Conto

Linha Reta e Linha Curva

1869
Este conto foi publicado pela primeira vez no Jornal das Famílias, entre outubro de 1865 e janeiro de 1866, assinado por Job. É, na verdade, a adaptação de uma peça de teatro de Machado de Assis, intitulada As forcas caudinas, provavelmente escrita em 1863 e inédita em vida do escritor.

II

No dia seguinte àquele em que se passaram as cenas descritas no capítulo anterior, entendeu o céu que devia regar com as suas lágrimas o solo da formosa Petrópolis.

Tito, que destinava esse dia a ver toda a cidade, foi obrigado a conservar-se em casa. Era um amigo que não incomodava, porque quando era demais sabia escapar-se discretamente, e quando o não era, tornava-se o mais delicioso dos companheiros.

Tito sabia juntar muita jovialidade a muita delicadeza; sabia fazer rir sem saltar fora das conveniências. Acrescia que, voltando de uma longa e pitoresca viagem, trazia as algibeiras da memória (deixem passar a frase) cheias de vivas reminiscências. Tinha feito uma viagem de poeta e não de peralvilho. Soube ver e sabia contar. Estas duas qualidades, indispensáveis ao viajante, por desgraça são as mais raras. A maioria das pessoas que viajam nem sabem ver, nem sabem contar.

Tito tinha andado por todas as repúblicas do mar Pacífico, tinha vivido no México e em alguns estados americanos. Tinha depois ido à Europa no paquete da linha de New York. Viu Londres e Paris. Foi à Espanha, onde viveu a vida de Almaviva, dando serenatas às janelas das Rosinas de hoje. Trouxe de lá alguns leques e mantilhas. Passou à Itália e levantou o espírito à altura das recordações da arte clássica. Viu a sombra de Dante nas ruas de Florença; viu as almas dos doges pairando saudosas sobre as águas viúvas do mar Adriático; a terra de Rafael, de Virgílio e Miguel Ângelo foi para ele uma fonte viva de recordações do passado e de impressões para o futuro. Foi à Grécia, onde soube evocar o espírito das gerações extintas que deram ao gênio da arte e da poesia um fulgor que atravessou as sombras dos séculos.

Viajou ainda mais o nosso herói, e tudo viu com olhos de quem sabe ver e tudo contava com alma de quem sabe contar. Azevedo e Adelaide passavam horas esquecidas.

- Do amor - dizia ele -, eu só sei que é uma palavra de quatro letras, um tanto eufônica, é verdade, mas núncia de lutas e desgraças. Os bons amores são cheios de felicidade, porque têm a virtude de não alçarem olhos para as estrelas do céu; contentam-se com ceias à meia-noite e alguns passeios a cavalo ou por mar.

Esta era a linguagem constante de Tito. Exprimia ela a verdade, ou era uma linguagem de convenção? Todos acreditavam que a verdade estava na primeira hipótese, até porque essa era de acordo com o espírito jovial e folgazão de Tito.

No primeiro dia da residência de Tito em Petrópolis, a chuva, como disse acima, impediu que os diversos personagens desta história se encontrassem. Cada qual ficou na sua casa. Mas o dia imediato foi mais benigno; Tito aproveitou o bom tempo para ir ver a risonha cidade da serra. Azevedo e Adelaide quiseram acompanhá-lo; mandaram aparelhar três ginetes próprios para o ligeiro passeio.

Na volta foram visitar Emília. Durou poucos minutos a visita. A bela viúva recebeu-os com graça e cortesia de princesa. Era a primeira vez que Tito lá ia; e fosse por isso, ou por outra circunstância, foi ele quem mereceu as principais atenções da dona da casa.

Diogo, que então fazia a sua centésima declaração de amor a Emília, e a quem Emília acabava de oferecer uma chávena de chá, não viu com bons olhos a demasiada atenção que o viajante merecia da dama dos seus pensamentos. Essa, e talvez outras circunstâncias, faziam com que o velho Adônis assistisse à conversação com a cara fechada.

À despedida Emília ofereceu a casa a Tito, com a declaração de que teria a mesma satisfação em recebê-lo muitas vezes. Tito aceitou cavalheiramente o oferecimento; feito o quê, saíram todos.

Cinco dias depois desta visita Emília foi à casa de Adelaide. Tito não estava presente; andava a passeio. Azevedo tinha saído para um negócio, mas voltou daí a alguns minutos. Quando, depois de uma hora de conversa, Emília já de pé preparava-se para voltar a casa, entrou Tito.

- Ia sair quando entrou - disse Emília -. Parece que nos contrariamos em tudo.

- Não é por minha vontade - respondeu Tito-; pelo contrário, meu desejo é não contrariar pessoa alguma, e portanto não contrariar Vossa Excelência.

- Não parece.

- Por quê?

Emília sorriu e disse com uma inflexão de censura:

- Sabe que me daria prazer se utilizasse do oferecimento de minha casa; ainda se não utilizou. Foi esquecimento?

- Foi.

- É muito amável...

- Sou muito franco. Eu sei que Vossa Excelência preferia uma delicada mentira; mas eu não conheço nada mais delicado que a verdade.

Emília sorriu.

Nesse momento entrou Diogo.

- Ia sair, D. Emília? - perguntou ele.

- Esperava o seu braço.

- Aqui o tem.

Emília despediu-se de Azevedo e de Adelaide. Quanto a Tito, no momento em que ele curvava-se respeitosamente, Emília disse-lhe com a maior placidez da alma:

- Há alguém tão delicado como a verdade: é o Sr. Diogo. Espero dizer o mesmo...

- De mim? - interrompeu Tito -. Amanhã mesmo.

Emília saiu pelo braço de Diogo.

No dia seguinte, com efeito, Tito foi à casa de Emília. Ela o esperava com certa impaciência. Como não soubesse a hora em que ele devia apresentar-se lá, a bela viúva esperou-o a todos os momentos, desde a manhã. Só ao cair da tarde é que Tito dignou-se aparecer.

Emília morava com uma tia velha. Era uma boa senhora, amiga da sobrinha, e inteiramente escrava da sua vontade. Isto quer dizer que não havia em Emília o menor receio que a boa tia não assinasse de antemão.

Na sala em que Tito foi recebido não estava ninguém. Ele teve portanto tempo de sobra para examiná-la à vontade. Era uma sala pequena, mas mobiliada e adornada com gosto. Móveis leves, elegantes e ricos; quatro finíssimas estatuetas, copiadas de Pradier, um piano de Erard, tudo disposto e arranjado com vida.

Tito gastou o primeiro quarto de hora no exame da sala e dos objetos que a enchiam. Esse exame devia influir muito no estudo que ele quisesse fazer do espírito da moça. Dize-me como moras, dir-te-ei quem és.

