Coleção

Contos na Imprensa - Fase 5

Esta que se denominou aqui "quinta fase" dos contos avulsos de Machado de Assis reúne 11 peças, publicadas no Jornal das Famílias. Dos 11 contos, sete são assinados por Machado de Assis, dois sob o pseudônimo de Lara e dois sob o de Victor de Paula.

Já há algum tempo, por iniciativa de editoras como a Jackson e a Nova Aguilar, e de indivíduos como Raimundo Magalhães Jr. (que nos anos 1950 publicou cinco volumes reunindo contos machadianos), o leitor dos séculos XX e XXI teve acesso a muitas dessas histórias. Nas edições anteriores à de 2008, a Nova Aguilar reuniu, sob o título de "Outros contos", 46 títulos. Os contos "completos" de Machado de Assis, no entanto, eram (e são) acessíveis eletronicamente, desde 2002, em www2.uol.com.br/machadodeassis, graças a uma iniciativa pioneira de Cláudio Abramo.

Em 2008, como parte das comemorações do primeiro centenário da morte do escritor, a Nova Aguilar reuniu a obra completa de Machado de Assis em quatro volumes e ofereceu ao leitor, em suporte material, todos os contos machadianos. Aqueles que não foram selecionados pelo autor para figurarem nos sete volumes de contos que publicou durante sua vida compõem o segundo e o terceiro volume dessa edição, num total de mais de mil páginas, sob o título de Contos avulsos. São 114 contos ao todo, na grande maioria, bastante extensos.

A imensidão e as dificuldades do corpus exigiram da nossa equipe uma espécie de reinvenção metodológica: distribuímos os contos por períodos, mais ou menos curtos, de modo que, a cada etapa, lidássemos com, no máximo 15 contos. O que se publica aqui é o que chamamos "Contos avulsos - fase 5", reunindo peças publicadas no Jornal das Famílias entre fevereiro de 1876 e dezembro de 1877, sendo que o último conto, "Um ambicioso", avança por janeiro de 1878. Nos próximos meses, esperamos ir dando conta, em várias etapas semelhantes a esta, do conjunto completo.

Não há unidade temática entre os contos aqui reunidos, como, aliás, não costuma haver mesmo nos livros publicados pelo autor em vida, cujos títulos, sempre no plural, são por si só uma indicação de diversidade. Trata-se de peças em que às vezes já se desenha o humor machadiano e em que já é possível detectar-se o sarcasmo corrosivo peculiar ao autor maduro, como nos dois exemplos que escolhemos para ilustrar: "Seixas sentiu a morte do sócio e protetor; mas é força confessar que a herança lhe suavizou grandemente a mágoa." ("Um almoço"); e "De ordinário, as heroínas de romance comem pouco ou não comem nada. Ninguém admite, em mulheres, ternura e arroz de forno. Heloísa, e mais existiu, nunca soube de certo o que era recheio de peru, ou mesmo trouxas d`ovos." ("O passado, passado").

Aqui e ali, quase imperceptível, o narrador machadiano filtra a sua crítica social, como no conto "Encher tempo", em que, com a seleção de um verbo específico, faz com que se note a autoridade absoluta de uma criança de cerca de oito anos sobre empregados (e/ou escravos): "o irmão pequeno, Luís, fez umas quatro canoas de papel e mandou pô-las na água das sarjetas da rua, indo ele vê-las da porta" (grifo nosso). Ou seja, um capricho do menino que, resguardado da chuva, "manda" nos serviçais e os expõe à intempérie.

Outra característica do melhor Machado que existe desde as primeiras produções e aqui já se vai consolidando, quase sempre com efeito cômico, é a autoconsciência narrativa, traço da melhor tradição cervantina (como lembra Carlos Fuentes em seu famoso ensaio Machado de La Mancha), de que são tributários também os autores ingleses do século XVIII (como Fielding e Sterne), tão caros ao nosso Machado de Assis. Vejam-se alguns exemplos:

E tão triste é esta situação que eu não tenho ânimo de continuar o capítulo. Veremos no capítulo seguinte o que aconteceu ao nosso herói. ("To be or not to be")

[...] E não é romance isto, senão história verídica e real, pelo quê, vai esta narrativa com as exíguas proporções de uma notícia, sem enfeites de estilo nem recheio de reflexões. O caso conto como o caso foi. ("Longe dos olhos")

Mas que tem com esta história o título que lhe pus? Tudo; são umas vinte páginas para encher tempo. Em falta de cousa melhor, lê-se isto, e dorme-se. ("Encher tempo")

Não ouso dizer o estado de Madalena. De ordinário, as heroínas de romance comem pouco ou não comem nada. Ninguém admite, em mulheres, ternura e arroz de forno. ("O passado, passado")

