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Contos na Imprensa - Fase 8

Esta que se denominou aqui "oitava fase" dos contos avulsos de Machado de Assis reúne nove peças, publicadas em A Estação no ano de 1884. Dos nove contos, cinco são assinados por M. de A., três, por Machado de Assis e um por M. A.

Já há algum tempo, por iniciativa de editoras como a Jackson e a Nova Aguilar, e de indivíduos como Raimundo Magalhães Jr. (que nos anos 1950 publicou cinco volumes reunindo contos machadianos), o leitor dos séculos XX e XXI teve acesso a muitas dessas histórias. Nas edições anteriores à de 2008, a Nova Aguilar reuniu, sob o título de "Outros contos", 46 títulos. Os contos "completos" de Machado de Assis, no entanto, eram (e são) acessíveis eletronicamente, desde 2002, em www2.uol.com.br/ machadodeassis, graças a uma iniciativa pioneira de Cláudio Abramo.

Em 2008, como parte das comemorações do primeiro centenário da morte do escritor, a Nova Aguilar reuniu a obra completa de Machado de Assis em quatro volumes e ofereceu ao leitor, em suporte material, todos os contos machadianos. Aqueles que não foram selecionados pelo autor para figurarem nos sete volumes de contos que publicou durante sua vida compõem o segundo e o terceiro volume dessa edição, num total de mais de mil páginas, sob o título de "Contos avulsos". São 114 contos ao todo, na grande maioria, bastante extensos.

A imensidão e as dificuldades do corpus exigiram da nossa equipe uma espécie de reinvenção metodológica: distribuímos os contos por períodos, mais ou menos curtos, de modo que, a cada etapa, lidássemos com, no máximo 15 contos. O que se publica aqui é o que chamamos "Contos avulsos - fase 8", reunindo peças publicadas em A Estação entre janeiro e dezembro de 1884. Nos próximos meses, esperamos ir dando conta, em várias etapas semelhantes a esta, do conjunto completo.

Não há unidade temática entre os contos aqui reunidos, como, aliás, não costuma haver mesmo nos livros publicados pelo autor em vida, cujos títulos, sempre no plural, são por si só uma indicação de diversidade. Trata-se de peças em que às vezes já se desenha o humor machadiano e em que já é possível detectar-se o sarcasmo corrosivo peculiar ao autor maduro. Nessas peças, o sarcasmo machadiano passa a vir mais encorpado, revelando não somente uma severa crítica social, mas também um ceticismo em relação à humanidade. A acidez de Machado não escolhe tipos, antes atinge a todos, independente de sexo ou classe social. Nelas já se pode encontrar o que o crítico machadiano José Luiz Passos diz sobre as personagens do Bruxo: "Machado substitui a ênfase cênica pela constituição mais elaborada do comportamento humano, pelo aprofundamento psicológico dos seus personagens, pela verossimilhança das suas motivações e pela ambiguidade das suas composições morais".

Já foi notado que a ficção de Machado de Assis apresenta certos motivos recorrentes. "O caso do Romualdo", de 1884, é um exemplo disso. O conto, que é o mais longo desta reunião, já de início, expõe uma falha moral da personagem de Vieira para com a mulher, Carlota, falha esta que prenuncia o comportamento arrivista de Palha, de Quincas Borba: "Gostava muito do marido, não era loureira, e nada podia agravá-la mais do que o acordo que o marido procurava entre a conveniência política e os sentimentos dela". Convém notar que o romance foi publicado em livro em 1891, mas antes saíra em capítulos também no periódico A Estação, a partir de 1886.

O mesmo conto traz à tona um tópico já explorado antes em Memórias Póstumas de Brás Cubas, e que, de certa forma, aparece em toda a ficção de Machado. Trata-se do "princípio de Helvetius", no qual se explicita a ideia de que a ética pública tem uma base utilitária: o interesse pessoal, fundado no amor ao prazer e no temor ao sofrimento. Percebe-se a presença dessa filosofia no trecho: "O aperto de mão foi significativo; um tremia de esperanças, outro, de saudades; ambos pareciam pôr naquele arranco final todo o coração, e punham tão somente o interesse - ou de amor ou de política -, mas o velho interesse, tão amigo da gente e tão caluniado."

O ceticismo também se apresenta no conto "Entre duas datas" através de um tema muito caro a Machado: o efeito do tempo nas relações pessoais. O reencontro de ex-namorados também é tema de outros contos do escritor, como "Noite de almirante" (publicado no mesmo ano, 1884, na Gazeta de Notícias e no livro Histórias sem data), "Mariana" (de 1891, também publicado na Gazeta de Notícias, e, mais tarde, figurando em Várias histórias) e "Um quarto de século" (1893), ainda a ser publicado neste portal. As três primeiras narrativas são mais parecidas entre si, tendo a última um final ligeiramente diferente das primeiras. Mas a máxima que figura em "Entre duas datas" aplica-se perfeitamente às quatro peças: "Não se refazem os homens - e, nesta palavra, estão compreendidas as mulheres; nem eles nem elas se devolvem ao que foram... Dir-se-á que a terra volta a ser o que era, quando torna a estação melhor; a terra, sim, mas as plantas, não."