Mas o primeiro quarto de hora correu sem que aparecesse viva alma, nem que se ouvisse rumor de natureza alguma. Tito começou a impacientar-se. Já sabemos que espírito brusco era ele, apesar da suprema delicadeza que todos lhe reconheciam. Parece, porém, que a sua rudeza, quase sempre exercida contra Emília, era antes estudada que natural. O que é certo é que no fim de meia hora, aborrecido pela demora, Tito murmurou consigo:

- Quer tomar desforra!

E tomando o chapéu que havia posto numa cadeira ia dirigindo-se para a porta quando ouviu um farfalhar de sedas. Voltou a cabeça; Emília entrava.

- Fugia?

- É verdade.

- Perdoe a demora.

- Não há que perdoar; não podia vir, era natural que fosse por algum motivo sério. Quanto a mim, não tenho igualmente de que pedir perdão. Esperei, estava cansado, voltaria em outra ocasião. Tudo isto é natural.

Emília ofereceu uma cadeira a Tito e sentou-se num sofá.

- Realmente - disse ela acomodando o balão -, o Sr. Tito é um homem original.

- É a minha glória. Não imagina como eu aborreço as cópias. Fazer o que muita gente faz, que mérito há nisso? Não nasci para esses trabalhos de imitação.

- Já uma cousa fez como muita gente.

- Qual foi?

- Prometeu-me ontem esta visita e veio cumprir a promessa.

- Ah! Minha senhora, não lance isto à conta das minhas virtudes. Podia não vir; vim; não foi vontade, foi... acaso.

- Em todo caso, agradeço-lhe.

- É o meio de me fechar a sua porta.

- Por quê?

- Porque eu não me dou com esses agradecimentos; nem creio mesmo que eles possam acrescentar nada à minha admiração pela pessoa de Vossa Excelência. Fui visitar muitas vezes as estátuas dos museus da Europa, mas se elas se lembrassem de me agradecer um dia, dou-lhe a minha palavra que não voltava lá.

A estas palavras seguiu-se um silêncio de alguns segundos.

Emília foi quem falou primeiro.

- Há muito tempo que se dá com o marido de Adelaide?

- Desde criança - respondeu Tito.

- Ah! Foi criança?

- Ainda hoje sou.

- É exatamente o tempo das minhas relações com Adelaide. Nunca me arrependi.

- Nem eu.

- Houve um tempo - prosseguiu Emília - em que estivemos separadas; mas isso não trouxe mudança alguma às nossas relações. Foi no tempo do meu primeiro casamento.

- Ah! Foi casada duas vezes?

- Em dous anos.

- E por que enviuvou da primeira?

- Porque meu marido morreu - disse Emília rindo-se.

- Mas eu pergunto outra cousa. Por que se fez viúva, mesmo depois da morte de seu primeiro marido? Creio que poderia continuar casada.

- De que modo? - perguntou Emília com espanto.

- Ficando mulher do finado. Se o amor acaba na sepultura acho que não vale a pena de procurá-lo neste mundo.

- Realmente o Sr. Tito é um espírito fora do comum.

- Um tanto.

- É preciso que o seja para desconhecer que a nossa vida não importa essas exigências da eterna fidelidade. E demais, pode-se conservar a lembrança dos que morrem sem renunciar às condições da nossa existência. Agora é que eu lhe pergunto por que me olha com olhos tão singulares?...

- Não sei se são singulares, mas são os meus.

- Então, acha que eu cometi uma bigamia?

- Eu não acho nada. Ora, deixe-me dizer-lhe a última razão da minha incapacidade para os amores.

- Sou toda ouvidos.

- Eu não creio na fidelidade.

- Em absoluto?

- Em absoluto.

- Muito obrigada.

- Ah! Eu sei que isto não é delicado; mas em primeiro lugar, eu tenho a coragem das minhas opiniões, e em segundo foi Vossa Excelência quem me provocou. É infelizmente verdade, eu não creio nos amores leais e eternos. Quero fazê-la minha confidente. Houve um dia em que eu tentei amar; concentrei todas as forças vivas do meu coração; dispus-me a reunir o meu orgulho e a minha ilusão na cabeça do objeto amado. Que lição mestra! O objeto amado, depois de me alimentar as esperanças, casou-se com outro que não era nem mais bonito, nem mais amante.

- Que prova isso? - perguntou a viúva.

- Prova que me aconteceu o que pode acontecer e acontece diariamente aos outros.

- Ora...

- Há de me perdoar, mas eu creio que é uma cousa já metida na massa do sangue.

- Não diga isso. É certo que podem acontecer casos desses; mas serão todos assim? Não admite uma exceção? Aprofunde mais os corações alheios se quiser encontrar a verdade... e há de encontrar.

- Qual! - disse Tito abaixando a cabeça e batendo com a bengala na ponta do pé.

- Posso afirmá-lo - disse Emília.

- Duvido.

- Tenho pena de uma criatura assim - continuou a viúva -. Não conhecer o amor é não conhecer a vida! Há nada igual à união de duas almas que se adoram? Desde que o amor entra no coração, tudo se transforma, tudo muda, a noite parece dia, a dor assemelha-se ao prazer... Se não conhece nada disto, pode morrer, porque é o mais infeliz dos homens.

- Tenho lido isso nos livros, mas ainda não me convenci...

- Já reparou na minha sala?

- Já vi alguma cousa.

- Reparou naquela gravura?

Tito olhou para a gravura que a viúva lhe indicava.

- Se me não engano - disse ele -, aquilo é o Amor domando as feras.

- Veja e convença-se.

- Com a opinião do desenhista? - perguntou Tito -. Não é possível. Tenho visto gravuras vivas. Tenho servido de alvo a muitas setas; crivam-me todo, mas eu tenho a fortaleza de São Sebastião; afronto, não me curvo.

- Que orgulho!

- O que pode fazer dobrar uma altivez destas? A beleza? Nem Cleópatra. A castidade? Nem Susana. Resuma, se quiser, todas as qualidades em uma só criatura, e eu não mudarei... É isto e nada mais.

Emília levantou-se e dirigiu-se para o piano.

- Não aborrece a música? - perguntou ela abrindo o piano.

- Adoro-a - respondeu o moço sem se mover; - agora, quanto aos executantes só gosto dos bons. Os maus, dá-me ímpetos de enforcá-los.

Emília executou ao piano os prelúdios de uma sinfonia. Tito ouvia-a com a mais profunda atenção. Realmente a bela viúva tocava divinamente.

- Então - disse ela levantando-se -, devo ser enforcada?