Algumas décadas atrás, um fino crítico chamou atenção para o caráter orgânico da obra machadiana, na qual "certas estruturas primárias e primeiras se desarticulam e rearticulam sob forma de estruturas diferentes, mais complexas e mais sofisticadas, à medida que seus textos se sucedem cronologicamente". Nos contos desta "fase", o leitor habituado à ficção de Machado flagrará motivos recorrentes, como o "roupão branco" a vestir um corpo feminino, que já usara com excelente efeito em A mão e a luva (1874, capítulo "Um roupão"), o qual aflora aqui no conto "Encher tempo"; ou a indecisão da principal personagem feminina do mesmo conto ("Ali ficou cerca de meia hora absorvida em seus pensamentos; a figura de Alexandre flutuava-lhe no espírito, confundindo-se às vezes com a de Pedro"), que prenuncia a mais complexa e sofisticada Flora, de Esaú e Jacó (1904), a qual não consegue escolher entre Pedro e Paulo.

Há também citações recorrentes, a denunciar certas obsessões do autor: em "Um almoço", menciona as feiticeiras de Macbeth: "Era esta voz que lhe contava antecipadamente as alegrias do futuro, dizendo-lhe à guisa das feiticeiras de Macbeth: 'Tu serás sócio do Madureira!'"; a mesma cena volta em "Um ambicioso": "Uma feiticeira de Macbeth bradava-lhe aos ouvidos: Tu serás eleitor, José Cândido!" (grifos do autor). A passagem shakespeareana figura também na ficção tardia, aflorando nos textos de Dom Casmurro (1899) e de Esaú e Jacó. No conto "O astrólogo", recorre à menção de uma fábula de Esopo, que já utilizara em Ressurreição (1872).

Já não são, por assim dizer, leituras de valor exclusivamente histórico, como registro da produção de Machado de Assis no início de sua carreira. Nelas já encontrará o leitor peças de grande qualidade literária, que, no entanto, o autor excluiu das coletâneas que publicou em vida.

***

Para estabelecer o texto da presente edição eletrônica, utilizaram-se como fonte edições disponíveis na internet, cotejadas com as edições digitalizadas do periódico em que os contos foram publicados, disponíveis no acervo da hemeroteca digital da Fundação Biblioteca Nacional.

Tal cotejo se revelou fundamental, na medida em que as edições existentes, tanto as impressas como as disponíveis em meio eletrônico, quase todas oriundas ou das coletâneas reunidas pela editora Jackson na coleção da obra completa de Machado de Assis, ou dos cinco volumes de contos machadianos publicados por Raimundo Magalhães Jr., apresentam problemas seriíssimos: falta de passagens inteiras, substituição de palavras, "correções" ao texto machadiano (quer com substituição de palavras talvez consideradas menos "nobres", quer com flexões verbais modificadas em observância a normas gramaticais). Disto procurou-se dar conta em links, que, nesta edição - o leitor notará - não se restringem às citações e alusões histórico-literárias e à toponímia, tratando de casos mais propriamente linguísticos.

Foi feita uma atualização ortográfica, mas, sempre que duas formas são consignadas em dicionários de hoje, respeitou-se o que está nas primeiras edições: "parêntesis" e não "parêntese"; "lagrimejada" e não "lacrimejada", "dezasseis" e não "dezesseis"; "dezassete" e não "dezessete"; "trajo" e não "traje"; "estupefacta" e não "estupefata"; "doudo" e não "doido". Quanto aos numerais, manteve-se a forma usada nas publicações originais, ora por extenso, ora em algarismos. Usaram-se iniciais maiúsculas para instituições: "Câmara Eclesiástica"; "Irmandade [do Rosário]".

Anotaram-se também palavras cujo sentido no texto machadiano é diferente do usual no português brasileiro do início do século XXI. Por exemplo: "folha", no sentido hoje pouco usual de "jornal"; "mofina" (matéria de jornal em geral difamatória); "pera" (pequeno cavanhaque); "pinga" (pessoa sem dinheiro); "sucessos" (ocorrências, fatos acontecidos); "fósforo" (gíria que se usava para designar o eleitor que votava com título falso) etc.

Usos hoje considerados incorretos foram mantidos, como a flexão de gênero em advérbio: "Enquanto ela, meia inclinada, ia acompanhando as linhas do livro [...]" (grifo nosso). Outra construção reiteradamente usada pelo autor (e aqui mantida) é a regência indireta indevida, como em "mas este fez-lhe ver que era conveniente", em vez de "mas este o fez ver que era conveniente". Respeitaram-se também certas "violências" sintáticas, como em "Primeiramente custou-lhe a dormir", em que a preposição "a" antecede o sujeito do verbo "custar", que é "dormir".

