Conto

O Segredo de Augusta

1869
Este conto foi originalmente publicado no Jornal das Famílias em julho e agosto de 1868, assinado por Machado de Assis.

II

Pela uma hora da tarde do mesmo dia levantou-se Vasconcelos da cama.

Vasconcelos era um homem de quarenta anos, bem apessoado, dotado de um maravilhoso par de suíças grisalhas, que lhe davam um ar de diplomata, cousa de que estava afastado umas boas cem léguas. Tinha a cara risonha e expansiva; todo ele respirava uma robusta saúde.

Possuía uma boa fortuna e não trabalhava, isto é, trabalhava muito na destruição da referida fortuna, obra em que sua mulher colaborava conscienciosamente.

A observação de Adelaide era verídica; Vasconcelos recolhia-se tarde; acordava sempre depois do meio-dia; e saía às ave-marias para voltar na madrugada seguinte. Quer dizer que fazia com regularidade algumas pequenas excursões à casa da família.

Só uma pessoa tinha o direito de exigir de Vasconcelos mais alguma assiduidade em casa: era Augusta; mas ela nada lhe dizia. Nem por isso se davam mal, porque o marido em compensação da tolerância de sua esposa não lhe negava nada, e todos os caprichos dela eram de pronto satisfeitos.

Se acontecia que Vasconcelos não pudesse acompanhá-la a todos os passeios e bailes, incumbia-se disso um irmão dele, comendador de duas ordens, político de oposição, excelente jogador de voltarete, e homem amável nas horas vagas, que eram bem poucas. O irmão Lourenço era o que se pode chamar um irmão terrível. Obedecia a todos os desejos da cunhada, mas não poupava de quando em quando um sermão ao irmão. Boa semente que não pegava.

Acordou, pois, Vasconcelos, e acordou de bom humor. A filha alegrou-se muito ao vê-lo, e ele mostrou-se de uma grande afabilidade com a mulher, que lhe retribuiu do mesmo modo.

- Por que acorda tão tarde? - perguntou Adelaide acariciando as suíças de Vasconcelos.

- Porque me deito tarde.

- Mas por que se deita tarde?

- Isso agora é muito perguntar! - disse Vasconcelos sorrindo.

E continuou:

- Deito-me tarde porque assim o pedem as necessidades políticas. Tu não sabes o que é política; é uma cousa muito feia, mas muito necessária.

- Sei o que é política, sim! - disse Adelaide.

- Ah! Explica-me lá então o que é.

- Lá na roça, quando quebraram a cabeça ao juiz de paz, disseram que era por política; o que eu achei esquisito, porque a política seria não quebrar a cabeça...

Vasconcelos riu muito com a observação da filha, e foi almoçar, exatamente quando entrava o irmão, que não pôde deixar de exclamar:

- A boa hora almoças tu!

- Aí vens tu com as tuas reprimendas. Eu almoço quando tenho fome... Vê se me queres agora escravizar às horas e às denominações. Chama-lhe almoço ou <i> lunch, a verdade é que estou comendo.

Lourenço respondeu com uma careta.

Terminado o almoço, anunciou-se a chegada do Sr. Batista. Vasconcelos foi recebê-lo no gabinete particular.

Batista era um rapaz de vinte e cinco anos; era o tipo acabado do pândego; excelente companheiro numa ceia de sociedade equívoca, nulo conviva numa sociedade honesta. Tinha chiste e certa inteligência, mas era preciso que estivesse em clima próprio para que se lhe desenvolvessem essas qualidades. No mais era bonito; tinha um lindo bigode; calçava botins do Campas, e vestia no mais apurado gosto; fumava tanto como um soldado e tão bem como um lord.

- Aposto que acordaste agora? - disse Batista entrando no gabinete do Vasconcelos.

- Há três quartos de hora; almocei neste instante. Toma um charuto.

Batista aceitou o charuto, e estirou-se numa cadeira americana, enquanto Vasconcelos acendia um fósforo.

- Viste o Gomes? - perguntou Vasconcelos.

- Vi-o ontem. Grande notícia; rompeu com a sociedade.