- Deve ser coroada. Toca perfeitamente.

- Outro ponto em que não é original. Toda a gente me diz isso.

- Ah! Eu também não nego a luz do sol.

Neste momento entrou na sala a tia de Emília. Esta apresentou-lhe Tito. A conversa tomou então um tom pessoal e reservado; durou pouco, aliás, porque Tito, travando repentinamente do chapéu, declarou que tinha que fazer.

- Até quando?

- Até sempre.

Despediu-se e saiu.

Emília ainda o acompanhou com os olhos por algum tempo, da janela da casa. Mas Tito, como se o caso não fosse com ele, seguiu sem olhar para trás.

Mas, exatamente no momento em que Emília voltava para dentro, Tito encontrava o velho Diogo.

Diogo ia na direção da casa da viúva. Tinha um ar pensativo. Tão distraído ia que chegou quase a esbarrar com Tito.

- Onde vai tão distraído? - perguntou Tito.

- Ah! É o senhor? Vem da casa de D. Emília?

- Venho.

- Eu para lá vou. Coitada! Há de estar muito impaciente com a minha demora...

- Não está, não senhor - respondeu Tito com o maior sangue-frio.

Diogo lançou-lhe um olhar de despeito.

A isso seguiu-se um silêncio de alguns minutos, durante o qual Diogo brincava com a corrente do relógio, e Tito lançava ao ar novelos de fumaça de um primoroso havana. Um desses novelos foi desenrolar-se na cara de Diogo. O velho tossiu e disse a Tito:

- Apre lá, Sr. Tito! É demais!

- O quê, meu caro senhor? - perguntou o rapaz.

- Até a fumaça!

- Foi sem reparar. Mas eu não compreendo as suas palavras...

- Eu me faço explicar - disse o velho tomando um ar risonho -. Dê-me o seu braço...

- Pois não!

E os dous seguiram conversando como dous amigos velhos.

- Estou pronto a ouvir a sua explicação.

- Lá vai. Sabe o que eu quero? É que seja franco. Não ignora que eu suspiro aos pés da viúva. Peço-lhe que não discuta o fato, admita-o simplesmente. Até aqui tudo ia caminhando bem, quando o senhor chegou a Petrópolis.

- Mas...

- Ouça-me silenciosamente. Chegou o senhor a Petrópolis, e sem que eu lhe tivesse feito mal algum, entendeu de si para si que me havia de tirar do lance. Desde então começou a corte...

- Meu caro Sr. Diogo, tudo isso é uma fantasia. Eu não faço a corte a D. Emília, nem pretendo fazer-lha. Vê-me acaso frequentar a casa dela?

- Acaba de sair de lá.

- É a primeira vez que a visito.

- Quem sabe?

- Demais, ainda ontem não ouviu em casa de Azevedo as expressões com que ela se despediu de mim? Não são de mulher que...

- Ah! Isso não prova nada. As mulheres, e sobretudo aquela, nem sempre dizem o que sentem...

- Então acha que aquela sente alguma cousa por mim?...

- Se não fosse isso, não lhe falaria.

- Ah! Ora eis aí uma novidade.

- Suspeito apenas. Ela só me fala do senhor; indaga-me vinte vezes por dia de sua pessoa, dos seus hábitos, do seu passado e das suas opiniões... Eu, como há de acreditar, respondo a tudo que não sei, mas vou criando um ódio ao senhor, do qual não me poderá jamais criminar.

- É culpa minha se ela gosta de mim? Ora, vá descansado, Sr. Diogo. Nem ela gosta de mim, nem eu gosto dela. Trabalhe desassombradamente e seja feliz.

- Feliz! Se eu pudesse ser! Mas não... não creio; a felicidade não se fez para mim. Olhe, Sr. Tito, amo aquela mulher como se pode amar a vida. Um olhar dela vale mais para mim que um ano de glórias e de felicidade. É por ela que eu tenho deixado os meus negócios à toa. Não viu outro dia que uma carta me chegou às mãos, cuja leitura me fez entristecer? Perdi uma causa. Tudo por quê? Por ela!

- Mas ela não lhe dá esperanças?

- Eu sei o que é aquela moça! Ora trata-me de modo que eu vou ao sétimo céu; ora é tal a sua indiferença que me atira ao inferno. Hoje um sorriso, amanhã um gesto de desdém. Ralha-me de não visitá-la; vou visitá-la, ocupa-se tanto de mim como de Ganimedes; Ganimedes é o nome de um cãozinho felpudo que eu lhe dei. Importa-se tanto comigo como com o cachorro... É de propósito. É um enigma aquela moça.

- Pois não serei eu quem o decifre, Sr. Diogo. Desejo-lhe muita felicidade. Adeus.

E os dous separaram-se. Diogo seguiu para a casa de Emília, Tito, para a casa de Azevedo.

Tito acabava de saber que a viúva pensava nele; todavia, isso não lhe dera o menor abalo. Por quê? É o que saberemos mais adiante. O que é preciso dizer desde já é que as mesmas suspeitas despertadas no espírito de Diogo, tivera a mulher de Azevedo. A intimidade de Emília dava lugar a uma franca interrogação e a uma confissão franca. Adelaide, no dia seguinte àquele em que se passou a cena que referi acima, disse a Emília o que pensava.

A resposta da viúva foi uma risada.

- Não te compreendo - disse a mulher de Azevedo.

- É simples - disse a viúva -. Julgas-me capaz de apaixonar-me pelo amigo de teu marido? Enganas-te. Não, eu não o amo. Somente, como te disse no dia em que o vi aqui pela primeira vez, empenho-me em tê-lo a meus pés. Se bem me recordo foste tu mesma quem me deu conselho. Aceitei-o. Hei de vingar o nosso sexo. É um pouco de vaidade minha, embora; mas eu creio que aquilo que nenhuma fez, fá-lo-ei eu.

- Ah! Cruelzinha! É isso?

- Nem mais, nem menos.

- Achas possível?

- Por que não?

- Reflete que a derrota será dupla...

- Será, mas não há de haver.

Esta conversa foi interrompida por Azevedo. Um sinal de Emília fez calar Adelaide. Ficou convencionado que nem mesmo Azevedo saberia de cousa alguma. E, com efeito, Adelaide nada comunicou a seu marido.

III

Tinham-se passado oito dias depois do que acabo de narrar.

Tito, como o temos visto até aqui, estava no terreno do primeiro dia. Passeava, lia, conversava e parecia inteiramente alheio aos planos que se tramavam em roda dele. Durante esse tempo foi apenas duas vezes à casa de Emília, uma com a família de Azevedo, outra, com Diogo. Nestas visitas era sempre o mesmo, frio, indiferente, impassível. Não havia olhar, por mais sedutor e significativo, que o abalasse; nem a ideia de que andava no pensamento da viúva era capaz de animá-lo.

