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número 8 • dezembro de 2011

Dom Casmurro
Agripino Grieco

"Sou dos que encontram uma espécie de magnetismo suspeito em Joaquim Maria. Admiro-o resmungando contra a minha admiração. E até parece que o que mais aproxima tanta gente dele é mesmo o fato de discordar tanto dele, de se irritar tanto em dados trechos. No amor a inteligências dessas há qualquer coisa de indefinível como no vício do jogo."

Foi sempre nesse tom, meio a contragosto, com raiva da sua admiração incontrolável, que Agripino Grieco escreveu sobre Machado de Assis. O autor de Dom Casmurro foi uma espécie de cachaça para esse poeta, jornalista e crítico controverso, fluminense nascido em Paraíba do Sul em 1888, às vezes tão mal humorado que se tornava divertido na sua ranzinzice. Um exemplo dessa combinação peculiar de mau humor e graça: "se pudéssemos obter a média das personagens de Machado, diríamos que sua principal criação namora viúva, lê romance francês, vai passear na Tijuca, é sovina e queima rato."

Seguindo a linhagem de Sílvio Romero, que viu e recriminou em Machado o macaqueador do humorismo de Sterne, Grieco deu mais um giro no estilete romeriano, apelidando Machado de "Sterne do Cais Pharoux". Amante da frase ferina, que nem sempre vem acompanhada do julgamento justo, foi capaz de sentenciar, em pleno 1959, quando o futebol já se tornara esporte nacional e promovera grandes comoções (como a perda da Copa do Mundo para o Uruguai no Maracanã, em 1950), que "duas coisas, especificamente da zona de John Bull, não convêm absolutamente aos trópicos: o futebol e o humour."

A passagem do tempo se encarregou de contradizer o crítico. Mas naqueles anos, marcados por uma verdadeira machadolatria, alimentada pelas comemorações do centenário do nascimento, em 1939, e pelas homenagens ao cinquentenário da morte, celebrados em 1958, Agripino Grieco provocou a ira de muita gente. Assim, não é de espantar o estrondo que produziram os dois livros que dedicou integralmente ao criador de Capitu, Machado de Assis, de 1959, e Viagem em torno a Machado de Assis, de 1969.

Nos seus ensaios, às vezes dá a impressão de ter escolhido franca e deliberadamente a contramão. No primeiro livro dedicado a Machado, chegou a autoproclamar-se herético e blasfemo. No segundo, recorrendo a Brunetière, justificou-se dizendo que "estimular uns tantos à heresia literária é a melhor maneira de fazê-los apreciar as razões de sua ortodoxia".

Em ambos os livros, o crítico atribui sua dificuldade de adesão ao culto a Machado à frequentação tardia do escritor carioca - "todo o meu mal consistiu em bater à porta do mestre do Cosme Velho depois de longa visita àqueles que o haviam ajudado a formar-se: Diderot, Voltaire, Mérimée, Flaubert. Vir assim das cidades europeias para o Rio... Se eu o lesse integralmente nos tempos de rapaz, provavelmente sentiria outro afeto por ele."

Entretanto, nem tudo ficou dissolvido pela sua pena ácida. Leitor voraz e erudito, Agripino Grieco contribuiu para revelar a estatura internacional do escritor brasileiro, comparando-o, entre outros, com Swift, Diderot, Heine e Flaubert, como fizeram outros críticos mais jovens que ele, tais como Augusto Meyer e Eugênio Gomes, que entre as décadas de 1930 e 1950 contribuíram para incluir a obra machadiana no âmbito dos estudos comparados.

Conhecedor profundo da vida, que esmiúça, e da obra, que percorreu de cabo a rabo e em todos os seus gêneros, sem preconceito nem mesmo com a produção inicial do escritor, Agripino traz em seus textos informações preciosas e insights que ainda hoje podem interessar a pesquisadores e críticos.

Com a publicação do ensaio sobre Dom Casmurro, extraído do livro de 1959, Machado de Assis em linha presta homenagem à voz dissonante, erudita e hoje pouco lembrada de Agripino Grieco, morto em 1973. Oferece também aos leitores a oportunidade de conhecer a produção desse crítico provocador, que contribuiu para temperar um pouco a machadolatria às vezes inconsequente do seu tempo.

Os editores agradecem de público a Alfredo Grieco, neto do crítico, que gentilmente autorizou a publicação deste ensaio.

Palavras-chave: Dom Casmurro; crítica literária; intertextualidade.

Abstract: A dissenting voice among the critics of Machado de Assis of the mid 20th century, who in their vast majority worshipped the novelist, Agripino Grieco in this particular chapter, candidly admits to his affection for Dom Casmurro, which, he claims, is one of the books he would take with himself into exile. Being extremely well-read, he establishes links between Machado and several authors of the Western tradition, often shedding new light upon the writer's fiction.

Keywords: Dom Casmurro; literary criticism; intertextuality.

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