- Deveras?

- Quando lhe perguntei por que motivo ninguém o via há um mês, respondeu-me que estava passando por uma transformação, e que do Gomes que foi só ficará lembrança. Parece incrível, mas o rapaz fala com convicção.

- Não creio; aquilo é alguma caçoada que nos quer fazer. Que novidades há?

- Nada; isto é, tu é que deves saber alguma cousa.

- Eu, nada...

- Ora essa! Não foste ontem ao Jardim?

- Fui, sim; houve uma ceia...

- De família, sim. Eu fui ao Alcazar. A que horas acabou a reunião?

- Às quatro da manhã...

Vasconcelos estendeu-se numa rede, e a conversa continuou por esse tom, até que um moleque veio dizer a Vasconcelos que estava na sala o Sr. Gomes.

- Eis o homem! - disse Batista.

- Manda subir - ordenou Vasconcelos.

O moleque desceu para dar o recado; mas só um quarto de hora depois é que Gomes apareceu, por demorar-se algum tempo em baixo conversando com Augusta e Adelaide.

- Quem é vivo sempre aparece - disse Vasconcelos ao avistar o rapaz.

- Não me procuram... - disse ele.

- Perdão; eu já lá fui duas vezes, e disseram-me que havias saído.

- Só por grande fatalidade, porque eu quase nunca saio.

- Mas então estás completamente ermitão?

- Estou crisálida; vou reaparecer borboleta - disse Gomes sentando-se.

- Temos poesia... Guarda debaixo, Vasconcelos...

O novo personagem, o Gomes tão desejado e tão escondido, representava ter cerca de trinta anos. Ele, Vasconcelos e Batista eram a trindade do prazer e da dissipação, ligada por uma indissolúvel amizade. Quando Gomes, cerca de um mês antes, deixou de aparecer nos círculos do costume, todos repararam nisso, mas só Vasconcelos e Batista sentiram deveras. Todavia, não insistiram muito em arrancá-lo à solidão, somente pela consideração de que talvez houvesse nisso algum interesse do rapaz.

Gomes foi portanto recebido como um filho pródigo.

- Mas onde te meteste? Que é isso de crisálida e de borboleta? Cuidas que eu sou do mangue?

- É o que lhes digo, meus amigos. Estou criando asas.

- Asas! - disse Batista sufocando uma risada.

- Só se são asas de gavião para cair...

- Não, estou falando sério.

E com efeito Gomes apresentava um ar sério e convencido.

Vasconcelos e Batista olharam um para o outro.

- Pois se é verdade isso que dizes, explica-nos lá que asas são essas, e sobretudo para onde é que queres voar.

A estas palavras de Vasconcelos, acrescentou Batista:

- Sim, deves dar-nos uma explicação, e se nós, que somos o teu conselho de família, acharmos que a explicação é boa, aprovamo-la; senão, ficas sem asas, e ficas sendo o que sempre foste...

- Apoiado - disse Vasconcelos.

- Pois é simples; estou criando asas de anjo, e quero voar para o céu do amor.

- Do amor! - disseram os dous amigos de Gomes.

- É verdade - continuou Gomes -. Que fui eu até hoje? Um verdadeiro estroina, um perfeito pândego, gastando às mãos largas a minha fortuna e o meu coração. Mas isto é bastante para encher a vida? Parece que não...

- Até aí concordo... isso não basta; é preciso que haja outra cousa; a diferença está na maneira de...

- É exato - disse Gomes -; é exato; é natural que vocês pensem de modo diverso, mas eu acho que tenho razão em dizer que sem o amor casto e puro a vida é um puro deserto.

Batista deu um pulo...

Vasconcelos fitou os olhos em Gomes:

- Aposto que vais casar? - disse-lhe.

- Não sei se vou casar; sei que amo, e espero acabar por casar-me com a mulher a quem amo.

- Casar! - exclamou Batista.

E soltou uma estridente gargalhada.

Mas Gomes falava tão seriamente, insistia com tanta gravidade naqueles projetos de regeneração, que os dous amigos acabaram por ouvi-lo com igual seriedade.