"Por que, ao menos, se não é capaz de amar, não procura entreter um desses namoros de sala, que tanto lisonjeiam a vaidade dos homens?"

Esta pergunta era feita por Emília a si mesma, sob a impressão da estranheza que lhe causava a indiferença do rapaz. Ela não compreendia que Tito pudesse conservar-se de gelo diante dos seus encantos. Mas infelizmente era assim.

Cansada de trabalhar em vão, a viúva determinou dar um golpe mais decisivo. Encaminhou a conversa para as doçuras do casamento e lamentou o estado de sua viuvez. O casal Azevedo era para ela o tipo da perfeita felicidade conjugal. Apresentava-o aos olhos de Tito como um incentivo para quem queria ser venturoso na terra. Nada, nem a tese, nem a hipótese, nada moveu a frieza de Tito.

Emília jogava um jogo perigoso. Era preciso decidir entre os seus desejos de vingar o sexo e as conveniências da sua posição; mas ela era de um caráter imperioso; respeitava muito os princípios de sua moral severa, mas não acatava do mesmo modo as conveniências de que a sociedade cercava essa moral. A vaidade impunha-se no espírito dela, com força prodigiosa. Assim quê, a bela viúva foi usando todos os meios que era lícito empregar para fazer apaixonar Tito.

Mas, apaixonado ele, o que faria ela? A pergunta é ociosa; desde que ela o tivesse aos pés, trataria de conservá-lo aí fazendo parelha ao velho Diogo. Era o melhor troféu que uma beleza altiva pode ambicionar.

Uma manhã, oito dias depois das cenas referidas no capítulo anterior, apareceu Diogo em casa de Azevedo. Tinham aí acabado de almoçar; Azevedo subira para o gabinete, a fim de aviar alguma correspondência para a Corte; Adelaide achava-se na sala do pavimento térreo.

Diogo entrou com uma cara contristada, como nunca se lhe vira. Adelaide correu para ele.

- Que é isso? - perguntou ela.

- Ah! Minha senhora... sou o mais infeliz dos homens!

- Por quê? Venha sentar-se...

Diogo sentou-se, ou antes deixou-se cair na cadeira que Adelaide lhe ofereceu. Esta tomou lugar ao pé dele, animou-o a contar as suas mágoas.

- Então que há?

- Duas desgraças - respondeu ele -. A primeira em forma de sentença. Perdi mais uma demanda. É uma desgraça isto, mas não é nada...

- Pois há maior?...

- Há. A segunda desgraça foi em forma de carta.

- De carta? - perguntou Adelaide.

- De carta. Veja isto.

Diogo tirou da carteira uma cartinha cor-de-rosa, cheirando a essência de magnólia.

Adelaide leu a carta para si.

Quando ela acabou, perguntou-lhe o velho:

- Que me diz a isto?

- Não compreendo - respondeu Adelaide.

- Esta carta é dela.

- Sim, e depois?

- É para ele.

- Ele quem?

- Ele! O diabo! O meu rival! O Tito!

- Ah!

- Dizer-lhe o que senti quando apanhei esta carta, é impossível. Nunca tremi na minha vida! Mas quando li isto, não sei que vertigem se apoderou de mim. Ando tonto! A cada passo como que desmaio... Ah!

- Ânimo! - disse Adelaide.

- É isto mesmo que eu vinha buscar... é uma consolação, uma animação. Soube que estava aqui e estimei achá-la só... Ah! Quanto sinto que o estimável seu marido esteja vivo... porque a melhor consolação era aceitar Vossa Excelência um coração tão mal compreendido.

- Felizmente ele está vivo.

Diogo soltou um suspiro e disse:

- Felizmente!

E depois de um silêncio continuou:

- Tive duas ideias: uma foi o desprezo; mas desprezá-los é pô-los em maior liberdade e ralar-me de dor e de vergonha; a segunda foi o duelo... é melhor... eu mato... ou...

- Deixe-se disso.

- É indispensável que um de nós seja riscado do número dos vivos.

- Pode ser engano...

- Mas não é engano, é certeza.

- Certeza de quê?

Diogo abriu o bilhete e disse:

- Ora, ouça:

Se ainda não me compreendeu é bem curto de penetração. Tire a máscara e eu me explicarei. Esta noite tomo chá sozinha. O importuno Diogo não me incomodará com as suas tolices. Dê-me a felicidade de vê-lo e admirá-lo.

Emília

- Mas que é isto?

- Que é isto? Ah! Se fosse mais do que isto já eu estava morto! Pude pilhar a carta, e a tal entrevista não se deu...

- Quando foi escrita a carta?

- Ontem.

- Tranquilize-se. É capaz de guardar um segredo? O que lhe vou dizer é grave. Mas só a sua aflição me faz falar. Posso afirmar-lhe que esta carta é uma pura caçoada. Trata-se de vingar o nosso sexo ultrajado; trata-se de fazer com que Tito se apaixone... nada mais.

Diogo estremeceu de alegria.

- Sim? - perguntou ele.

- É pura verdade. Mas veja lá, isto é segredo. Se lho descobri foi por vê-lo aflito. Não nos comprometa.

- Isso é sério? - insistiu Diogo.

- Como quer que lho diga?

- Ah! Que peso me tirou! Pode estar certa de que o segredo caiu num poço. Oh! Muito me hei de rir... muito me hei de rir... Que boa inspiração tive em vir falar-lhe! Diga-me, posso dizer a D. Emília que sei tudo?

- Não!

- É então melhor que não me dê por achado...

- Sim.

- Muito bem!

Dizendo estas palavras o velho Diogo esfregava as mãos e piscava os olhos. Estava radiante. Quê! Ver o suposto rival sendo vítima dos laços da viúva! Que glória! Que felicidade!

Nisto estava quando à porta do interior apareceu Tito. Acabava de levantar-se da cama.

- Bom dia, D. Adelaide - disse ele dirigindo-se para a mulher de Azevedo.

Depois, sentando-se e voltando a cara para Diogo:

- Bom dia - disse -. Está hoje alegre... Tirou a sorte grande?

- A sorte grande? - perguntou Diogo -. Tirei... tirei...

- Dormiu bem? - perguntou Adelaide a Tito.

- Como um justo que sou. Tive sonhos cor-de-rosas: sonhei com o Sr. Diogo.

- Ah! Sonhou comigo? - murmurou entre dentes o velho namorado -. Coitado! tenho pena dele!

- Mas onde está Azevedo? - perguntou Tito a Adelaide.

- Anda de passeio.