Não só de profundidade psicológica se sustenta a narrativa machadiana. Aqui e ali o Bruxo presenteia os leitores com narrativas leves, quase frívolas, porém com um humor refinado, no seu melhor estilo. É o caso de "Vinte anos! Vinte anos!", que, além de ser um conto curto e saboroso, faz o leitor do século XXI "passear" pelo Rio de Janeiro do século XIX:

Gonçalves foi por ali fora, rua do Passeio, rua da Ajuda, rua dos Ourives, até à rua do Ouvidor. Depois lembrou-se que a casa do correspondente, na rua do Hospício, ficava entre as de Uruguaiana e dos Andradas; subiu, pois, a do Ouvidor para ir tomar a primeira destas.

Também superficial e, além disso, de menor refinamento, é o conto "O melhor remédio", em que se poderia afirmar que Machado ensaia o gênero dramático, tal é o volume de diálogos na história.

A autoconsciência narrativa não poderia deixar de aparecer aqui como elemento distintivo da ficção do autor. Sabe-se que escritores ingleses do século XVIII, como Fielding e Sterne, foram influências fundamentais para que esse traço alcançasse excelência na prosa do autor brasileiro, a ponto de ser uma marca da sua produção. Em "Trina e una", há parágrafos inteiros de metanarrativa. Outros exemplos podem ser observados em: "Não digo nada das famílias, porque não é o principal do escrito, e eu prometi escrever isto em três folhas de almaço." ("O contrato"); ou "O triste é que ambos começaram por não gostar da mesma mulher, como o leitor sabe, se se lembra do que leu." ("A viúva Sobral").

Em crítica a Eça de Queirós, publicada em O Cruzeiro, em 1878, o brasileiro afirma que em O primo Basílio: "[...] cumpria não acumular tanto as cores, nem acentuar tanto as linhas", refletindo sobre o exagero de certos traços do português, que tornariam o livro inverossímil e pesado. Percebe-se que crítico e autor andam juntos nas opiniões e no exercício da narrativa: seja na exploração da fragilidade dos pactos e promessas ("O contrato"), dos dilemas éticos e morais no interior de cada indivíduo ("A carteira"), seja na sondagem da fatalidade de certos destinos ("Uma carta"), Machado de Assis surpreende pela crescente sofisticação com que trata a densidade da vida humana.

***

Para estabelecer o texto da presente edição eletrônica, utilizaram-se como fonte edições disponíveis na internet, cotejadas com as edições digitalizadas do periódico em que os contos foram publicados, disponíveis no acervo da Hemeroteca Digital da Fundação Biblioteca Nacional. Excepcionalmente, no conto "A carteira" a edição utilizada para cotejo foi a disponível no acervo digital da Coleção Brasiliana da Universidade de São Paulo.

Tal cotejo se revelou fundamental, na medida em que as edições existentes, tanto as impressas como as disponíveis em meio eletrônico, quase todas oriundas ou das coletâneas reunidas pela editora Jackson na coleção da obra completa de Machado de Assis, ou dos cinco volumes de contos machadianos publicados por Raimundo Magalhães Jr., apresentam problemas seriíssimos: falta de passagens inteiras, substituição de palavras, "correções" ao texto machadiano (quer com substituição de palavras talvez consideradas menos "nobres", quer com flexões verbais e nominais modificadas em observância a normas gramaticais). Disto procurou-se dar conta em links, que, nesta edição - o leitor notará - não se restringem às citações e alusões histórico-literárias e à toponímia, tratando de casos mais propriamente linguísticos.

Foi feita uma atualização ortográfica. Usaram-se iniciais maiúsculas para instituições: "Teatro Ginásio", "Câmara", "Igreja". Quanto aos numerais, manteve-se a forma usada nas publicações originais, ora por extenso, ora em algarismos.

Anotaram-se também palavras cujo sentido no texto machadiano é diferente do usual no português brasileiro do início do século XXI. Por exemplo: "folha" ("jornal"); "mofina" ("matéria de jornal, em geral difamatória"); "morder" ("criticar, falar mal"); "namorados" ("apaixonados, admiradores"). Mantiveram-se palavras estrangeiras na língua original: bond, toilette, in petto.

Usos hoje considerados incorretos foram mantidos, como a flexão de gênero em advérbio: "Enquanto ela, meia inclinada, ia acompanhando as linhas do livro [...]" (grifo nosso). Outra construção reiteradamente usada pelo autor (e aqui mantida) é a regência indireta indevida, como em "o que é que lhe impede de casar?", em vez de "o que é que o impede de casar?"