Gomes falava uma linguagem estranha, e inteiramente nova na boca de um rapaz que era o mais doudo e ruidoso nos festins de Baco e de Citera.

- Assim, pois, deixas-nos? - perguntou Vasconcelos.

- Eu? Sim e não; encontrar-me-ão nas salas; nos hotéis e nas casas equívocas, nunca mais.

- <i> De profundis... - cantarolou Batista.

- Mas, afinal de contas - disse Vasconcelos - onde está a tua Marion? Pode-se saber quem ela é?

- Não é Marion, é Virgínia... Pura simpatia ao princípio, depois afeição pronunciada, hoje paixão verdadeira. Lutei enquanto pude; mas abati as armas diante de uma força maior. O meu grande medo era não ter uma alma capaz de oferecer a essa gentil criatura. Pois tenho-a, e tão fogosa, e tão virgem como no tempo dos meus dezoito anos. Só o casto olhar de uma virgem poderia descobrir no meu lodo essa pérola divina. Renasço melhor do que era...

- Está claro, Vasconcelos, o rapaz está doudo; mandemo-lo para a Praia Vermelha; e como pode ter algum acesso, eu vou-me embora...

Batista pegou no chapéu.

- Onde vais? - disse-lhe Gomes.

- Tenho que fazer; mas logo aparecerei em tua casa; quero ver se ainda é tempo de arrancar-te a esse abismo.

E saiu.

III

Os dous ficaram sós.

- Então é certo que estás apaixonado?

- Estou. Eu bem sabia que vocês dificilmente acreditariam nisto; eu próprio não creio ainda, e contudo é verdade. Acabo por onde tu começaste. Será melhor ou pior? Eu creio que é melhor.

- Tens interesse em ocultar o nome da pessoa?

- Oculto-o por ora a todos, menos a ti.

- É uma prova de confiança...

Gomes sorriu.

- Não - disse ele -, é uma condição sine qua non; antes de todos tu deves saber quem é a escolhida do meu coração; trata-se de tua filha.

- Adelaide? - perguntou Vasconcelos espantado.

- Sim, tua filha.

A revelação de Gomes caiu como uma bomba. Vasconcelos nem por sombras suspeitava semelhante cousa.

- Este amor é da tua aprovação? - perguntou-lhe Gomes.

Vasconcelos refletia, e depois de alguns minutos de silêncio, disse:

- O meu coração aprova a tua escolha; és meu amigo, estás apaixonado, e uma vez que ela te ame...

Gomes ia falar, mas Vasconcelos continuou sorrindo:

- Mas a sociedade?

- Que sociedade?

- A sociedade que nos tem em conta de libertinos, a ti e a mim, é natural que não aprove o meu ato.

- Já vejo que é uma recusa - disse Gomes entristecendo.

- Qual recusa, pateta! É uma objeção, que tu poderás destruir dizendo: a sociedade é uma grande caluniadora e uma famosa indiscreta. Minha filha é tua, com uma condição.

- Qual?

- A condição da reciprocidade. Ama-te ela?

- Não sei - respondeu Gomes.

- Mas desconfias...

- Não sei; sei que a amo e que daria a minha vida por ela, mas ignoro se sou correspondido.

- Hás de ser... Eu me incumbirei de apalpar o terreno. Daqui a dous dias dou-te a minha resposta. Ah! Se ainda tenho de ver-te meu genro!

A resposta de Gomes foi cair-lhe nos braços. A cena já roçava pela comédia quando deram três horas. Gomes lembrou-se que tinha rendez-vous com um amigo; Vasconcelos lembrou-se que tinha de escrever algumas cartas.

Gomes saiu sem falar às senhoras.

Pelas quatro horas Vasconcelos dispunha-se a sair, quando vieram anunciar-lhe a visita do Sr. José Brito.

Ao ouvir este nome o alegre Vasconcelos franziu o sobrolho.

Pouco depois entrava no gabinete o Sr. José Brito.

O Sr. José Brito era para Vasconcelos um verdadeiro fantasma, um eco do abismo, uma voz da realidade; era um credor.