- Já?

- Pois então. Onze horas.

- Onze horas! É verdade, acordei muito tarde. Tinha duas visitas para fazer: uma a D. Emília...

- Ah! - disse Diogo.

- De que se espanta, meu caro?

- De nada! De nada!

- Bom; vou mandar pôr o seu almoço - disse Adelaide.

Os dous ficaram sós. Tito acendeu um cigarro de palha; Diogo afetava grande distração, mas olhava sorrateiramente para o moço. Este, apenas soltou duas fumaças, voltou-se para o velho e disse:

- Como vão os seus amores?

- Que amores?

- Os seus, a Emília... Já lhe fez compreender toda a imensidade da paixão que o devora?

- Qual... Preciso de algumas lições... Se mas quisesse dar?

- Eu? Está sonhando!

- Ah! Eu sei que o senhor é forte... É modesto, mas é forte... e até fortíssimo! Ora, eu sou realmente um aprendiz... Tive há pouco a ideia de desafiá-lo.

- A mim?

- É verdade, mas foi uma loucura de que me arrependi...

- Além de quê não é uso em nosso país...

- Em toda a parte é uso vingar a honra.

- Bravo, D. Quixote!

- Ora, eu acreditava-me ofendido na honra.

- Por mim?

- Mas emendei a mão; reparei que era antes eu quem ofendia pretendendo lutar com um mestre, eu, simples aprendiz...

- Mestre de quê?

- Dos amores! Oh! Eu sei que é mestre...

- Deixe-se disso... eu não sou nada... o Sr. Diogo, sim; o senhor vale um urso, vale mesmo dous. Como havia de eu... Ora!... Aposto que teve ciúmes?

- Exatamente.

- Mas era preciso não me conhecer; não sabe das minhas ideias?

- Homem, às vezes é pior.

- Pior, como?

- As mulheres não deixam uma afronta sem castigo... As suas ideias são afrontosas... Qual será o castigo? Paro aqui... paro aqui...

- Onde vai?

- Vou sair. Adeus. Não se lembre mais da minha desastrada ideia do duelo...

- Que está acabado... Ah! O senhor escapou de boa!

- De quê?

- De morrer. Eu enfiava-lhe a espada por esse abdome... com um gosto... com um gosto só comparável ao que tenho de abraçá-lo vivo e são!

Diogo riu-se com um riso amarelo.

- Obrigado, obrigado. Até logo!

- Venha cá, onde vai? Não se despede de D. Adelaide?

- Eu já volto - disse Diogo travando do chapéu e saindo precipitadamente.

Tito ainda o acompanhou com os olhos.

"Este sujeito", disse o moço consigo quando se viu só, "não tem nada de original. Aquela opinião a respeito das mulheres não é dele... Melhor... Já se conspira; é o que me convém. Hás de vir! Hás de vir!"

Um criado alemão veio anunciar a Tito que o almoço estava preparado. Tito ia entrando quando assomou à porta a figura de Azevedo.

- Ora, graças a Deus! O meu amigo não se levanta com o sol. Estás com olhos de quem acaba de dormir.

- É verdade, e vou almoçar.

Dirigiram-se os dous para dentro, onde a mesa estava posta à espera de Tito.

- Almoças outra vez? - perguntou Tito.

- Não.

- Pois então vais ver como se come.

Tito sentou-se à mesa; Azevedo estirou-se num sofá.

- Onde foste? - perguntou Tito.

- Fui passear... Compreendi que é preciso ver e admirar o que é indiferente, para apreciar e ver melhor aquilo que faz a felicidade íntima do coração.

- Ah! Sim? Bem vês que até a felicidade por igual fatiga! Afinal sempre a razão do meu lado.

- Talvez. Apesar de tudo, quer-me parecer que já intentas entrar na família dos casados.

- Eu?

- Tu, sim.

- Por quê?

- Mas, dize, é ou não verdade?

- Qual, verdade!

- O que sei é que uma destas tardes em que adormeceste lendo, não sei que livro, ouvi-te pronunciar em sonhos, com a maior ternura, o nome de Emília.

- Deveras? - perguntou Tito mastigando.

- É exato. Concluí que se sonhavas com ela é que a tinhas no pensamento, e se a tinhas no pensamento é que a amavas.

- Concluíste mal.

- Mal?

- Concluíste como um marido de cinco meses. Que prova um sonho?

- Prova muito!

- Não prova nada! Pareces velha supersticiosa...

- Mas enfim, alguma cousa há por força... Serás capaz de me dizeres o que é?

- Homem, podia dizer-te alguma cousa se não fosses casado...

- Que tem que eu seja casado?

- Tem tudo. Seria indiscreto sem querer e até sem saber. À noite, entre um beijo e um bocejo, o marido e a mulher abrem um para o outro a bolsa das confidências. Sem pensares, podes deitar tudo a perder.

- Não digas isso. Vamos lá. Há novidade?

- Não há nada.

- Confirmas as minhas suspeitas. Gostas da Emília.

- Ódio, não lhe tenho, é verdade.

- Gostas. E ela merece. É uma boa senhora, de não vulgar beleza, possuindo as melhores qualidades. Talvez preferisses que não fosse viúva?...

- Sim; é natural que se embale dez vezes por dia na lembrança dos dous maridos que já exportou para o outro mundo... à espera de exportar o terceiro...

- Não é dessas...

- Afianças?

- Quase que posso afiançar.

- Ah! Meu amigo - disse Tito levantando-se da mesa e indo acender um charuto -, toma o conselho de um tolo: nunca afiances nada, principalmente em tais assuntos. Entre a prudência discreta e a cega confiança não é lícito duvidar, a escolha está decidida nos próprios termos da primeira. O que podes tu afiançar a respeito de Emília? Não a conheces melhor do que eu. Há quinze dias que nos conhecemos, e eu já lhe leio no interior; estou longe de atribuir-lhe maus sentimentos, mas tenho a certeza de que não possui as raríssimas qualidades que são necessárias à exceção. Que sabes tu?

- Realmente, eu não sei nada.

"Não sabes nada!", disse Tito consigo.

- Falo pelas minhas impressões. Parecia-me que um casamento entre vocês ambos não vinha fora de propósito.

- Se me falas outra vez em casamento, saio.

- Pois só a palavra?

- A palavra, a ideia, tudo.

- Entretanto, admiras e aplaudes o meu casamento...

- Ah! Eu aplaudo nos outros muitas cousas de que não sou capaz de usar. Depende da vocação...

Adelaide apareceu à porta da sala de jantar. A conversa cessou entre os dous rapazes.

- Trago-lhes uma notícia.

- Que notícia? - perguntaram-lhe os dous.