Buscou-se sempre a maior proximidade possível com a publicação original, o que nem sempre tem sido a política de edições posteriores. A edição Jackson da década de 1930 consagrou o uso de "dous", quando em A Estação o autor emprega quase sempre "dois" (embora, contraditoriamente, use "cousa" e não "coisa", exceto em "O caso do Romualdo", em que "coisas" aparece uma vez). Respeitaram-se as oscilações registradas na publicação original, às vezes no mesmo conto, entre "até o ponto" e "até ao enfado", "chegada à casa" e "chegando a casa", "em todo o caso" e "em todo caso", "daí três dias" e "daqui a dous meses". (Grifos nossos.)

Talvez o maior problema no estabelecimento de textos escritos no século XIX seja o da pontuação. Ao preparar esta edição, optou-se por uma política a meio caminho entre uma atualização radical, de acordo com as normas presentemente vigentes, e o respeito à pontuação de Machado de Assis, a qual, aliás, era comum aos seus contemporâneos, no Brasil e em Portugal. Conservaram-se todas as vírgulas antes da aditiva "e" precedendo verbos cujo sujeito era precisamente o mesmo da oração anterior, observando-se que não raro o autor omite a vírgula em casos absolutamente idênticos, às vezes no mesmo conto: "Não comprei, e fui andando.", mas "vi outro broche muito bonito e tive vontade de comprá-lo." Já não se dá, como em contos anteriores, a mesma oscilação entre o uso e não uso de vírgula antes de "e" que introduz sujeito diferente do da oração anterior: "ele relacionou-se na casa, e ninguém ignorava mais que entre ambos existia um laço íntimo."; "Mas aí volta o caixeiro, e ela torna ao exame das rendas, [...]"; Casos de ausência de vírgula, como em "Era um homem com quem ela antipatizava profundamente e que ele queria fazer amigo da casa." são raríssimos, talvez este sendo o único em todos os nove contos desta "fase".

Quanto às adversativas no meio de uma oração, o autor oscila entre isolá-las entre vírgulas e simplesmente não usar vírgula alguma: "Os olhos, porém, eram o menos."; mas: "ela porém respondeu-me que não". Respeitou-se, sempre, a oscilação, tal como consta na publicação original, ainda que se possa admitir que tal oscilação fosse do tipógrafo e não, necessariamente, do autor.

Preservou-se igualmente a alternância entre o emprego e o não emprego de vírgula antes de oração subordinada consecutiva: "tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro..."; mas: "ela pensava tão pouco em ouvi-la que não sabia já de que se tratava". Por outro lado, nos casos em que se considerou que a vírgula (ou a ausência dela) comprometia o melhor entendimento do texto, não se hesitou em intervir, como ocorreu no caso de vírgulas precedendo orações adjetivas restritivas (que foram suprimidas) e de falta de vírgulas precedendo orações adjetivas explicativas (que foram inseridas). Introduziu-se vírgula para indicar a elipse do verbo, o que o autor raramente faz, assim como nos casos de orações subordinadas reduzidas de gerúndio, e, ainda, nas orações em que há uma inversão na ordem sintática habitual da frase.

Optou-se por recorrer às aspas sempre que a "fala" de uma personagem é, na verdade, a expressão verbal de um pensamento que não chega a ser exteriorizado. Nos diálogos, foi usado parágrafo e travessão.

Esta não pretende ser uma edição crítica. O objetivo foi produzir uma edição fidedigna do texto machadiano que, através dos hiperlinks, oferece ao leitor do século XXI uma ferramenta de fácil utilização e encurta a distância entre ele, leitor, e o enorme universo de referências de Machado de Assis.

Os textos dos hiperlinks que constituem referências histórico-literárias e de caráter simbólico foram retirados do banco de dados "Citações e alusões na ficção de Machado de Assis", acessível neste portal. Na pesquisa dos links que não constituem referências da natureza descrita acima, como é o caso de nomes de ruas e cidades, de estabelecimentos comerciais etc., registre-se aqui a colaboração de Alice Ewbank e Camila Abreu, ex-bolsistas de Iniciação Científica na Fundação Casa de Rui Barbosa; no estabelecimento do texto e em sua revisão, bem como na elaboração de algumas notas, a de Laíza Verçosa do Nascimento, atual bolsista de Iniciação Científica. Na construção do texto digital e do software que possibilita a visualização dos links, o crédito é de Eduardo Pinheiro da Costa, técnico em informática da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Marta de Senna, pesquisadora
Laíza Verçosa do Nascimento, 
bolsista de Iniciação Científica 
Fundação Casa de Rui Barbosa/CNPq


junho de 2014

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