Buscou-se sempre a maior proximidade possível com a publicação original, o que nem sempre tem sido a política de edições posteriores. Um exemplo é a correção de "concertar" ("harmonizar", "pôr em concerto com", "arrumar"), que mudam para "consertar" ("reparar algo que se estragou"). A edição Jackson da década de 1930 consagrou o uso de "dous", quando no Jornal das Famílias o autor emprega quase sempre "dois" (embora, contraditoriamente, use "cousa" e não "coisa"). Respeitaram-se as oscilações registradas na publicação original entre "até o" e "até ao", "chegar à casa" e "chegar a casa", "em todo o caso" e "em todo caso".

Talvez o maior problema no estabelecimento de textos escritos no século XIX seja o da pontuação. Ao preparar esta edição, optou-se por uma política a meio caminho entre uma atualização radical, de acordo com as normas presentemente vigentes, e o respeito à pontuação de Machado de Assis, a qual, aliás, era comum aos seus contemporâneos, no Brasil e em Portugal. Conservaram-se todas as vírgulas antes da aditiva "e" precedendo verbos cujo sujeito era precisamente o mesmo da oração anterior, observando-se que não raro o autor omite a vírgula em casos absolutamente idênticos, às vezes lado a lado, no mesmo conto: "Riu-se, e não me disse nada. Despedi-me e saí...". A mesma oscilação se dá com o uso e não uso de vírgula antes de "e" que introduz sujeito diferente do da oração anterior: "Eu percebi isso, e a compaixão apoderou-se de mim."; mas: "Pedro entrou e o outro seguiu caminho."

Quanto às adversativas no meio de uma oração, o autor oscila entre isolá-las entre vírgulas e simplesmente não usar vírgula alguma, às vezes no mesmo conto: "D. Lucinda, porém, não podia dizer nada [...]"; mas: "A tristeza porém era também a mesma [...]". Respeitou-se, sempre, a oscilação, tal como consta na publicação original, ainda que se possa admitir que tal oscilação fosse do tipógrafo e não, necessariamente, do autor. Preservou-se igualmente a alternância entre o emprego e o não emprego de vírgula antes de oração subordinada consecutiva: "a dívida[...] pareceu-lhe tão autêntica, que iria pedir emprestado se não tivesse dinheiro para favorecer o amigo"; mas: "As cousas chegaram a tal ponto que o escrivão preferia vê-lo ausente.".

Por outro lado, nos casos em que se considerou que a vírgula (ou a ausência dela) comprometia o melhor entendimento do texto, não se hesitou em intervir, como ocorreu no caso de vírgulas precedendo orações adjetivas restritivas (que foram suprimidas) e de falta de vírgulas precedendo orações adjetivas explicativas (que foram inseridas). Introduziu-se vírgula para indicar a elipse do verbo, o que o autor raramente faz, assim como nos casos de orações subordinadas reduzidas de gerúndio, e, ainda, nas orações em que há uma inversão na ordem sintática habitual da frase.

Optou-se por recorrer às aspas sempre que a "fala" de uma personagem é, na verdade, a expressão verbal de um pensamento que não chega a ser exteriorizado. Nos diálogos, foi usado parágrafo e travessão.

Esta não pretende ser uma edição crítica. O objetivo foi produzir uma edição fidedigna do texto machadiano que, através dos hiperlinks, oferece ao leitor do século XXI uma ferramenta de fácil utilização e encurta a distância entre ele, leitor, e o enorme universo de referências de Machado de Assis.

Os textos dos hiperlinks que constituem referências histórico-literárias e de caráter simbólico foram retirados do banco de dados "Citações e alusões na ficção de Machado de Assis", acessível neste portal. Na pesquisa dos links que não constituem referências da natureza descrita acima, como é o caso de nomes de ruas e cidades, de estabelecimentos comerciais etc., registre-se aqui a colaboração de Alice Ewbank e Camila Abreu, ex-bolsistas de Iniciação Científica na Fundação Casa de Rui Barbosa; no estabelecimento do texto e em sua revisão, bem como na elaboração de algumas notas, a de Laíza Verçosa do Nascimento e de Maira Moreira de Moura, atuais bolsistas de Iniciação Científica. Na construção do texto digital e do software que possibilita a visualização dos links, o crédito é de Eduardo Pinheiro da Costa, técnico em informática da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Marta de Senna, pesquisadora
Laíza Verçosa do Nascimento e Maira Moreira de Moura, 
bolsistas de Iniciação Científica 
Fundação Casa de Rui Barbosa/CNPq


janeiro de 2014

Ver
A+
A-