- Recebi um bilhete de Emília... Pede-nos que vamos lá amanhã, porque...

- Por quê? - perguntou Azevedo.

- Talvez dentro de oito dias se retire para a cidade.

- Ah! - disse Tito com a maior indiferença deste mundo.

- Apronta as tuas malas - disse Azevedo a Tito.

- Por quê?

- Não segues os passos da deusa?

- Não zombes, cruel amigo! Quando não...

- Anda lá...

Adelaide sorriu ouvindo estas palavras.

Daí a meia hora Tito subiu para o gabinete em que Azevedo tinha os livros. Ia, dizia, ler as Confissões de Santo Agostinho.

- Que repentina viagem é esta? - perguntou Azevedo à sua mulher.

- Tens muito empenho em saber?

- Tenho.

- Pois bem. Olha que é segredo. Eu não sei positivamente, mas creio que é uma estratégia.

- Estratégia? Não entendo.

- Eu te digo. Trata-se de prender o Tito.

- Prender?

- Estás hoje tão bronco! Prender pelos laços do amor...

- Ah!

- Emília julgou que deve fazê-lo. É só para brincar. No dia em que ele se declarar vencido fica ela vingada do que ele disse contra o sexo.

- Não está mau... E tu entras nesta estratégia...

- Como conselheira.

- Trama-se então contra um amigo, um alter ego.

- Tá, tá, tá. Cala a boca. Não vás fazer abortar o plano.

Azevedo riu-se a bandeiras despregadas. No fundo achava engraçada a punição premeditada ao pobre Tito.

A visita que Tito disse ter de fazer à viúva naquele dia não se realizou.

Diogo, que apenas saíra da casa de Azevedo, ciente das intenções da viúva, fora para casa desta esperar o rapaz, embalde lá esteve durante o dia, embalde jantou, embalde aborreceu a tarde inteira tanto a Emília como à tia; Tito não apareceu.

Mas, à noite, à hora em que Diogo, já vexado de tanta demora na casa da moça, tratava de sair, anunciou-se a chegada de Tito.

Emília estremeceu; mas esse movimento escapou a Diogo.

Tito entrou na sala onde se achavam Emília, a tia, e Diogo.

- Não contava com a sua visita - disse a viúva.

- Eu sou assim; apareço quando não me esperam. Sou como a morte e a sorte grande.

- Agora é a sorte grande - disse Emília.

- Que número é o seu bilhete, minha senhora?

- Número doze, isto é, doze horas que tenho tido o prazer de ter hoje aqui o Sr. Diogo...

- Doze horas! - exclamou Tito voltando-se para o velho.

- Sem que ainda o nosso bom amigo nos contasse uma história...

- Doze horas! - repetiu Tito.

- Que admira, meu caro senhor? - perguntou Diogo.

- Acho um pouco estirado...

- As horas contam-se quando são aborrecidas... Peço para me retirar...

E dizendo isto, Diogo travou do chapéu para sair lançando um olhar de despeito e ciúme para a viúva.

- Que é isso? - perguntou esta -. Onde vai?

- Dou asas às horas - respondeu Diogo ao ouvido de Emília -; vão correr depressa agora.

- Perdoo-lhe e peço que se sente.

Diogo sentou-se.

A tia de Emília pediu licença para retirar-se alguns minutos.

Ficaram os três.

- Mas então - disse Tito -, nem ao menos uma história contou?

- Nenhuma.

Emília lançou um olhar a Diogo como para tranquilizá-lo. Este, mais calmo então, lembrou-se do que Adelaide lhe havia dito, e voltou às boas.

"Afinal de contas", disse ele consigo, "o caçoado é ele. Eu sou apenas o meio de prendê-lo... Contribuamos para que se lhe tire a proa."

- Nenhuma história - continuou Emília.

- Pois olhe, eu sei muitas - disse Diogo com intenção.

- Conte uma de tantas que sabe - disse Tito.

- Nada! Por que não conta o senhor?

- Se faz empenho...

- Muito... muito - disse Diogo piscando os olhos -. Conte lá, por exemplo, a história do taboqueado, a história das imposturas do amor, a história dos viajantes encouraçados; vá, vá.

- Não, vou contar a história de um homem e de um macaco.

- Oh! - disse a viúva.

- É muito interessante - disse Tito -. Ora, ouçam...

- Perdão - interrompeu Emília -, será depois do chá.

- Pois sim.

Daí a pouco servia-se o chá aos três. Findo ele, Tito tomou a palavra e começou a história:

A História de Um Homem e de Um Macaco

Não longe da vila ***, no interior do Brasil, morava há uns vinte anos um homem de trinta e cinco anos, cuja vida misteriosa era o objeto das conversas das vilas próximas e o objeto do terror que experimentavam os viajantes que passavam na estrada a dous passos da casa.

A própria casa era já de causar apreensões ao espírito menos timorato. Vista de longe nem parecia casa, tão baixinha era. Mas quem se aproximasse conheceria aquela construção singular. Metade do edifício estava ao nível do chão e metade abaixo da terra. Era entretanto uma casa solidamente construída. Não tinha porta nem janelas. Tinha um vão quadrado que servia ao mesmo tempo de janela e de porta. Era por ali que o misterioso morador entrava e saía.

Pouca gente o via sair, não só porque ele raras vezes o fazia, como porque o fazia em horas impróprias. Era nas horas da lua cheia que o solitário deixava a residência para ir passear nos arredores. Levava sempre consigo um grande macaco, que acudia pelo nome de Calígula.

O macaco e o homem, o homem e o macaco, eram dous amigos inseparáveis, dentro e fora de casa, na lua nova.

Mil versões corriam a respeito deste misterioso solitário.

A mais geral é que era um feiticeiro. Havia uma que o dava por doudo; outra por simplesmente atacado de misantropia.

Esta última versão tinha por si duas circunstâncias: a primeira era não constar nada de positivo que fizesse reconhecer no homem hábitos de feiticeiro ou alienado; a segunda era a amizade que ele parecia votar ao macaco e o horror com que fugia ao olhar dos homens. Quando a gente se aborrece dos homens toma sempre a afeição dos animais, que têm a vantagem de não discorrer, nem intrigar.

O misterioso... É preciso dar-lhe um nome: chamemo-lo Daniel. Daniel preferia o macaco, e não falava a mais homem algum. Algumas vezes os viajantes que passavam pela estrada ouviam partir de dentro da casa gritos do macaco e do homem; era o homem que afagava o macaco.