- Não contava hoje com a sua visita - disse Vasconcelos.

- Admira - respondeu o Sr. José Brito com uma placidez de apunhalar -, porque hoje são 21.

- Cuidei que eram 19 - balbuciou Vasconcelos.

- Anteontem, sim; mas hoje são 21. Olhe - continuou o credor pegando no Jornal do Comércio que se achava numa cadeira -: quinta-feira, 21.

- Vem buscar o dinheiro?

- Aqui está a letra - disse o Sr. José Brito tirando a carteira do bolso e um papel da carteira.

- Por que não veio mais cedo? - perguntou Vasconcelos, procurando assim espaçar a questão principal.

- Vim às oito horas da manhã - respondeu o credor -, estava dormindo; vim às nove, idem; vim às dez, idem; vim às onze, idem; vim ao meio-dia, idem. Quis vir à uma hora, mas tinha de mandar um homem para a cadeia, e não me foi possível acabar cedo. Às três jantei, e às quatro aqui estou.

Vasconcelos puxava o charuto a ver se lhe ocorria alguma ideia boa de escapar ao pagamento com que ele não contava.

Não achava nada; mas o próprio credor forneceu-lhe ensejo.

- Além de quê - disse ele-, a hora não importa nada, porque eu estava certo de que o senhor me vai pagar.

- Ah! - disse Vasconcelos -. É talvez um engano; eu não contava com o senhor hoje, e não arranjei o dinheiro...

- Então, como há de ser? - perguntou o credor com ingenuidade.

Vasconcelos sentiu entrar-lhe n'alma a esperança.

- Nada mais simples - disse -; o senhor espera até amanhã...

- Amanhã quero assistir à penhora de um indivíduo que mandei processar por uma larga dívida; não posso...

- Perdão, eu levo-lhe o dinheiro à sua casa...

- Isso seria bom se os negócios comerciais se arranjassem assim. Se fôssemos dous amigos é natural que eu me contentasse com a sua promessa, e tudo acabaria amanhã; mas eu sou seu credor, e só tenho em vista salvar o meu interesse... Portanto, acho melhor pagar hoje...

Vasconcelos passou a mão pelos cabelos.

- Mas se eu não tenho! - disse ele.

- É uma cousa que o deve incomodar muito, mas que a mim não me causa a menor impressão... isto é, deve causar-me alguma, porque o senhor está hoje em situação precária.

- Eu?

- É verdade; as suas casas da rua da Imperatriz estão hipotecadas; a da rua de São Pedro foi vendida, e a importância já vai longe; os seus escravos têm ido a um e um, sem que o senhor o perceba, e as despesas que o senhor há pouco fez para montar uma casa a certa dama da sociedade equívoca são imensas. Eu sei tudo; sei mais do que o senhor...

Vasconcelos estava visivelmente aterrado.

O credor dizia a verdade.

- Mas enfim - disse Vasconcelos -, o que havemos de fazer?

- Uma cousa simples; duplicamos a dívida, e o senhor passa-me agora mesmo um depósito.

- Duplicar a dívida! Mas isto é um...

- Isto é uma tábua de salvação; sou moderado. Vamos lá, aceite. Escreva-me aí o depósito, e rasga-se a letra.

Vasconcelos ainda quis fazer objeção; mas era impossível convencer o Sr. José Brito.

Assinou o depósito de dezoito contos.

Quando o credor saiu, Vasconcelos entrou a meditar seriamente na sua vida.

Até então gastara tanto e tão cegamente que não reparara no abismo que ele próprio cavara a seus pés.

Veio porém adverti-lo a voz de um dos seus algozes.

Vasconcelos refletiu, calculou, recapitulou as suas despesas e as suas obrigações, e viu que da fortuna que possuía tinha na realidade menos da quarta parte.

Para viver como até ali vivera, aquilo era nada menos que a miséria.

Que fazer em tal situação?

Vasconcelos pegou no chapéu e saiu.

Vinha caindo a noite.

Depois de andar algum tempo pelas ruas entregue às suas meditações, Vasconcelos entrou no Alcazar.

Era um meio de distrair-se.

