Coleção

Contos na Imprensa - Fase 6

Esta que se denominou aqui "sexta fase" dos contos avulsos de Machado de Assis reúne 12 peças, publicadas, entre 1878 e 1883.

Já há algum tempo, por iniciativa de editoras como a Jackson e a Nova Aguilar, e de indivíduos como Raimundo Magalhães Jr. (que nos anos 1950 publicou cinco volumes reunindo contos machadianos), o leitor dos séculos XX e XXI teve acesso a muitas dessas histórias. Nas edições anteriores à de 2008, a Nova Aguilar reuniu, sob o título de "Outros contos", 46 títulos. Os contos "completos" de Machado de Assis, no entanto, eram (e são) acessíveis eletronicamente, desde 2002, em www2.uol.com.br/machadodeassis, graças a uma iniciativa pioneira de Cláudio Abramo.

Em 2008, como parte das comemorações do primeiro centenário da morte do escritor, a Nova Aguilar reuniu a obra completa de Machado de Assis em quatro volumes e ofereceu ao leitor, em suporte material, todos os contos machadianos. Aqueles que não foram selecionados pelo autor para figurarem nos sete volumes de contos que publicou durante sua vida compõem o segundo e o terceiro volume dessa edição, num total de mais de mil páginas, sob o título de Contos avulsos. São 114 contos ao todo, na grande maioria, bastante extensos.

A imensidão e as dificuldades do corpus exigiram da nossa equipe uma espécie de reinvenção metodológica: distribuímos os contos por períodos, mais ou menos curtos, de modo que, a cada etapa, lidássemos com, no máximo 15 contos. O que se publica aqui é o que chamamos "Contos avulsos - fase 6", reunindo peças publicadas no Jornal das Famílias (as cinco primeiras), entre fevereiro e dezembro de 1878; e as demais, em A Estação, entre julho de 1879 e fevereiro de 1883. Dos 12 contos, a maioria é assinada por Machado de Assis, alguns, por M. de Assis, e um por Lara. Nos próximos meses, esperamos ir dando conta, em mais quatro etapas semelhantes a esta, do conjunto completo.

Não há unidade temática entre os contos aqui reunidos, como, aliás, não costuma haver mesmo nos livros publicados pelo autor em vida, cujos títulos, sempre no plural, são por si só uma indicação de diversidade. Trata-se de peças em que às vezes já se desenha o humor machadiano e em que já é possível detectar-se o sarcasmo corrosivo peculiar ao autor maduro, como nos dois exemplos que escolhemos para ilustrar: "Emílio formara-se em medicina. Por um alto sentimento de humanidade, Emílio não exercia a profissão; o obituário conservava o termo médio usual." (A herança); e "A ex-viúva encheu a vida do colchoeiro; ocupou em seu coração o lugar que até então pertencera à libra esterlina." (Conversão de um avaro)

Outra característica do melhor Machado que existe desde as primeiras produções e aqui já se vai consolidando, quase sempre com efeito cômico, é a autoconsciência narrativa, traço da melhor tradição cervantina (como lembra Carlos Fuentes em seu famoso ensaio Machado de La Mancha), de que são tributários também os autores ingleses do século XVIII (como Fielding e Sterne), tão caros ao nosso Machado de Assis. Vejam-se dois exemplos:

O estilo há de ir à feição do conto, que é singelo, nu, vulgar, não desses contos crespos e arrevesados com que autores de má sorte tomam o tempo e moem a paciência à gente cristã.

Há aí uma análise difícil, mormente agora, que não podemos mais distinguir a figura do rapaz. Ele está ainda na amurada; mas o paquete transpôs a barra, e vai perder-se no horizonte.

Nas narrativas deste conjunto, já encontrará o leitor peças de qualidade, que, no entanto, o autor excluiu das coletâneas que publicou em vida.

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Para estabelecer o texto da presente edição eletrônica, utilizaram-se como fonte edições disponíveis na internet, cotejadas com as edições digitalizadas dos periódicos em que os contos foram publicados, disponíveis no acervo da hemeroteca digital da Fundação Biblioteca Nacional.

Tal cotejo se revelou fundamental, na medida em que as edições existentes, tanto as impressas como as disponíveis em meio eletrônico, quase todas oriundas ou das coletâneas reunidas pela editora Jackson na coleção da obra completa de Machado de Assis, ou dos cinco volumes de contos machadianos publicados por Raimundo Magalhães Jr., apresentam problemas seriíssimos: falta de passagens inteiras, substituição de palavras, "correções" ao texto machadiano (quer com substituição de palavras talvez consideradas menos "nobres", quer com flexões verbais modificadas em observância a normas gramaticais). Disto procurou-se dar conta em links, que, nesta edição - o leitor notará - não se restringem às citações e alusões histórico-literárias e à toponímia, tratando de casos mais propriamente linguísticos.

Foi feita uma atualização ortográfica, mas, sempre que duas formas são consignadas em dicionários de hoje, respeitou-se o que está nas primeiras edições: "dezassete" e não "dezessete"; "dezanove" e não "dezenove"; "deleixado" e não "desleixado"; "quotidianas" e não "cotidianas"; "presepe" e não "presépio"; "mesteres" e não "misteres"; "gérmen" e não "germe"; "susceptível" e não "suscetível". Quanto aos numerais, manteve-se a forma usada nas publicações originais, ora por extenso, ora em algarismos. Usaram-se iniciais maiúsculas para instituições: "Câmara dos Lords", "Santo Ofício", "Arsenal de Guerra", "Escola Central", "Câmara dos Deputados".

