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número 9 • junho de 2012

O romance brasileiro: Machado de Assis
Barreto Filho

Em "Esquema de Machado de Assis", ensaio no qual Antonio Candido faz uma síntese precisa sobre a história da recepção crítica da obra machadiana, o crítico identifica na década de 1940 uma tendência às leituras pelo viés da filosofia cristã, que enfatizou a angústia existencial do homem e do escritor, sentimento que teria repercutido de maneira decisiva sobre a obra. No interior dessa vertente, Candido destaca Barreto Filho como um dos melhores, e seu livro, Introdução a Machado de Assis, de 1947, como "uma das interpretações mais maduras que possuímos de sua obra".

Mais de seis décadas após a publicação de sua Introdução, continuam a impressionar a consistência, a coerência e a sensibilidade dos escritos de Barreto Filho. Leitor amoroso e muito bem informado pelos principais estudos biográficos e críticos publicados até então, como os de Alfredo Pujol e Lúcia Miguel Pereira, Barreto Filho recompõe no livro o percurso completo do homem e do escritor, da infância à morte, dos primeiros versos publicados na década de 1850 ao último romance, o Memorial de Aires, de 1908.

Para refazer essa trajetória, lança mão também de seus conhecimentos de psicologia e psicanálise - Barreto Filho foi professor de psicologia da educação no Rio de Janeiro - de modo a construir sua própria interpretação do autor e seus escritos e, nas suas palavras, "descobrir a ligação que há entre a obra e o homem".

Tendo à disposição a imensa quantidade de dados e interpretações levantadas por grandes pesquisadores da obra machadiana por ocasião das comemorações do centenário de nascimento, em 1939, Barreto Filho faz uso de uma imaginação crítica e psicológica apurada para reconstituir a infância do escritor, sobre a qual restou pouquíssima documentação, e identifica na orfandade precoce de Machado a origem de um espírito trágico:

"Não é o céptico ou o humorista, que mais interessaram no seu tempo, o aspecto dominante e duradouro da sua obra, mas o seu espírito trágico no sentido antigo, dominado pela sensibilidade do inexorável."

Sem jamais impor suas convicções pessoais sobre o escritor ou a obra, Barreto Filho valoriza em Machado justamente as diferenças, aquilo que não compreende no homem, no escritor e na obra. Esse fascínio pela irredutibilidade do outro a categorias ou sistemas pré-determinados move sua crítica generosa e atenta, que não procura aplacar com certezas a perplexidade que a leitura de Machado lhe transmite.

Num momento em que parte importante da crítica procurava especificar as relações entre o humor machadiano e as influências inglesas de Swift, Shakespeare e Sterne, o crítico de ouvidos aguçados buscava as raízes do humorismo de Machado no ambiente brasileiro e carioca:

"As suas fontes são a pilhéria, a maledicência, a anedota carioca, essa coisa quase indefinível que já se cristalizara no espírito da capital, uma espécie de gracejo, menos pesado que a farsa, menos inteligente que a ironia, menos grosseiro que a facécia, e que podemos encontrar em outros escritores nossos, como Carlos de Laet, por exemplo."

A observação aguda sobre a fonte carioca do humorismo de Machado talvez se deva também à trajetória do crítico que, nascido em Aracaju em 1908, se mudou para o Rio de Janeiro ainda na adolescência. Em 1922, aos 14 anos, portanto, já estava no Rio, onde publicou o livro de poemas Catedral de oiro. Sua carreira como escritor, no entanto, começara em Sergipe, ainda mais precocemente, quando menino. Ao longo da vida publicaria ainda um romance que marcou época, Sob o olhar malicioso dos trópicos (1929). Junto com Andrade Murici, Tasso da Silveira e Cecília Meireles, participou no Rio de Janeiro do grupo Festa, de tendência espiritualista.

No ensaio que aqui se publica, "O romance brasileiro: Machado de Assis", os leitores terão oportunidade de conferir o talento crítico de José Barreto Filho, a quem a Machado de Assis em linha presta esta justa homenagem.

Os editores agradecem de público aos filhos e netos do crítico, que por intermédio da filha Maria Amélia Barreto Peixoto generosamente deram permissão para publicação deste artigo.



Palavras-chave: Barreto Filho; romance; humor.

Abstract: The essay "O romance brasileiro: Machado de Assis", republished in this edition of Machado de Assis em linha, is a sample of José Barreto Filho's critical talent, to which Machado de Assis em linha pays homage. As the reader will see, Barreto Filho never imposes his personal views on Machado and his works. Instead, he seems to value exactly what he cannot understand in the man, the writer and his writings. The fascination with the other's irreducibility to predetermined categories or systems is the main characteristic of his generous and attentive critique. Writing in a moment when many critics tried to specify the connections between Machado's humour and the influences of Swift, Shakespeare and Sterne, Barreto Filho pricked up his ears to find the roots of the writer's humour in Rio de Janeiro, an example of the independence and originality of his critique.

Keywords: Barreto Filho; novel; humour.

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