Como se alimentavam aquelas duas criaturas? Houve quem visse um dia de manhã abrir-se a porta, sair o macaco e voltar pouco depois com um embrulho na boca. O tropeiro que presenciava esta cena quis descobrir onde ia o macaco buscar aquele embrulho que levava sem dúvida os alimentos dos dous solitários. Na manhã seguinte introduziu-se no mato; o macaco chegou à hora do costume, e dirigiu-se para um tronco de árvore; havia sobre esse tronco um grande galho, que o bicho atirou ao chão. Depois, introduzindo as mãos no interior do velho tronco, tirou um embrulho igual ao da véspera e partiu.

O tropeiro persignou-se, e tão apreensivo ficou com a cena que acabava de presenciar que não a contou a ninguém.

Durava esta existência três anos.

Durante esse tempo o homem não envelhecera. Era o mesmo que no primeiro dia. Longas barbas ruivas e cabelos grandes caídos para trás. Usava um grande casaco de baeta, tanto no inverno, como no verão. Calçava botas e não usava chapéu.

Era impossível aos passageiros e aos moradores das vizinhanças penetrar na casa do solitário. Não o será decerto para nós, minha bela senhora, e meu caro amigo.

A casa divide-se em duas salas e um quarto. Uma sala é para jantar; a outra é... a de visitas. O quarto é ocupado pelos dous moradores, Daniel e Calígula.

As duas salas são de iguais dimensões; o quarto é uma metade da sala. A mobília da primeira sala compõe-se de dous sujos bancos encostados à parede, uma mesa baixa no centro. O chão é assoalhado. Pendem das paredes dous retratos: um de moça, outro de velho. A moça é uma figura angélica e deliciosa. O velho inspirava respeito e admiração. Das outras duas paredes pendem, de um lado uma faca de cabo de marfim, e do outro, uma mão de defunto, amarela e seca.

A sala de jantar tem apenas uma mesa e dous bancos.

A mobília do quarto resume-se num grabato em que dorme Daniel. Calígula estende-se no chão, junto à cabeceira do dono.

Tal é a mobília da casa.

A casa, que de fora parece não ter capacidade para conter um homem em pé, é contudo suficiente, visto estar, como disse, entranhada no chão.

Que vida terão passado aí dentro o macaco e o homem, no espaço de três anos? Não saberei dizê-lo.

Quando Calígula traz de manhã o embrulho, Daniel divide a comida em duas porções, uma para o almoço, outra para o jantar. Depois homem e macaco sentam-se em face um do outro na sala de jantar e comem irmãmente as duas refeições.

Quando chega a lua cheia saem os dous solitários, como já disse, todas as noites, até a época em que a lua passa a ser minguante. Saem às dez horas, pouco mais ou menos, e voltam pouco mais ou menos às duas horas da madrugada. Quando entram, Daniel tira a mão do finado que pende da parede e dá com ela duas bofetadas em si próprio. Feito isto, vai deitar-se; Calígula acompanha-o.

Uma noite, era no mês de junho, época de lua cheia, Daniel preparou-se para sair. Calígula deu um pulo e saltou à estrada. Daniel fechou a porta, e lá se foi com o macaco estrada acima.

A lua, inteiramente cheia, projetava os seus reflexos pálidos e melancólicos na vasta floresta que cobria colinas próximas, e clareava toda a vasta campina que rodeava a casa.

Só se ouvia ao longe o murmúrio de uma cachoeira, e ao perto o piar de algumas corujas, e o chilrar de uma infinidade de grilos espalhados na planície.

Daniel caminhava pausadamente, levando um pau debaixo do braço, e acompanhado do macaco, que saltava do chão aos ombros de Daniel e dos ombros de Daniel para o chão.

Mesmo sem a forma lúgubre que tinha aquele lugar por causa da residência do solitário, qualquer pessoa que encontrasse àquela hora Daniel e o macaco corria risco de morrer de medo. Daniel, extremamente magro e alto, tinha em si um ar lúgubre. Os cabelos da barba e da cabeça, crescidos em abundância, faziam a sua cabeça ainda maior do que era. Sem chapéu era uma cabeça verdadeiramente satânica.

Calígula, que nos outros dias era um macaco ordinário, tomava, naquelas horas de passeio noturno, um ar tão lúgubre e tão misterioso como o de Daniel.

Havia já uma hora que os dous solitários tinham saído de casa. A casa ficara já um pouco longe. Nada mais natural do que chegar a polícia nessa ocasião, tomar a entrada da casa e reconhecer o mistério. Mas a polícia, apesar dos meios que tinha à sua disposição, não se animava a investigar no mistério que o povo reputava diabólico. Também a polícia é humana, e nada do que é humano lhe é desconhecido.

Havia uma hora, disse eu, que os dous passeadores tinham saído de casa. Começavam então a subir uma pequena colina...

Tito foi interrompido por um bocejo do velho Diogo.

- Quer dormir? - perguntou o rapaz.

- É o que vou fazer.

- Mas a história?

- A história é muito divertida. Até aqui só temos visto duas cousas, um homem e um macaco; perdão... temos mais dous, um macaco e um homem. É muito divertida! Mas, para variar, o homem vai sair e fica o macaco.

Dizendo estas palavras com uma raiva cômica, Diogo travou do chapéu e saiu.

Tito soltou uma gargalhada.

- Mas vamos ao fim da história...

- Que fim, minha senhora? Eu já estava em talas por não saber como continuar... Era um meio de servi-la. Vejo que é um velho aborrecido...

- Não é, está enganado.

- Ah! Não?

- Divirto-me com ele. O que não impede que a presença do senhor me dê infinito prazer...

- Vossa Excelência disse agora uma falsidade.

- Qual foi?

- Disse que lhe era agradável a minha conversa. Ora, isso é falso como tudo quanto é falso...

- Quer um elogio?

- Não, falo franco. Eu nem sei como Vossa Excelência me atura; desabrido, maçante, chocarreiro, sem fé em cousa alguma, sou um conversador muito pouco digno de ser desejado. É preciso ter uma grande soma de bondade para ter expressões tão benévolas... tão amigas...

- Deixe esse ar de mofa, e...

- Mofa, minha senhora?

- Ontem eu e minha tia tomamos chá sozinhas! Sozinhas!...

- Ah!

- Contava que o senhor viesse aborrecer-se uma hora conosco...

- Qual aborrecer... Eu lhe digo: o culpado foi o Ernesto.

- Ah! Foi ele?

- É verdade; deu comigo aí em casa de uns amigos, éramos quatro ao todo, rolou a conversa sobre o voltarete e acabamos por formar mesa. Ah! Mas foi uma noite completa! Aconteceu-me o que me acontece sempre: ganhei!

- Está bom.