Anotaram-se também palavras cujo sentido no texto machadiano é diferente do usual no português brasileiro do início do século XXI. Por exemplo: "modestamente", no sentido hoje pouco usual de "pudicamente", recatadamente; "boçal", referindo-se a a escravo negro recém-chegado da África, que ainda não falava o português; "quitandeira", no sentido de "vendedora de iguarias doces e salgadas feitas com massa de farinha"; "romance", designando uma composição instrumental de caráter histórico ou sentimental e de proporções limitada; etc.

Usos hoje considerados incorretos foram, obviamente, mantidos, como a flexão de gênero em advérbio: "A castelã da Gamboa assistiu à luta dos dois pretendentes meia penalizada, meia lisonjeada e meia remordida" (grifo nosso). Outra construção reiteradamente usada pelo autor (e aqui mantida) é o emprego do modo indicativo depois de "talvez": "Talvez ele pensa", que convive, às vezes no mesmo conto, com o emprego do subjuntivo (que hoje é a norma): "Talvez tenhamos casamento mais breve do que pensa...". Respeitaram-se também certas "violências" sintáticas, como em "Custava-lhe a reconhecer os seus colchões", em que a preposição "a" antecede o sujeito do verbo "custar", que é "reconhecer".

Buscou-se sempre a maior proximidade possível com a publicação original, o que nem sempre tem sido a política de edições posteriores. Um exemplo é a correção de "concertar" ("harmonizar", "pôr em concerto com", "arrumar"), que mudam para "consertar" ("reparar algo que se estragou"). A edição Jackson da década de 1930 consagrou o uso de "dous", quando no Jornal das Famílias o autor emprega quase sempre "dois" (embora, contraditoriamente, use "cousa" e não "coisa"). Respeitaram-se todas as oscilações registradas na publicação original como entre "até o" e "até ao", "chegar à casa" e "chegar a casa", "em todo o caso" e "em todo caso".

Talvez o maior problema no estabelecimento de textos escritos no século XIX seja o da pontuação. Ao preparar esta edição, optou-se por uma política a meio caminho entre uma atualização radical, de acordo com as normas presentemente vigentes, e o respeito à pontuação de Machado de Assis, a qual, aliás, era comum aos seus contemporâneos, no Brasil e em Portugal. Conservaram-se todas as vírgulas antes da aditiva "e" precedendo verbos cujo sujeito era precisamente o mesmo da oração anterior, observando-se que não raro o autor omite a vírgula em casos absolutamente idênticos, às vezes lado a lado, no mesmo conto: "Criou algumas forças, e interrogou diretamente a tia"; e "Ela olhou para o futuro e confiou nele." A mesma oscilação se dá com o uso e não uso de vírgula antes de "e" que introduz sujeito diferente do da oração anterior: "A prima de Rochinha também foi, e a noite passou-se alegremente para todos"; mas: "A dor passara e o beijo não viera".

Quanto às adversativas no meio de uma oração, o autor oscila entre isolá-las entre vírgulas e simplesmente não usar vírgula alguma, às vezes no mesmo conto: "Não amava, entretanto, a tia"; mas: "O sucesso entretanto fora grande". Respeitou-se, sempre, a oscilação, tal como consta na publicação original, ainda que se possa admitir que tal oscilação fosse do tipógrafo e não, necessariamente, do autor. Preservou-se igualmente a alternância entre o emprego e o não emprego de vírgula antes de oração subordinada consecutiva: "[...] a tristeza de Maria Luísa era tamanha, que feriu a atenção da amiga."; mas: "A primeira foi mostrar-se de uma tal ignorância que o pretendente achasse mais razoável esquecê-la".

Por outro lado, nos casos em que se considerou que a vírgula (ou a ausência dela) comprometia o melhor entendimento do texto, não se hesitou em intervir, como ocorreu no caso de vírgulas precedendo orações adjetivas restritivas (que foram suprimidas) e de falta de vírgulas precedendo orações adjetivas explicativas (que foram inseridas). Introduziu-se vírgula para indicar a elipse do verbo, o que o autor raramente faz (mas às vezes faz: "Sobre avaro, misantropo"), assim como nos casos de orações subordinadas reduzidas de gerúndio, e, ainda, nas orações em que há uma inversão na ordem sintática habitual da frase.

Optou-se por recorrer às aspas sempre que a "fala" de uma personagem é, na verdade, a expressão verbal de um pensamento que não chega a ser exteriorizado. Nos diálogos, foi usado parágrafo e travessão.

Esta não pretende ser uma edição crítica. O objetivo foi produzir uma edição fidedigna do texto machadiano que, através dos hiperlinks, oferece ao leitor do século XXI uma ferramenta de fácil utilização e encurta a distância entre ele, leitor, e o enorme universo de referências de Machado de Assis.

Os textos dos hiperlinks que constituem referências histórico-literárias e de caráter simbólico foram retirados do banco de dados "Citações e alusões na ficção de Machado de Assis", acessível neste portal. Na pesquisa dos links que não constituem referências da natureza descrita acima, como é o caso de nomes de ruas e cidades, de estabelecimentos comerciais etc., registre-se aqui a colaboração de Alice Ewbank e Camila Abreu, ex-bolsistas de Iniciação Científica na Fundação Casa de Rui Barbosa; no estabelecimento do texto e em sua revisão, bem como na elaboração de algumas notas, a de Laíza Verçosa do Nascimento e de Maira Moreira de Moura, atuais bolsistas de Iniciação Científica. Na construção do texto digital e do software que possibilita a visualização dos links, o crédito é de Eduardo Pinheiro da Costa, técnico em informática da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Marta de Senna, pesquisadora
Laíza Verçosa do Nascimento e Maira Moreira de Moura, 
bolsistas de Iniciação Científica 
Fundação Casa de Rui Barbosa/CNPq


janeiro de 2014

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