como qualquer outra vocação, exerce no homem o mesmo poder...

- Não, não creio - interrompeu Alexandre -. A vocação religiosa, por isso mesmo que chama o homem a uma missão mais elevada, deve exercer influência maior. O amor divino não pode comparar-se ao amor humano. Soube de nenhum sacrifício igual ao dos mártires da fé?

Pedro refutou, como pôde, a opinião do companheiro; e este redarguiu com argumentos novos, falando ambos com igual calor e interesse. A conversa parou quando ambos chegaram à porta da casa de D. Emiliana; Pedro entrou e o outro seguiu caminho.

Dona Emiliana não pôde atinar com a razão por que o filho naquela noite parecia tão preocupado. A verdade é que Pedro tomou o chá distraidamente; não leu nem conversou, retirou-se cedo para o quarto, e só muito tarde conseguiu dormir.

- Vou hoje decidir o teu negócio - disse-lhe D. Emiliana no dia seguinte.

- Ah!

- Teu tio vem cá hoje - continuou ela -. Entender-me-ei com ele...

- Sim; o amor divino...

- O amor divino? - repetiu D. Emiliana espantada.

- E o amor humano - continuou Pedro.

- Que é?

- A vocação religiosa é superior a qualquer outra.

- Compreendo; tens razão.

Pedro só ouvira estas últimas palavras da mãe; e olhou para ela com ar de quem saía de um estado de sonambulismo. Procurou lembrar-se do que acabava de dizer; e só muito confusamente repetiu mentalmente as palavras vocação religiosa, amor divino e amor humano. Viu que a conversa da noite anterior lhe ficara gravada na memória. Entretanto respondeu à mãe que efetivamente o estado eclesiástico era o melhor e mais puro de todos os estados.

Suas irmãs aplaudiram de coração a ideia de fazer-se padre o rapaz; e o irmão mais moço aproveitou o caso para manifestar o desejo de ser sacristão, desejo que fez rir a toda a família.

Restava a opinião do tio, que se não fez esperar e foi de todo o ponto conforme com o gosto dos demais parentes. Estava padre o moço; só lhe restavam os estudos regulares e a sagração final.

A notícia foi recebida pelo padre Sá com verdadeira satisfação, tanto mais sincera quanto que recebeu a resposta de D. Emiliana em momentos dolorosos para ele. Sua sobrinha jazia na cama; fora acometida de uma intensa febre de caráter grave. O velho padre deu um apertado abraço no moço.

- Oh! Eu bem sabia que não havia nenhuma dúvida! - exclamou ele.

Pedro soube que a moça estava enferma, e empalideceu quando o padre lhe deu esta triste notícia.

- Doença de perigo? - perguntou o futuro seminarista.

- Grave - respondeu o padre.

- Mas ainda ontem...

- Ontem estava de perfeita saúde. Era impossível contar com semelhante acontecimento. Entretanto, que há mais natural? Seja feita a vontade de Deus. Estou que ele há de ouvir as minhas orações.

O padre Sá, dizendo isto, sentiu uma lágrima borbulhar-lhe nos olhos; enxugou-a disfarçadamente. Contudo, Pedro viu-lhe o gesto e abraçou-o.

- Descanse, não há de ser nada - disse ele.

- Deus te ouça, filho!

VI

A tia Mônica, de quem se falou em um dos capítulos anteriores, era uma preta velha que havia criado a sobrinha do padre, e a amava como se fora sua mãe. Era liberta; o padre deu-lhe a liberdade logo que morrera a mãe de Lulu, e Mônica ficou servindo de companheira e protetora da menina, que não tinha outro parente, além do padre e do primo. Lulu nunca adoecera gravemente; ao vê-la naquele estado, a tia Mônica ficou desatinada. Passado o primeiro momento, foi um modelo de paciência, dedicação e amor. Velava as noites junto da cabeceira da doente, e apesar de estar toda entregue aos cuidados de enfermeira ainda lhe sobrava tempo para tratar da direção da casa.

A doença foi longa; durou cerca de quinze dias. A moça ergueu-se enfim da cama, pálida e abatida, mas livre de todo o mal. A alma do tio sentiu-se renascer. A certeza de que a moléstia desaparecera de todo dera-lhe vida nova. Ele padecera muito durante aqueles quinze mortais dias; e Pedro fora testemunha de sua longa aflição. Não foi só testemunha impassível, nem o consolou com palavras triviais; tomou boa parte nas dores do velho, fez-lhe companhia durante as noites de maior perigo.

Alexandre não foi menos assíduo nem menos dedicado à família; seu rosto austero e frio não revelava a dor íntima; mas ele sentia, decerto, a doença da prima e a aflição do padre. Suas consolações eram antes religiosas do que puramente humanas.

- Descanse, que ela há de viver - dizia ele -; mas dado que o Senhor a leve, podemos ter a certeza de que leva um anjo mais para o coro celeste. De lá veio, para lá tornará, tão puro como os que rodeiam o trono de Deus.

Pedro repelia esta ideia.

- Muitos são os anjos que estão no céu - dizia -; e poucos, raríssimos, os que Deus consente que desçam a este mundo. Por que há de levar aquele que é a felicidade e a glória de nosso bom mestre?