- Pois olhe, ainda assim eu não jogava com pexotes; eram mestres de primeira força: um principalmente; até às onze horas a fortuna pareceu desfavorecer-me, mas dessa hora em diante desandou a roda para eles e eu comecei a assombrar... Pode ficar certa de que os assombrei. Ah! É que eu tenho diploma... Mas que é isso, está chorando?

Emília tinha com efeito o lenço nos olhos. Chorava? É certo que quando tirou o lenço dos olhos, tinha-os úmidos. Voltou-se contra a luz e disse ao moço:

- Qual... pode continuar.

- Não há mais nada; foi só isto - disse Tito.

- Estimo que a noite lhe corresse feliz...

- Alguma cousa...

- Mas a uma carta responde-se; por que não respondeu à minha? - disse a viúva.

- À sua qual?

- À carta que lhe escrevi pedindo que viesse tomar chá conosco?

- Não me lembro.

- Não se lembra?

- Ou, se recebi essa carta, foi em ocasião que a não pude ler, e então esqueci, esqueci-a em algum lugar...

- É possível: mas é a última vez...

- Não me convida mais para tomar chá?

- Não. Pode arriscar-se a perder distrações melhores.

- Isso, não digo: a senhora trata bem a gente, e em sua casa passam-se bem as horas... Isto é com franqueza. Mas então tomou chá sozinha? E o Diogo?

- Descartei-me dele. Acha que ele seja divertido?

- Parece que sim... É um homem delicado; um tanto dado às paixões, é verdade, mas sendo esse um defeito comum, acho que nele não é muito digno de censura.

- O Diogo está vingado.

- De quê, minha senhora?

Emília olhou fixamente para Tito e disse:

- De nada!

E levantando-se dirigiu-se para o piano.

- Vou tocar - disse ela-; não o aborrece?

- De modo nenhum.

Emília começou a tocar; mas era uma música tão triste que infundia certa melancolia no espírito do moço. Este, depois de algum tempo, interrompeu com estas palavras:

- Que música triste!

- Traduzo a minha alma - disse a viúva.

- Anda triste?

- Que lhe importam as minhas tristezas?

- Tem razão, não me importam nada. Em todo o caso não é comigo?

Emília levantou-se e foi para ele.

- Acha que lhe hei de perdoar a desfeita que me fez? - disse ela.

- Que desfeita, minha senhora?

- A desfeita de não vir ao meu convite!

- Mas eu já lhe expliquei...

- Paciência! O que sinto é que também nesse voltarete estivesse o marido de Adelaide.

- Ele retirou-se às dez horas, e entrou um parceiro novo, que não era de todo mau.

- Pobre Adelaide!

- Mas se eu lhe digo que ele se retirou às dez horas...

- Não devia ter ido. Devia pertencer sempre à sua mulher. Sei que estou falando a um descrido; não pode calcular a felicidade e os deveres do lar doméstico. Viverem duas criaturas uma para outra, confundidas, unificadas; pensar, respirar, sonhar a mesma cousa; limitar o horizonte nos olhos de cada uma, sem outra ambição, sem inveja de mais nada. Sabe o que é isto?

- Sei... É o casamento por fora.

- Conheço alguém que lhe provava aquilo tudo...

- Deveras? Quem é essa fênix?

- Se lho disser, há de mofar; não digo.

- Qual mofar! Diga lá, eu sou curioso.

- Não acredita que haja alguém que possa amá-lo?

- Pode ser...

- Não acredita que alguém, por despeito, por outra cousa que seja, tire da originalidade do seu espírito os influxos de um amor verdadeiro, mui diverso do amor ordinário dos salões; um amor capaz de sacrifício, capaz de tudo? Não acredita!

- Se me afirma, acredito; mas...

- Existe a pessoa e o amor.

- São então duas fênix.

- Não zombe. Existem... Procure...

- Ah! Isso há de ser mais difícil: não tenho tempo. E supondo que achasse, de que me servia? Para mim é perfeitamente inútil. Isso é bom para outros; para o Diogo, por exemplo...

- Para o Diogo?

A bela viúva pareceu ter um assomo de cólera. Depois de um silêncio disse:

- Adeus! Desculpe, estou incomodada.

- Então, até amanhã!

Dizendo o quê, Tito apertou a mão de Emília e saiu tão alegre e descuidoso como se saísse de um jantar de anos.

Emília, apenas ficou só, caiu numa cadeira e cobriu o rosto.

Estava nessa posição havia cinco minutos, quando assomou à porta a figura do velho Diogo.

O rumor que o velho fez entrando despertou a viúva.

- Ainda aqui!

- É verdade, minha senhora - disse Diogo aproximando-se -, é verdade. Ainda aqui, por minha infelicidade...

- Não entendo...

- Não saí para casa. Um demônio oculto me impeliu para cometer um ato infame. Cometi-o, mas tirei dele um proveito; estou salvo. Sei que me não ama.

- Ouviu?

- Tudo. E percebi.

- Que percebeu, meu caro senhor?

- Percebi que a senhora ama o Tito.

- Ah!

- Retiro-me, portanto, mas não quero fazê-lo sem que ao menos fique sabendo de que saio com ciência de que não sou amado; e que saio antes de me mandarem embora.

Emília ouviu as palavras de Diogo com a maior tranquilidade. Enquanto ele falava teve tempo de refletir no que devia dizer.

Diogo estava já a fazer o seu último cumprimento, quando a viúva lhe dirigiu a palavra.

- Ouça-me, Sr. Diogo. Ouviu bem, mas percebeu mal. Já que pretende ter sabido...

- Já sei; vem dizer que há um plano assentado de zombar com aquele moço...

- Como sabe?

- Disse-mo D. Adelaide.

- É verdade.

- Não creio.

- Por quê?

- Havia lágrimas nas suas palavras. Ouvi-as com a dor n'alma. Se soubesse como eu sofria!

A bela viúva não pôde deixar de sorrir ao gesto cômico de Diogo. Depois, como ele parecesse mergulhado em meditação sombria, disse:

- Engana-se, tanto que volto para a cidade.

- Deveras?

- Pois acredita que um homem como aquele possa inspirar qualquer sentimento sério? Nem por sombras!

Estas palavras foram ditas no tom com que Emília costumava persuadir aquele eterno namorado. Isso e mais um sorriso foi quanto bastou para acalmar o ânimo de Diogo. Daí a alguns minutos estava ele radiante.

- Olhe, e para desenganá-lo de uma vez vou escrever um bilhete ao Tito...

- Eu mesmo o levarei - disse Diogo louco de contente.

- Pois sim!

- Adeus, até amanhã. Tenha sonhos cor-de-rosa, e desculpe os meus maus modos. Até amanhã.

O velho beijou graciosamente a mão de Emília e saiu.

A+
A-