Ali encontraria a sociedade do costume.

Batista veio ao encontro do amigo.

- Que cara é essa? - disse-lhe.

- Não é nada, pisaram-me um calo - respondeu Vasconcelos, que não encontrava melhor resposta.

Mas um pedicuro que se achava perto de ambos ouviu o dito, e nunca mais perdeu de vista o infeliz Vasconcelos, a quem a cousa mais indiferente incomodava. O olhar persistente do pedicuro aborreceu-o tanto, que Vasconcelos saiu.

Entrou no Hotel de Milão, para jantar. Por mais preocupado que ele estivesse, a exigência do estômago não se demorou.

Ora, no meio do jantar lembrou-lhe aquilo que não devia ter-lhe saído da cabeça: o pedido de casamento feito nessa tarde por Gomes.

Foi um raio de luz.

"Gomes é rico", pensou Vasconcelos; "o meio de escapar a maiores desgostos é este; Gomes casa-se com Adelaide, e como é meu amigo não me negará o que eu precisar. Pela minha parte procurarei ganhar o perdido... Que boa fortuna foi aquela lembrança do casamento!"

Vasconcelos comeu alegremente; voltou depois ao Alcazar, onde alguns rapazes e outras pessoas fizeram esquecer completamente os seus infortúnios.

Às três horas da noite Vasconcelos entrava para casa com a tranquilidade e regularidade do costume.

IV

No dia seguinte o primeiro cuidado de Vasconcelos foi consultar o coração de Adelaide. Queria porém fazê-lo na ausência de Augusta. Felizmente esta precisava de ir ver à rua da Quitanda umas fazendas novas, e saiu com o cunhado, deixando a Vasconcelos toda a liberdade.

Como os leitores já sabem, Adelaide queria muito ao pai, e era capaz de fazer por ele tudo. Era, além disso, um excelente coração. Vasconcelos contava com essas duas forças.

- Vem cá, Adelaide - disse ele entrando na sala -; sabes quantos anos tens?

- Tenho quinze.

- Sabes quantos anos tem tua mãe?

- Vinte e sete, não é?

- Tem trinta; quer dizer que tua mãe casou-se com quinze anos.

Vasconcelos parou, a fim de ver o efeito que produziam estas palavras; mas foi inútil a expectativa; Adelaide não compreendeu nada.

O pai continuou:

- Não pensaste no casamento?

A menina corou muito, hesitou em falar, mas como o pai instasse, respondeu:

- Qual, papai! Eu não quero casar...

- Não queres casar? É boa! Por quê?

- Porque não tenho vontade, e vivo bem aqui.

- Mas tu podes casar e continuar a viver aqui...

- Bem; mas não tenho vontade.

- Anda lá... Amas alguém, confessa.

- Não me pergunte isso, papai... eu não amo ninguém.

A linguagem de Adelaide era tão sincera, que Vasconcelos não podia duvidar.

"Ela fala a verdade", pensou ele; "é inútil tentar por esse lado..."

Adelaide sentou-se ao pé dele, e disse:

- Portanto, meu paizinho, não falemos mais nisso...

- Falemos, minha filha; tu és criança, não sabes calcular. Imagina que eu e a tua mãe morremos amanhã. Quem te há de amparar? Só um marido.

- Mas se eu não gosto de ninguém...

- Por ora; mas hás de vir a gostar se o noivo for um bonito rapaz, de bom coração... Eu já escolhi um que te ama muito, e a quem tu hás de amar.

Adelaide estremeceu.

- Eu? - disse ela-. Mas... quem é?

- É o Gomes.

- Não o amo, meu pai...

- Agora, creio; mas não negas que ele é digno de ser amado. Dentro de dous meses estás apaixonada por ele.

Adelaide não disse palavra. Curvou a cabeça e começou a torcer nos dedos uma das tranças bastas e negras. O seio arfava-lhe com força; a menina tinha os olhos cravados no tapete.

- Vamos, está decidido, não? - perguntou Vasconcelos.

- Mas, papai, e se eu for infeliz?...

- Isso é impossível, minha filha; hás de ser muito feliz; e hás de amar muito a teu marido.