As palavras de ambos entravam no coração do padre; mas, por mais cristão que ele fosse, e era-o muito, as do filho de D. Emiliana iam-lhe mais direitas ao coração. O natural egoísmo da afeição humana dominava por instantes o sentimento religioso e a resignação cristã.

No dia em que a moça foi declarada sem perigo, Pedro chegara à Gamboa, não estando o padre em casa. A tia Mônica deu-lhe a agradável notícia. O rosto do moço expandiu-se; sua alegria fê-lo corar.

- Livre! - exclamou ele.

- Livre.

- Quem o disse?

- O doutor.

- Ela está mais animada?

- Muito animada.

- Oh! Diga-lhe de minha parte que dou graças a Deus pelo seu restabelecimento.

Cinco dias depois, Lulu saiu do quarto. A figura delicada da moça parecia mais bela e adorável depois da enfermidade. Um largo roupão branco envolvia-lhe o corpo emagrecido pela doença; os olhos amortecidos e a palidez do rosto davam-lhe um aspecto delicado e triste ao mesmo tempo. Vivia a moça; e não só a saúde voltara, mas com a saúde uma alegria não sentida até aquele dia, alegria toda filha do regozijo das pessoas que a amavam, da dedicação e zelo de que fora objeto durante os dias de perigo.

A convalescença foi rápida; durou cerca de oito dias. Durante esse tempo frequentou Pedro a casa do mestre, como nos dias anteriores, sem nada lhe perguntar acerca de seus próprios negócios, não só porque era indiscrição fazê-lo em momento como aquele, e quando o padre apenas começara a saborear o restabelecimento da sobrinha, como porque esta fazia com que as horas passassem depressa. Não se tratam negócios sérios sem tempo, e Pedro não tinha tempo.

Lulu não podia ler; e nem sempre a entretinham as histórias da tia Mônica. Pedro lia para ela ouvir alguns livros morais que achava na estante do padre, ou algum menos austero, ainda que honesto, que de casa levava para aquele fim. Sua conversa, além disso, era extremamente agradável; a dedicação, sem limites. Lulu via nele uma criatura boa e santa; e o hábito de todos os dias veio a torná-lo necessário.

No primeiro dia em que ela pôde chegar à janela, Pedro arrastou para ali uma poltrona de couro, deu o braço à moça e fê-la sentar-se. Eram onze horas da manhã; a atmosfera estava limpa e clara e o mar, tranquilo. A moça respirou a largos haustos, enquanto Pedro ia buscar o banquinho em que ela pousasse os pés.

- Pensei nunca mais ver isto - disse ela, agradecendo-lhe com um sorriso que fez baixar os olhos ao moço.

- Não fale assim! - suplicou este depois de algum tempo.

- Agora não há perigo; estou boa. Haviam de sentir a minha morte, creio; mas eu sentiria igualmente se deixasse a vida. Morrer moça deve ser triste!

Pedro pediu-lhe que mudasse de assunto, ameaçando-a de ir dizer tudo ao tio.

- Não é preciso! - exclamou uma voz.

Voltaram-se.

Era o padre que entrara na sala desde algum tempo e ouvia a conversa dos dois.

- E não lhe parece que tenho razão? - perguntou Pedro.

- Toda. Agora só se deve pensar na vida.

- Vê? - disse o moço, voltando-se para Lulu.

- O Alexandre já veio? - perguntou o padre Sá, depois de beijar a testa à sobrinha e abençoá-la como de costume.

Lulu ficou séria.

Aquela pergunta avivou-lhe a tristeza que lhe causava a ausência do primo, ausência de dezoito horas, o que era enorme, se atendermos ao estado da moça e às relações de suas almas. O tio notou-lhe a impressão e ficou igualmente sério.

"Nem tudo sai à medida dos nossos desejos", pensou ele; "não verei realizados os meus dois sonhos! Se sai dali um peralta..."

O pensamento foi interrompido pela entrada de Alexandre.

Lulu sorriu de contentamento ao ver o primo; mas reprimiu aquela expressão para de algum modo puni-lo do esquecimento em que a deixara. O velho padre foi menos diplomata; recebeu-o com a alma nas mãos.

Alexandre não reparou nem na dissimulação dela, nem na expansão dele; seus olhos foram direitos ao filho de D. Emiliana. Pedro sustentou o olhar com tranquilidade; e se houvesse menos comoção da parte das testemunhas daquele olhar, veriam que ambos pareciam querer sondar um ao outro.

A moça esperou que o primo, em desconto de seus pecados, a tratasse com a ternura a que o seu coração tinha jus; mas Alexandre parecia preocupado; e ela entregou-se toda à conversação do outro. Uma canoa que cortava as águas tranquilas do mar serviu de pretexto e começo à palestra. O que eles disseram da canoa, do mar, da vida marítima, e mais ideias correlativas dificilmente caberia neste capítulo, e com certeza exigia alguns comentários, visto que algumas frases tinham tanto com o assunto como a leitora com o doge de Veneza. Alexandre contemplava-os sem morder o lábio com raiva, nem dar o menor sinal de despeito. Seu rosto marmóreo não revelava o que se passava no coração. Não tardou que ele próprio interviesse na conversa. O padre Sá aproveitou a ocasião para chamar o filho de D. Emiliana à explicação de um ponto teológico. Pedro afastou-se do grupo com dificuldade; mas a conversa entre os dois morreu, como lâmpada a que faltou óleo.

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