- Oh! Papai - disse-lhe Adelaide com os olhos rasos de água-, peço-lhe que não me case ainda...

- Adelaide, o primeiro dever de uma filha é obedecer a seu pai, e eu sou teu pai. Quero que te cases com o Gomes; hás de casar.

Estas palavras, para terem todo o efeito, deviam ser seguidas de uma retirada rápida. Vasconcelos compreendeu isso, e saiu da sala deixando Adelaide na maior desolação.

Adelaide não amava ninguém. A sua recusa não tinha por ponto de partida nenhum outro amor; também não era resultado de aversão que tivesse pelo seu pretendente.

A menina sentia simplesmente uma total indiferença pelo rapaz.

Nestas condições o casamento não deixava de ser uma odiosa imposição.

Mas que faria Adelaide? A quem recorreria?

Recorreu às lágrimas.

Quanto a Vasconcelos, subiu ao gabinete e escreveu as seguintes linhas ao futuro genro:

Tudo caminha bem; autorizo-te a vires fazer a corte à pequena, e espero que dentro de dous meses o casamento esteja concluído.

Fechou a carta e mandou-a.

Pouco depois voltaram de fora Augusta e Lourenço.

Enquanto Augusta subiu para o quarto da toilette para mudar de roupa, Lourenço foi ter com Adelaide, que estava no jardim.

Reparou que ela tinha os olhos vermelhos, e inquiriu a causa; mas a moça negou que fosse de chorar.

Lourenço não acreditou nas palavras da sobrinha, e instou com ela para que lhe contasse o que havia.

Adelaide tinha grande confiança no tio, até por causa da sua rudeza de maneiras. No fim de alguns minutos de instâncias, Adelaide contou a Lourenço a cena com o pai.

- Então, é por isso que estás chorando, pequena?

- Pois então? Como fugir ao casamento?

- Descansa, não te casarás; eu te prometo que não te hás de casar...

A moça sentiu um estremecimento de alegria.

- Promete, meu tio, que há de convencer a papai?

- Hei de vencê-lo ou convencê-lo, não importa; tu não te hás de casar. Teu pai é um tolo.

Lourenço subiu ao gabinete de Vasconcelos, exatamente no momento em que este se dispunha a sair.

- Vais sair? - perguntou-lhe Lourenço.

- Vou.

- Preciso falar-te.

Lourenço sentou-se, e Vasconcelos, que já tinha o chapéu na cabeça, esperou de pé que ele falasse.

- Senta-te - disse Lourenço.

Vasconcelos sentou-se.

- Há dezesseis anos...

- Começas de muito longe; vê se abrevias uma meia dúzia de anos, sem o quê não prometo ouvir o que me vais dizer.

- Há dezesseis anos - continuou Lourenço - que és casado; mas a diferença entre o primeiro dia e o dia de hoje é grande.

- Naturalmente - disse Vasconcelos -. Tempora mutantur et...

- Naquele tempo - continuou Lourenço -, dizias que encontraras o paraíso, o verdadeiro paraíso, e foste durante dous ou três anos o modelo dos maridos. Depois mudaste completamente; e o paraíso tornar-se-ia verdadeiro inferno se tua mulher não fosse tão indiferente e fria como é, evitando assim as mais terríveis cenas domésticas.

- Mas, Lourenço, que tens com isso?

- Nada; nem é disso que vou falar-te. O que me interessa é que não sacrifiques tua filha por um capricho, entregando-a a um dos teus companheiros de vida solta...

Vasconcelos levantou-se:

- Estás doudo! - disse ele.

- Estou calmo, e dou-te o prudente conselho de não sacrificares tua filha a um libertino.

- Gomes não é libertino; teve uma vida de rapaz, é verdade, mas gosta de Adelaide, e reformou-se completamente. É um bom casamento, e por isso acho que todos devemos aceitá-lo. É a minha vontade, e nesta casa quem manda sou eu.

Lourenço procurou falar ainda, mas Vasconcelos já ia longe.

"Que fazer?", pensou Lourenço.

A+
A-